Obon, o festival para honrar os antepassados

Obon, o festival para honrar os antepassados

Todos os anos os japoneses honram seus antepassados através de um costume budista chamado Obon, composto por uma série de rituais, danças, música e comidas típicas

Obon (お盆) é o costume budista japonês de honrar os espíritos dos antepassados. Acredita-se que a cada ano, durante o obon, os espíritos dos antepassados ​​retornem a este mundo para visitar seus parentes. Esta celebração é realizada no Japão há mais de 500 anos.

Para guiar os espíritos dos antepassados de volta ao lar, é executado um ritual chamado Mukaebi (迎え火), o Fogo de Boas Vindas. Uma pequena fogueira é feita na frente das casas para acender lanternas Chochin (提灯, lanternas de papel), que são penduradas na frente das casas até o final do festival que dura 3 dias.

Nesse período as pessoa realizam o Ohakamairi (御墓参り), a tradicional visita às sepulturas de seus familiares. Ohaka significa “sepultura”, e mairi significa “visitar”. Os japoneses acreditam que existe uma ligação entre os vivos e os mortos. Os ancestrais cuidam e protegem os vivos, enquanto os vivos oferecem em troca flores e alimentos como uma demonstração de gratidão. O ato de “compartilhar” alimentos com os mortos tem um nome específico: chama-se Ozen (お膳), em que as pessoas depositam os alimentos favoritos dos falecidos nos altares da família, chamado Butsudan (仏壇), ou nos templos e cemitérios.

O festival Obon inclui um estilo de dança, conhecida como Bon Odori (盆踊り). É um entretenimento folclórico, com uma história que remete há séculos.

Obon, o festival para honrar os antepassados 1
Foto por Sakuramai Toronto

A tradição budista se originou da história de Maha Maudgalyayana, ou Mokuren, um discípulo de Buda, que usou seus poderes sobrenaturais para olhar sua mãe falecida e descobriu que ela havia caído no reino dos fantasmas famintos e estava sofrendo. Muito perturbado, ele foi ao Buda e perguntou como poderia libertar sua mãe deste reino. Buda o instruiu a fazer oferendas aos monges budistas que haviam acabado de completar o retiro de verão no décimo quinto dia do sétimo mês. Mokuren fez isso e, assim, viu a libertação de sua mãe. Ele também começou a ver os sacrifícios que ela fizera durante sua vida. O discípulo, feliz devido à libertação de sua mãe do sofrimento e agradecido por suas muitas gentilezas, dançou de alegria. Desta dança da alegria vem Bon Odori ou “Bon Dance”, uma época em que os antepassados ​​e seus sacrifícios são lembrados e apreciados.

O Bon Odori era uma dança folclórica para receber os espíritos dos mortos, o estilo de celebração varia em muitos aspectos, de região para região. Cada região tem uma dança local, além de músicas diferentes, podendo representar a história e a especialidade de cada região. Como por exemplo Soran Bushi, uma das mais tradicionais danças do Japão, mostra gestos do mar, como as ondas no início da dança, e também as atividades dos pescadores, como puxar as redes, arrastar cordas e colocar cargas em suas costas. Essa dança é ensinada em várias escolas pelo Japão como parte do currículo escolar.

No final de Obon, lanternas flutuantes são colocadas em rios, lagos e mares, a fim de guiar os espíritos de volta ao seu mundo. Esse ritual chama-se Okuribi (送り火), significa “enviar fogo”.

Obon é comemorado em momentos diferentes nas diversas regiões do Japão, dependendo de qual calendário é utilizado. Quando o calendário lunar foi alterado para o calendário gregoriano no início da era Meiji, as localidades no Japão responderam de maneira diferente, o que resultou em três momentos diferentes de Obon. Shichigatsu Bon é baseado no calendário solar e é comemorado por volta de 15 de julho no leste do Japão (Tóquio, Yokohama e Tōhoku). O Hachigatsu Bon, baseado no calendário lunar, é comemorado por volta do dia 15 de agosto e é o dia mais comum. Kyū Bon é comemorado no 15º dia do sétimo mês do calendário lunar, e é diferente a cada ano, que pode variar entre 8 de agosto e 7 de setembro.

Como o Obon ocorre no calor do verão, os participantes tradicionalmente usam yukata, uma espécie de quimono de algodão leve. Muitas celebrações de Obon incluem um enorme festival com brincadeiras, jogos e comidas tradicionais típicas de verão.

A semana de Obon, em meados de agosto, é uma das três principais temporadas de férias do Japão (ao lado do Ano Novo e do Golden Week), acompanhada de um aumento das viagens domésticas e internacionais.

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

Veja o perfil completo de Jaqueline Kuriu