Uma primavera sem flores – 50 dias de Estado de Emergência em Tóquio

Uma primavera sem flores – 50 dias de Estado de Emergência em Tóquio

Normalmente estes belíssimos eventos naturais atraem os japoneses e turistas aos parques e outros locais públicos, mas este ano tudo foi muito diferente

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Em outubro do ano passado eu vim morar no Japão para estudar a língua e a cultura japonesas, participar dos festivais (Matsuri) e vivenciar o cotidiano.

Desde antes da minha chegada, a primavera era o momento mais aguardado. Já em fevereiro as perfumadíssimas flores de ameixeira anunciavam o início da primavera, e as flores de pessegueiro se abriram para marcar o dia das meninas, e com ele o Hana Matsuri.

Até que enfim chegou o momento mais esperado em todo Japão: a florada das cerejeiras, a Sakura, que acontece entre final de março e comecinho de abril.

Uma primavera sem flores - 50 dias de Estado de Emergência em Tóquio 1
Nemóphilas no Parque Hitachi Seaside

Em seguida, as Nemóphilas criaram um tapete azul que se mistura com o céu, e os campos de Tulipas coloriram o horizonte. Em maio, as Glicínias surgiram com suas delicadas flores que pendem aos cachos em diversas cores em tons pastel. 

Normalmente estes belíssimos eventos naturais atraem os japoneses e turistas aos parques e outros locais públicos, mas este ano tudo foi muito diferente.

Ainda nos primeiros meses de 2020 o mundo já observava com espanto um vírus que se espalhava rapidamente por diversos países, o novo Coronavírus ou Sars-CoV-2.

Diante desta nova ameaça, as escolas japonesas decidiram parar suas atividades presenciais e adaptar a metodologia para maior segurança dos alunos e todos aqueles que pudessem trabalhar em casa, foram convocados a colaborar.

Minha última aula presencial foi no dia 28 de fevereiro. Os professores aconselharam os alunos a ficarem em casa e tomarem os cuidados necessários como a higienização das mãos e o uso de máscaras. Desde então saíamos de casa apenas para ir ao mercado ou realizar atividades essenciais.

Nas aulas online os professores até incorporaram as situações de isolamento social na prática da língua japonesa. Foi quando aprendi, por exemplo, que em japonês não se diz “saúde” quando alguém espirra. 

Quando foi declarado o Estado de Emergência, primeiramente na região de Tóquio e semanas depois em todo o Japão, cada sexta-feira era dia de ouvir mensagens nos alto-falantes, listando todos os cuidados a serem tomados, e para que no final de semana as pessoas não saíssem se não fosse necessário. 

A tentação era grande. A temperatura estava ficando amena, as cerejeiras estavam florescendo. É uma época muito linda no Japão.

Moramos perto de um parque e um outlet inaugurado em novembro de 2019. Os anúncios dos alto-falantes se repetiam com mais frequência nos finais de semana. O parque estava recém reformado, com chaises espalhadas para uma apreciação confortável da beleza da natureza ao redor.

O shopping fechou já no início de abril, antes mesmo do governo declarar o Estado de Emergência. Afinal, compras em shoppings não são consideradas essenciais. Ao mesmo tempo, a governadora Yuriko Koike continuava fazendo pedidos insistentes através dos meios de comunicação em geral para ficar em casa.

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Koinobori Festival

Durante a Golden Week (um dos 3 feriados longos mais importantes do Japão), o anúncio nos alto-falantes foi feito todos os dias às 10 h da manhã. Havia a preocupação que mesmo com os pedidos insistentes para permanecer em casa, as pessoas fossem passar o feriado com seus familiares nas cidades-natal, como é o costume todos os anos. E essa medida teve um resultado bem positivo, pois o número de contágios continuou a baixar.

A primavera no Japão era um momento que eu aguardava ansiosamente. Principalmente participar de um Hanami, piquenique sob as cerejeiras ou apenas escolher uma em especial, sentar sob sua sombra e contemplá-la. Eu planejava apreciar os jardins do Palácio Imperial, a moldura cor-de-rosa que se forma no entorno de rios e lagos nos jardins tradicionais ou a partir das cidades antigas com vista para o Monte Fuji, ver os parques repletos com 1000, 2000, 3000 pés de cerejeiras. Mas, com o estado de emergência declarado estava tudo fechado e também havia policiamento aconselhando as pessoas a retornarem para casa.

Durante esse período os festivais foram cancelados, museus fechados, estreias de filmes adiadas sem data confirmada, até que seja seguro estar em ambientes com várias pessoas. Até o torneio de Sumo, que é algo sagrado para os japoneses foi cancelado!

No entanto, pude vislumbrar um pouquinho desse esplendor no caminho de casa para o mercado. (Foto)

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Cerejeira em flor no Parque Tsuruma.

Com o fim do Estado de Emergência existe toda uma estratégia para retornar aos poucos às atividades a partir de 01/06. Alguns museus já tem data de abertura, com limite da quantidade de visitantes entre outras medidas de segurança.

O que me chamou a atenção foi observar o senso de coletividade e colaboração (da maioria) dos japoneses e também dos estrangeiros que vivem aqui. Pude refletir sobre a transitoriedade, a impermanência e resiliência.

A primavera está chegando ao fim. E o ciclo continua. Ano que vem as flores voltarão com a mesma beleza e perfume.

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

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