Coronavírus: saiba como o Japão lutou contra o surto

Coronavírus: saiba como o Japão lutou contra o surto

A luta ainda não acabou e o Japão passou por momentos muito difíceis, mesmo com “poucos” casos de Covid-19 e menos de 1000 mortes

Uma matéria de um canal muito famoso no Brasil, insinua que o Japão “venceu” o surto de coronavírus sem isolamento, mantendo serviços não essenciais abertos e sem realizar milhares de testes, como fizeram outros países. Mas a realidade de como o Japão está lutando foi bem diferente. Conheça as medidas tomadas pelo país e saiba quais podem ajudar você a se distanciar do contágio. O Japão faz alerta sobre doença misteriosa na China.

Bem no início do ano, o Japão fez um alerta a comunidade internacional sobre um novo tipo de pneumonia na China, que já havia matado cerca de 50 pessoas até o dia 09 de janeiro.

Já nessa época, o Ministério da Saúde do Japão havia emitido um alerta aos viajantes japoneses que visitaram a China para procuraram imediatamente um médico, em caso de sintomas de pneumonia.

Nesse ponto, algo que talvez o governo chinês já soubesse é que lidava com um vírus altamente contagioso, mas nem o governo japonês, nem a população se preocupavam com algo grave, visto que o Japão estava a cerca de seis meses de realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio, com início previsto para o dia 24 de julho de 2020.

Uma semana após o alerta, o Japão registrou o primeiro caso do então novo coronavírus, de um homem de 30 anos, que havia estado em Wuhan e retomado ao país no dia 06 de janeiro. A primeira morte no país foi registrada no dia 13 de fevereiro, quando uma idosa que estava internada desde o dia 1º de fevereiro não resistiu. Ela não havia viajado para fora do Japão.

O navio em quarentena

Com poucos casos no país, a preocupação mesmo era com o ano novo chinês, que sempre trás muitos turistas para o Japão. Mesmo assim, no dia 03 de fevereiro, o navio de cruzeiro Diamond Princess já estava em quarentena no porto de Yokohama. Até então, apenas 7 pessoas estavam doentes no navio, que possuía cerca de 3500 pessoas a bordo.

Após várias decisões equivocadas, a quarentena do navio foi suspensa no dia 19 de fevereiro para pessoas com resultado negativo para Covid-19. Infelizmente, muitas delas apresentaram os sintomas e foram diagnosticadas com o vírus. Ao todo, 712 pessoas contraíram o novo coronavírus no navio e 13 morreram.

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Foto: © Reuters

Fechamento de todas das escolas

Ainda no dia 27 de fevereiro, com 200 casos confirmados de Covid-19, o governo japonês pediu para que todas as escolas públicas fossem fechadas, que atenderam prontamente. Quase 99% das escolas públicas de ensino fundamental do Japão foram fechadas.

Aqui há um ponto onde muitos podem se confundir: o governo japonês é proibido de obrigar a sua população a cumprir qualquer medida. O ponto faz parte da constituição do país, que foi escrita pelos Estados Unidos após o final da 2ª Guerra Mundial, para inibir abusos do governo, comuns durante os quase 60 anos que o Japão esteve em guerras na Ásia.

A constituição do país é muito pacifista e de 1947. Dentre os pontos mais polêmicos da constituição estão a perda de poder do Imperador, que deixou de ser um líder político (ele era visto como um Deus, assim como ocorre até hoje na Coreia do Norte) e se tornou apenas o líder religioso, além do Japão ser proibido de criar um exército.

N07 - 03-02-2020

Mas, o fechamento das escolas criaria um problema: como fazer com os pais que precisariam ficar em casa com seus filhos? Então o Governo japonês anunciou um plano de remuneração. O ministério pagou um subsídio de até 8.330 ienes por pessoa por dia às empresas, que deram férias aos esses funcionários, além de pagar, com o mesmo plano, os doentes.

Mesmo com as restrições, algumas Escolas realizaram suas usuais cerimônias, aplicando medidas contra vírus.

Os Jogos Olímpicos foram cancelados

Quase um mês após o fechamento das aulas e o alastramento do novo coronavírus começando a atingir a Europa e os Estados Unidos, escrevemos um artigo sobre Voltar ao Brasil ou ficar no Japão? A velha dúvida em tempos de coronavírus, tentando supor se o país estava bem adiantado em relação aos demais, visto que o governo dizia que as Olimpíadas iriam acontecer, juntamente com o Comitê Olímpico Internacional.

Mas no dia 25 de março, Os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para 2021, acabando de vez com a dúvida que as coisas começavam a ficar sérias, longe do que muito que não vivem no Japão pensam.

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O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe fala aos repórteres, depois de manter conversas por telefone com o presidente do Comitê Olímpico Internacional Thomas Bach.
Foto: Kyodo News

Além dos Jogos Olímpicos, muitos outros eventos foram cancelados ou ocorreram sem público, como aconteceu com o Torneio de Sumou. Além disso, a Tokyo Shoko Research, uma empresa de crédito com sede em Tóquio, realizou uma pesquisa nesse período e descobriu que Coronavírus havia afetado mais de 90% das empresas japonesas, principalmente devido ao cancelamento de eventos e voos, além estimar em 100 bilhões ienes o impacto do vírus em grandes empresas.

O Estado de Emergência

Como a constituição do Japão proíbe o governo de obrigar a sua população a cumprir exigências, uma lei de 2012 foi alterada e tornou possível a futura declaração do Estado de Emergência. Se você quer saber mais sobre, leia em Estado de Emergência no Japão: entenda o que acontece na prática.

Mesmo com a lei aprovada, não houve declaração. Com os casos aumentando, dois estudos de uma equipe da Universidade de Hokkaido, fizeram o governo mudar de ideia. O professor Nishiura Hiroshi alertou sobre a possibilidade de 400.000 mortes no Japão e disse que deveríamos reduzir contato em 80% para impedir uma propagação explosiva do vírus.

N40 - 17-04-2020
Foto: NHK

No dia 17 de abril, o Primeiro-ministro Shinzo Abe declarou que 7 províncias ficariam em Estado de Emergência por um mês e no dia 16 de abril foi declarado um Estado de Emergência Nacional, que deveria ter sido até o dia 06 de maio, cobrindo assim o feriado prolongado. Mesmo assim, Abe pediu para população evitasse viagens no Golden Week.

Ainda durante o feriado, o Governo estendeu Estado de Emergência Nacional, mas relaxou algumas restrições. Agora, a declaração se estenderia até o dia 31 de maio, já que o número de casos não havia baixo como esperado e muitas pessoas insistiam em não evitar passeios desnecessários.

Mas no dia 14 de maio, Abe anunciou a suspensão do Estado de Emergência para 39 províncias, onde não haviam registro de casos há semanas. Uma semana depois, no dia 21 de maio, o Estado de Emergência foi suspenso em Osaka, Quioto e Hyogo, onde os casos relatos também eram quase nulos.

Finalmente, no dia 25 de maio, o Governo suspende o Estado de Emergência em todo país, já que Tóquio, o principal foco de contaminação do país, havia registrado apenas 2 casos no dia anterior.

As máscaras

O ano de 2020 foi tudo aquilo que o Japão, e o mundo, não esperavam. Além do adiamento das Olimpíadas, o país teve que encarar várias mudanças, como a que ocorreu com as máscaras. Famoso no oriente, a Falta de máscaras cirúrgicas fez os preços dispararem. Além disso, lenços de papel e papel higiênico sumiram das prateleiras, após uma Fake News.

Os preços foram tão abusivos em alguns casos que o governo precisou intervir. Revendedores on-line de máscaras podem enfrentar 1 ano de prisão e multa de 1 milhão de ienes sob nova regra. O mesmo ocorreu com os sanitizantes de mão e o Governo quer proibir revenda de sanitizantes a preços abusivos, aplicando as mesmas penalidades da lei de revendas on-line.

N43 - 20-04-2020
Máscaras distribuídas pelo governo

Tentando contornar a escassez das máscaras fez que o governo anunciasse um plano para doar máscaras de pano para 50 milhões de famílias para combater vírus, popularmente conhecido como Abenomask. O objetivo inicial era concluir a entrega até o final de maio, mas reclamações quanto a qualidade das máscaras fizeram as entregas serem suspensas.

Até mesmo Prisioneiros produziram máscaras e equipamentos de proteção no Japão. A escassez só não foi suprida de vez pela quantidade limitada de matéria-prima.

Negócios foram afetados diretamente pelo novo coronavírus

Para quem ainda tem dúvidas se o comércio foi afetado no Japão, antes e durante o Estado de Emergência, Tóquio lançou a Semana Stay-at-home, solicitando e conseguindo o apoio em massa dos comerciantes. O distrito comercial de Togoshi Ginza por exemplo, ficou vazio, ao mesmo tempo que a JR anunciou que a ocupação de seus Shinkansen estava abaixo dos 10%.

Okinawa, no extremo sul do arquipélago, pediu que 60.000 viagens reservadas fossem canceladas, pois, suas ilhas não tinham como atender nem mesmo seus próprios habitantes, se muitos casos do Covid-19 ocorressem no Golden Week.

Em Chiba, a cidade de Sakura precisou cortar 800.000 tulipas para evitar aglomerações além de cancelar o principal festival que ocorre durante o feriado prolongado.

N65 - 28-04-2020
Tulipas cortadas para evitar aglomerações na cidade de Sakura, Em Chiba

Agora, o Monte Fuji ficará fechado no verão, para evitar aglomerações. Durante a temporada de escalada, nos meses de julho e agosto, cerca de 300 mil pessoas visitam o vulcão.

Até mesmo as Exportações do Japão caíram, atingindo demanda dos Estados Unidos e da China, afetando empregos, principalmente na comunidade brasileira, que está voltada em grande parte, para a indústria automobilística de exportação.

Mas o governo está se esforçando para minimizar o impacto que os pequenos negócios estão passando. Políticos japoneses trabalhando na redução do aluguel para empresas atingidas por vírus e no setor hoteleiro, Mais de 210 mil quartos de hotel garantidos para tratar pacientes com coronavírus no Japão.

Dois trilhões de dólares para contornar a crise

Vendo o tamanho do risco que o país corria, o governo japonês anunciou um pacote de emergência de 1 trilhão de dólares, que pretendia fornecer incentivos à saúde, as empresas afetadas e a infraestrutura na luta contra o vírus.

Para o auxílio as pessoas afetadas, primeiramente, o Governo forneceria 300.000 ienes em dinheiro para cada família necessitada no Japão, mas decidiu mudar de ideia e prometeu um Benefício de 100.000 ienes, com pagamentos rápidos, a partir de maio. O benefício estaria disponível para todos os residentes do país, inclusive Residentes estrangeiros, sendo necessário mais um bilhão de dólares no orçamento emergencial.

Por sua vez, Tóquio planejou medida de gastos emergenciais de 800 bilhões de ienes, visando inclusive pagar de 500 mil à 1 milhão de ienes para que os comerciantes mantivessem seus negócios fechados.

N42 - 17-04-2020
Governadora de Tóquio em entrevista coletiva

Os Profissionais de enfermagem solicitaram um adicional de risco, para cuidar de pacientes com vírus e agora o estuda fornecer 200.000 ienes para cada profissional médico que tratou pacientes com o vírus.

Uma outra medida, agora de economia de gastos foi a dos Políticos de reduzirem seus salários em 20% em meio à crise do vírus.

Como foi de fato viver esse período no Japão

Nada é mais valoroso que a experiência. Por isso, pedimos um breve relato de nossos escritores sobre como foi passar esse período tão impar no Japão.

Jaqueline Kiriu

Viemos ao Japão para estudar o idioma japonês e moramos na região metropolitana de Tóquio. Nós estudávamos próximo à Estação de Shibuya, onde passam 2,5 milhões de pessoas por dia. Nosso último dia de aula foi 28 de fevereiro.

Os professores nos aconselharam muito a ficar em casa. Saíamos apenas para ir ao mercado e pagar contas. Nas aulas online, sempre era reforçado a necessidade de ficar em casa nos exemplos dos exercícios.

Coronavírus: saiba como o Japão lutou contra o surto 1

Quando foi declarado o Estado de Emergência, todas as sexta-feiras, mensagens listando todos os cuidados eram anunciadas pelos auto-falantes da região.

Moramos perto de um parque e de um outlet, os anúncios se repetiam nos finais de semana também especificamente no entorno deles.

Durante a Golden Week, os anúncios foram feitos todos os dias, às 10 horas da manhã. O shopping fechou no início de abril, antes de declarado o Estado de Emergência. Afinal, não é essencial comprar roupinhas com a governadora pedindo insistentemente para ficar em casa, lembro de vários pedidos dela nos jornais.

Se não fosse a bela sakura no caminho do mercado, eu não ia ver a chuvinha de pétalas da primavera.

Mas sinto muito por não ter visto nos lugares famosos de Tóquio, como Naka Meguro, Ueno, Yoyogi, os jardins tradicionais, aproveitar as comidinhas de feira, todos os festivais foram cancelados!

Leia mais sobre o comentário, no artigo completo da Jaqueline: Uma primavera sem flores – 50 dias de Estado de Emergência em Tóquio

Carine Sayuri Goto

Acredito que o Japão tenha aprendido muito com as epidemias anteriores, como a influenza e o SARS, para lidar com o coronavírus. Alguns pontos duramente criticados no início da pandemia, agora são motivos de reflexão para entender o sucesso japonês. Destaco alguns:

1) Acesso à informação: logo que se verificou que o novo vírus estava se espalhando pela Ásia, provocando sintomas graves os japoneses providenciaram canais de comunicação para que as pessoas tirassem dúvidas sobre sintomas e tratamento. Diversas prefeituras divulgaram contatos telefônicos e informativos à população, de forma bastante didática.

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2) Se tem sintomas fique em casa: ao mesmo tempo que os contatos para tirar dúvidas podem ser elogiados, também foram criticados, na medida em que pessoas com sintomas do Covid-19 eram orientadas a permanecer em casa.

3) Consultas com médico sem sair do carro: A mesma conduta usada anteriormente para a influenza foi aplicada para o Covid-19, se você tem chances de estar contaminado e precisa de uma consulta médica, um profissional de saúde vai até os estacionamentos e te consultará dentro do carro. Algo que foi muito criticado, mas preveniu a contaminação em massa de outros pacientes e profissionais da saúde.

4) Limitação dos testes: talvez o item mais polêmico e que ainda contou com a elaboração de uma teoria conspiratória, quando a oposição política do governo disse que a subnotificação era uma tentativa de mostrar um cenário favorável ao acontecimento das Olimpíadas. Porém, num primeiro momento a limitação dos testes podem ter contribuído para que pessoas sem a doença, não corressem atrás dos exames, aumentando a chance de se contaminar.

5) Intervenção do Estado na comercialização de produtos essenciais ao combate da pandemia: diante do desaparecimento das máscaras dos postos de venda, alguns lugares começaram a cobrar preços exorbitantes, mas o Estado não demorou para pensar em alternativas de acesso da população.

Leia mais sobre o comentário, no artigo completo da Carine: Ações do Japão ao combate do Covid-19, sem deixar de pensar no Brasil

Takara Stefens

O Covid-19 afetou o Japão de forma bem diferente do resto do mundo ao que parece. Mas apesar de parecer uma maravilha para quem vê de fora, as coisas aqui não correram as mil maravilhas, como alguns tentam pintar. Redução nas horas trabalhadas – o que significa redução de salário, fechamento de escolas, paralisação de práticas esportivas – ai que saudades do tatami!!!

No meu caso específico, tivemos algumas dificuldades, todas superáveis, mas não estaria sendo honesto se dissesse que nada mudou ou que não foi difícil. Tivemos de ajustara rotina, de repensar atitudes, passeios e sobretudo, gastos.

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A maior mudança causada pelo Covid-19 em minha vida foi na alimentação, graças a ele, me tornei vegano, mas isso é assunto para outra hora.
E qual é o saldo até aqui? Muita coisa obscura e uma certeza, o pior ainda não passou.

A injeção de dinheiro que o governo fez na economia terá resultados, e mesmo não sendo especialista em economia, creio que o futuro próximo trará dificuldades àqueles que não abrirem os olhos e fecharem as carteiras.

Pra finalizar, se você não souber se adaptar às mudanças, e rápido, você vai ficar pra trás.

Thiago Leão

Sabemos que, com a velocidade e quantidade de notícias que recebemos diariamente nas redes sociais, é comum que só leiamos as manchetes e não cheguemos a ler a reportagem inteira, ou às vezes nem clicamos no link, lendo os títulos que passam pela timeline. Mas mesmo que se leia toda a notícia, ao omitir parte da reportagem original, concentrando-se apenas no “sucesso inexplicável” do caso japonês, o portal de notícias UOL gerou desinformação e alimenta a onda de negacionismo sobre os perigos da COVID-19.

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A escolha do termo “isolamento” (em nenhum momento utilizado no texto original), quando tanto a Bloomberg quanto a TIME estão falando em lockdown e testagem em massa, novamente gera desinformação e polariza ainda mais uma reportagem que, originalmente, busca focar em aspectos técnicos, análises de especialistas e dados científicos, para fundamentar a análise política das repórteres.

A disputa político-ideológica a e polarização em torno do isolamento social é um dos pontos principais dos movimentos negacionistas no Brasil que, personificados pela figura do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), insistem que a COVID-19 é uma farsa, ou que o número de mortes é exagerado, ou que se trata só de uma gripezinha que afetará uma minoria da população mais vulnerável, e que o isolamento social é desnecessário ou ineficaz – contrariando especialistas, técnicos e dados científicos.

Leia mais sobre o comentário, no artigo completo de Thiago: Os perigos do negacionismo: Japão e o Covid-19.

A segunda onda

Uma Segunda onda de casos de COVID-19 é inevitável no Japão. A menos de uma semana da suspensão do Estado de Emergência, já começam a aparecer novos casos. O governo disse que, se houver a necessidade, está pronto para declarar novamente a Emergência.

É muito cedo para comemorar, mesmo com a taxa de suicídios ter despencado no Japão. Continuaremos acompanhando, caso surjam mais notícias desencontradas.