Os perigos do negacionismo: Japão e o Covid-19

Os perigos do negacionismo: Japão e o Covid-19

Há fatores culturais, político-econômicos e sociais que ajudam a entender, mas nenhum deles sozinho é suficiente

Uma prévia deste artigo foi compartilhada em Coronavírus: saiba como o Japão lutou contra o surto.

Em recente publicação da Bloomberg replicada, pela prestigiada revista norte-americana TIME, Lisa Du e Grace Huang se perguntam: o Japão acaba de vencer o vírus sem lockdowns e testagem massiva? [1]. Elas descrevem, então, como o Japão não seguiu a “cartilha” adotada por outros governos, mas, ainda assim, obteve resultados muito melhores do que outros países asiáticos, europeus, e do continente americano.

Lisa Du e Grace Huang são repórteres experientes, e acompanham de perto a evolução da pandemia no Japão. Em seu artigo, replicado na íntegra pela TIME [2], Du e Huang discutem não apenas o caminho diferente adotado pelo Japão, mas também mostram o impacto do coronavírus na economia japonesa e retomam eventos como a contaminação entre passageiros do navio de cruzeiro Diamond Princess – segundo as repórteres, este caso é fundamental para uma reposta antecipada do Japão, tanto por fornecer dados importantes aos especialistas, quanto por colocar o debate sobre o vírus em pauta, conscientizando desde cedo os japoneses sobre o perigo do COVID-19.

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Ponto importante do artigo da Bloomberg que ficou de fora da matéria
Foto: Toru Hanai/Bloomberg

Enquanto para outros países o vírus era um problema alheio e distante, a cobertura constante da mídia sobre o Diamond Princess levou ao reconhecimento popular e pressão sobre o governo japonês para assumir responsabilidade e agir de acordo.

Com depoimentos de brasileiros morando no Japão, a equipe do Todo Dia elencou estes e outros eventos importantes no enfrentamento da pandemia no Japão, mostrando que, ao contrário do senso comum, o país asiático fez um grande esforço (ainda que heterodoxo) para controlar o avanço do vírus, e não passou ileso [3].

O Japão não seguiu a “cartilha” internacional, e também não escreveu uma “cartilha” própria: não é possível identificar um único aspecto ou política do governo japonês que (1º) possa explicar o aparente sucesso nipônico e (2º) possa ser replicado em outros países.

Em seu depoimento Ações do Japão ao combate do Covid-19, sem deixar de pensar no Brasil, da psicanalista Carine Sayuri Goto3 destaca ações de saúde pública adotadas pelos governos locais e a postura dos japoneses, devido à experiência adquirida com outras pandemias (como influenza e o SARS), como fatores fundamentais para os resultados alcançados no Japão.

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Shigeru Omi, representante-chefe do conselho de especialistas do governo japonês entrevistado por Du e Huang, também cita a “consciência sanitária” do povo japonês como, possivelmente, o fator mais importante para determinar estes resultados iniciais positivos.

No Brasil, a reportagem da Bloomberg foi replicada pela UOL. Mas, curiosamente, pela metade. Deixa de fora, entre outras coisas, o Diamond Princess; as medidas adotadas pelo governo para evitar aglomerações, espaços fechados, viagens entre províncias; e a questão sobre os riscos da segunda onda, discutidos pelas repórteres.

Além disso, a manchete escolhida pela UOL foi a seguinte: “Coronavírus: surto controlado no Japão sem isolamento intriga especialistas”[4] A opção editorial da UOL, ao afirmar categoricamente que o surto foi controlado (diferente da manchete da TIME e da manchete no artigo original que expressam dúvida e levantam uma pergunta), é por si só muito problemática.

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Na imagem compartilhada do artigo, mostrar o Primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, removendo sua máscara, passa a sensação de segurança

Sabemos que, com a velocidade e quantidade de notícias que recebemos diariamente nas redes sociais, é comum que só leiamos as manchetes e não cheguemos a ler a reportagem inteira, ou às vezes nem clicamos no link, lendo os títulos que passam pela timeline. Mas mesmo que se leia toda a notícia, ao omitir parte da reportagem original, concentrando-se apenas no “sucesso inexplicável” do caso japonês, a UOL gera desinformação e alimenta a onda de negacionismo sobre os perigos da COVID-19.

A escolha do termo “isolamento” (em nenhum momento utilizado no texto original), quando tanto a Bloomberg quanto a TIME estão falando em lockdown e testagem em massa, novamente gera desinformação e polariza ainda mais uma reportagem que, originalmente, busca focar em aspectos técnicos, análises de especialistas e dados científicos, para fundamentar a análise política das repórteres.

A disputa político-ideológica a e polarização em torno do isolamento social é um dos pontos principais dos movimentos negacionistas no Brasil que, personificados pela figura do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), insistem que a COVID-19 é uma farsa, ou que o número de mortes é exagerado, ou que se trata só de uma gripezinha que afetará uma minoria da população mais vulnerável, e que o isolamento social é desnecessário ou ineficaz – contrariando especialistas, técnicos e dados científicos.

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As razões pelas quais as pessoas aderem aos discursos negacionistas da ciência (desde os terraplanistas aos anti-vacina) é assunto para um próximo bate-papo.

Mas ao editar a parte final do artigo de Du e Huang, e compor sua manchete para afirmar que o Japão venceu o coronavírus sem isolamento social, a UOL, intencionalmente ou não (não estamos afirmando que foi proposital), deu munição aos movimentos negacionistas e para políticos de (extrema) direita como Bolsonaro e Trump, nos EUA, que atacam o isolamento social, em defesa de interesses econômicos de grandes empresários, ignorando órgãos e consensos internacionais, cientistas em geral, epidemiologistas e sanitaristas.

No momento em que o jornalismo sério luta contra fake news e desinformação, a UOL (uma plataforma jornalística de grande respeito e credibilidade) parece ter dado uma grande “bola fora”.

O negacionismo e a desinformação têm consequências reais e nocivas importantes. A recusa às medidas de isolamento ou distanciamento social, o desrespeito às medidas preventivas sanitárias, o uso de medicamentos e produtos nocivos à saúde, a violência direcionada a idosos, estrangeiros, profissionais de saúde e da mídia, e outros comportamento nocivos são alimentados pela desinformação e pelo negacionismo.

Talvez negacionismo da COVID-19 seja um bom tema para um bate-papo, em um outro dia.

Thiago Marques Leão é Bacharel em Direito, Mestre e Doutor em Saúde Pública pela USP. Atualmente é pesquisador de Pós-Doutorado da Faculdade de Saúde Pública da USP e residente na Província de Yamanashi-Japão, onde trabalha e estuda sobre Individualização, Mudanças Sociais e Saúde Mental, no Brasil e Japão.

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