Shubun no Hi: o Dia do Equinócio de Outono

Shubun no Hi: o Dia do Equinócio de Outono

Está chegando o outono, e com ele as folhagens em cores vibrantes, as deliciosas comidas sazonais e lindos festivais. Para celebrar tudo isso, os japoneses realizam antigos rituais para recordar a transitoriedade da vida

Uma das épocas mais bonitas do ano no Japão é o outono. Nesta estação, o país é coberto com folhagens laranja, vermelho, amarelo e verde. O clima é geralmente agradável e as temperaturas são amenas, originando uma excelente oportunidade de passeio e contemplação da paisagem japonesa.

O outono é uma época profundamente simbólica para o povo japonês. Existe inclusive um feriado público, o Dia do Equinócio de Outono Shubun no Hi秋分の日 – que ocorre geralmente em 22 ou 23 de setembro, conforme o cálculo astronômico realizado no ano anterior.

A palavra equinócio vem do latim, que significa “noite igual”. Nesse dia, o sol nasce exatamente no leste e se põe exatamente no oeste, e o dia e a noite têm a mesma duração. A partir desse ponto os dias começam a ficar mais curtos do que as noites.

O primeiro equinócio do ano ocorre em março e é chamado Equinócio Vernal, que indica o fim do inverno e o início da primavera e o segundo equinócio ocorre em setembro e é chamado de Equinócio Outonal.

Shubun no Hi: o Dia do Equinócio de Outono 1

No Japão o Equinócio de Outono é um feriado nacional desde o período Meiji. Acredita-se que as raízes bem estabelecidas deste feriado – originalmente chamadas de Shuki Koreisai – derivem do Xintoísmo e do Budismo. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, foi reformulado como um feriado não religioso devido à separação entre religião e estado na constituição do Japão pós-guerra.

Apesar da mudança de marca do feriado, o significado religioso do equinócio ainda permanece.

Após os equinócios outonal e primaveril, ocorre o feriado budista Higan 彼岸, que significa literalmente “a outra margem” que separa esta vida da vida após a morte na tradição budista japonesa. Esta “outra margem” está associada à iluminação e, portanto, esta festa está ligada a seis práticas (paramitas) que se acredita conduzirem a ela, a iluminação.

Preste homenagem aos seis paramitas budistas Mahayana, por exemplo: dê mais a alguém do que você precisa (generosidade), comece a ler o livro que está na sua estante por muito tempo (sabedoria), medite por 10 minutos em um dos templos próximos da sua casa (meditação), diga a alguém a verdade sobre algo incomodando você ou ouça alguém que precise falar (moralidade), dedique um tempo em um projeto pessoal (perseverança) ou apenas desligue seu telefone por um tempo e dê toda a sua atenção a algo ou alguém que você ama (concentração).

O Higan é celebrado por sete dias: três dias antes e três dias depois do equinócio da primavera (shunbun) e do equinócio de outono (shubun). É observado por quase todas as escolas budistas no Japão.

Durante o Higan, as pessoas se reconectam com suas famílias para cuidar dos túmulos de ancestrais, visitar santuários e templos e também presta-se homenagem aos imperadores japoneses falecidos.

As pessoas também celebram o bom tempo e a colheita desfrutando de atividades ao ar livre e comendo lanches típicos de Shubun no Hi, como botomachi – um bolinho de arroz doce cobertos em pasta azuki.

Se você estiver no Japão nessa época, procure os festivais do templo perto de onde estiver hospedado. Ou, se preferir, visite um templo mais silencioso, como Yuten-ji, Kotoku-ji ou Zojo-ji. Outra boa opção é um passeio por algum jardim tradicional tranquilo como Higo-Hosokawa, Koishikawa Korakuen ou San-keien (Yokohama) e observe o fim do verão e o clima fresco que se aproxima.

Shubun no Hi: o Dia do Equinócio de Outono 2
Foto de PxHere

Nessa época do ano floresce uma flor muito peculiar: a Higanbana 彼岸花 significa “Flor do equinócio”, sendo Higan 彼岸 o próprio festival budista e Hana flor. Ela é muito utilizada para decorar túmulos e também ajuda a manter roedores afastados com seu bulbo venenoso.

Simbolicamente, a flor Higanbana representa a separação final de um ente querido, a dor e a saudade. Na origem deste símbolo está a história de Manju e Saka, dois elfos responsáveis por cuidar da flor e das folhas em separado. No entanto, embora tenham sido proibidos de se encontrar, eles infringiram a lei e se apaixonaram, o que irritou a deusa Amaterasu. Implacável, ela os amaldiçoou e os separou. Os dois elfos nunca mais poderiam se encontrar. As flores murcham quando as folhas crescem.

Esta flor de um vermelho intenso, em que suas pétalas crescem em formato de chamas, inspirou muitos artistas a criar Haikai ou mesmo Ukiyo-e.

O melhor lugar para observar todo esse esplendor é no Parque Manjushage, em Hidaka, província de Saitama.

Semelhante ao Obon, no Higan os budistas acreditam que a divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos é “mais tênue” nesta época do ano. As pessoas freqüentemente retornam às suas cidades natais durante esse feriado para prestar homenagem aos seus ancestrais.

Imagem destacada de Tomáš Malík no Pexels

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

Veja o perfil completo de Jaqueline Kuriu