Como o japonês e o inglês se fundiram para criar um novo idioma

O idioma japonês não é um dos mais fáceis de se aprender, mas a mescla com o inglês, de longe não é nova

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Daisuki Tchê
Desbravando o Japão

O professor de Cultura Britânica John Dougill da Universidade Ryukoku veio pela primeira vez ao Japão há 30 anos e já nesta visita, ele viu uma frase estranha adornando o açougue de seu bairro em Quioto. Em vez de meat shop (açougue), a placa dizia flesh shop (algo como loja de peles).

Dougill presumiu que os funcionários da loja não estavam cientes de seu erro na língua inglesa e quando sinalizou aos proprietários, estes acenaram com a cabeça educadamente para ele, mas não mudaram a placa.

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“Não importava se a placa dizia flesh, fresh ou meat”, lembra Dougill, que pesquisou o uso do inglês no Japão. “Isto estava lá apenas para chamar a atenção das pessoas. Não estava sendo usado para se comunicar, pois as pessoas podiam ver que era um açougue pelo lado de fora”.

Foi o primeiro encontro de Dougill com o fenômeno japonês Engrish ou Japanglish. O Engrish é o que acontece quando erros de inglês aparecem em anúncios japoneses, em produtos como camisetas e papéis de carta, ou em cardápios de restaurantes.

Muitos dos erros comuns cometidos por falantes de japonês derivam da dificuldade de distinguir r e l ao pronunciar as palavras – por isso é chamado de Engrish em vez de English.

O s no início das palavras está associado a um caractere hiragana japonês pronunciado shi. É por isso que baby-sitter – babá – às vezes pode ser grafado incorretamente como baby-shitter – bebê cagão.

Além disso, algumas palavras conectadas em inglês não têm equivalente em japonês, então I feel like a hamburger tô a fim de um hambúrguer – torna-se I feel hamburger.

No Ocidente, Engrish é frequentemente visto mais como um exemplo de racismo cotidiano com a intenção de zombar de falantes não nativos de inglês. Também não é um fenômeno somente japonês.

Há o Konglish na Coréia, Singlish em Cingapura e Chinglish na China – todos se referindo às diferentes maneiras de como os habitantes locais reaproveitaram o inglês.

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No entanto, no Japão, nem todos estão cientes das conotações racistas associadas ao Engrish no exterior. Ele se enquadra em duas categorias: o inglês decorativo é usado para criar um clima e é exclusivamente direcionado aos japoneses, enquanto o inglês comunicativo destina-se a fornecer instruções aos estrangeiros, mas em geral é gramaticalmente incorreto.

Embora o fenômeno já exista há algum tempo, as Olimpíadas de Tóquio trouxeram uma nova luz sobre como o inglês é usado no Japão. O número de visitantes estrangeiros deve aumentar nos próximos meses (embora os números possam ser afetados pelo surto de coronavírus) e o inglês é uma das línguas oficiais dos Jogos.

Como Engrish ainda é um fato da vida, abre espaço para que significados e humores se percam na tradução.

Inglês como elemento de design

O inglês é a língua de trabalho de muitas organizações internacionais e a língua estrangeira mais ensinada no mundo. Mas, de aproximadamente 1,5 bilhão de pessoas que falam inglês, menos de 400 milhões o chamam de sua primeira língua, de acordo com o Fórum Econômico Mundial.

Isso significa que cerca de 1,5 bilhão de pessoas entre os 7,5 bilhões de habitantes do mundo falam esse idioma como um segundo, terceiro ou quarto idioma.

Além do mais, diferentes países adaptaram o inglês para se adequar às suas próprias culturas e sensibilidades.

Por exemplo, há uma diferença entre o inglês britânico e o inglês americano, com palavras diferentes usadas para o mesmo objeto, como elevator versus lift, referindo-se ao elevador.

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O Engrish também tem uma tendência paralela de ocidentais usarem correta e incorretamente caracteres chineses e japoneses em produtos não asiáticos, de camisetas à tatuagens.

Embora o Engrish tenha sido usado por muito tempo para zombar de quem não fala inglês, nos últimos anos as comunidades reivindicaram suas próprias mesclas de idioma, como o espanglês, que é uma forma de espanhol fortemente influenciada pelo inglês e se tornou seu próprio dialeto, sem esquecer da nossa mescla do nihonguês (japonês com português), usado diariamente.

De acordo com o site engrish.com – que mostra exemplos de Engrish em todo o mundo – o inglês no Japão é usado como um elemento de design em produtos e publicidade para dar-lhes uma aparência moderna (ou apenas para “parecer legal”).

Não é usado para comunicar uma mensagem específica, mas sim um humor. Isso é particular da cultura japonesa, onde os significados geralmente não são explícitos, mas compreendidos.

“Frequentemente não há tentativa de acertar o [Engrish], nem a grande maioria da população japonesa tenta ler o elemento de design inglês em questão”, afirma o site.

Como o Engrish nasceu no Japão

Para Dougill, o Engrish parecia uma faceta bizarra e divertida da cultura japonesa que ele experimentou durante o que chama de período de choque cultural da “lua de mel”. Tudo mudou quando ele começou a se ajustar ao Japão. Então, o Engrish se tornou irritante.

“Este é um estado de irracionalidade em que as pessoas sentem que sua língua está sendo mal utilizada e se tornam imperialistas, pensando que sabem mais e que as coisas devem ser feitas de uma maneira particular”, diz Dougill. “Passei por aquela fase típica de estrangeiro”.

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Mas, à medida que ele começou a se integrar mais à sociedade, o uso e o mau uso do inglês pelos japoneses não pareciam mais chocantes. Simplesmente desapareceu na paisagem, tanto que Dougill diz que se tudo fosse escrito corretamente, seria chato.

Velhas raízes de um novo estilo

Entre 1641 e 1853, o Japão entrou em isolamento auto imposto, pois o país proibia a saída de seus cidadãos e a entrada de estrangeiros. Os únicos estrangeiros permitidos no porto de Nagasaki durante este período foram os chineses e holandeses.

O país abriu suas portas para o mundo durante a Restauração Meiji (1868-1912). Os estrangeiros que falam inglês invadiram e influenciaram a sociedade japonesa e o idioma.

O termo Engrish apareceu pela primeira vez como uma pronúncia asiática incorreta da palavra inglês na década de 1940. Começou a ser usado para denotar o inglês asiático incorreto na década de 1980.

O inglês e o francês eram vistos como chiques e exóticos à medida que os japoneses absorveram as influências ocidentais nos anos pós-Segunda Guerra Mundial, especialmente quando a economia do Japão decolou nos anos 1970 e 1980.

A editora japonesa de e-books Ayako Miyazaki lembra como seu avô usou a palavra francesa chapeau ou shappo em japonês em vez da palavra japonesa boushi para se referir ao chapéu.

Quando Miyazaki usou a palavra stove, que é uma palavra adotada em inglês que os japoneses usam para se referir a aquecedores, no País de Gales, as pessoas pareciam totalmente confusas. “Foi o meu próprio momento de ‘perda na tradução'”, disse ela à CNN Travel.

Não há necessidade imediata de falar inglês

No Japão, os alunos são obrigados a estudar inglês como segunda língua por até 5 anos. No entanto, muitos japoneses têm dificuldade em falar fluentemente, pois têm pouco contato diário com o idioma.

A educação do idioma inglês no Japão também se concentra em fazer os alunos passarem nos testes, em vez de desenvolver habilidades práticas que possam usar na vida real.

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Em 2003 o governo introduziu um plano de cinco anos projetado com o intuito de mudar o foco para o aprimoramento das habilidades orais, porém velhos hábitos são difíceis de morrer, e a cultura não endossa aqueles que agem de forma diferente, de acordo com Kaya Taguchi, professora da Universidade Toyo, que escreveu sobre o inglês e o ensino de idiomas no Japão.

“[Os alunos] estão mais dispostos a falar agora. Mas eles hesitam em falar em classe, provavelmente por causa de nossa cultura – destacar-se da multidão não é considerado uma virtude,” disse Taguchi à CNN Travel.
Além disso, inglês e japonês são mundos à parte em termos de gramática, fonética e sintaxe.

“Não podemos esquecer que o inglês não é tão importante para muitos que vivem no Japão. Meus pais não falam inglês, mas eles estão totalmente bem com isso. No Japão, não há necessidade imediata de aprender inglês”, acrescenta Taguchi.

Isso poderia explicar porque erros gramaticais e escolhas inadequadas de palavras ainda aparecem nas placas em inglês destinadas a estrangeiros.
E enquanto algumas empresas contratam tradutores profissionais, muitas outras contam com funcionários internos que podem não ser falantes nativos ou que recorreram a aplicativos como o Google Translate para economizar nas despesas.

O Engrish também tem alguns laços com a cultura popular ocidental. Por exemplo, Brad Pitt se tornou Brapi no Japão e Johnny Depp era conhecido como Jyonide na década de 90, diz Taguchi.

Mudança de atitude

Para Taguchi, que leciona no Japão há mais de 20 anos, a proficiência dos alunos em inglês permaneceu estática, mas as atitudes em relação à comunicação e ao Ocidente estão mudando.

Ela diz que há menos admiração entre os japoneses mais jovens em relação ao Ocidente e que muitos estão tentando permanecer realistas sobre suas aspirações enquanto enfrentam o envelhecimento da população e a renda que despencou desde o estouro da bolha econômica no Japão no final dos anos 1990.

Mas, em antecipação às Olimpíadas, as municipalidades no Japão estão oferecendo sessões gratuitas que ensinam conversação em inglês para voluntários olímpicos, muitos dos quais já passaram dos 40 anos.

Os folhetos em inglês distribuídos nessas sessões incluem frases comuns para ajudar os visitantes, explica Taguchi. Mas não se trata apenas de vocabulário.

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O objetivo é incutir nos voluntários a confiança necessária para alcançar os visitantes que pareçam precisar de ajuda e não se preocupar com erros gramaticais ou de pronúncia.

Quanto ao Engrish, Taguchi diz que os jovens priorizam a escolha de palavras que transmitam suas ideias e sentimentos aos colegas, sem pensar tanto sobre de onde ou como essa palavra se originou. Redatores ou designers que usam o Engrish também podem ter motivação semelhante, diz ela.

“Eles podem não se importar se as palavras estão gramaticalmente corretas, mas sim se as palavras podem se encaixar no contexto. Ou eles podem pensar que, como seu inglês é bom, não terão que verificar as palavras”, diz Taguchi. “Talvez você precise ouvir e ver mais Engrish durante as Olimpíadas de Tóquio“.

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Takara Stefens

Takara Stefens é Gaúcho de nascimento, alma e coração, cidadão do mundo por opção. É pai, professor, escritor, amante da vida e de tudo que é belo. Também escreve lá no Nihon Daisuki Tchê. Acompanhe nas mídias sociais através dos links acima (ou abaixo)!

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