Autismo: informações importantes antes de procurar ajuda

Autismo: informações importantes antes de procurar ajuda

Quando a escola informa que o seu filho tem algum problema, o que é preciso saber antes de levá-lo ao psiquiatra?

No Brasil ou no Japão é comum a escola indicar os possíveis problemas das crianças, como hiperatividade, espectro autista, entre outros. É preciso estar muito atento para não atribuir um diagnóstico errado e introduzir as crianças, sem necessidade, ao mundo das drogas psiquiátricas.

Nos últimos 4 anos algumas reportagens apresentaram um dado alarmante para a comunidade brasileira no Japão: as crianças brasileiras apresentavam mais probabilidade de desenvolver autismo do que as crianças japonesas. Entre as consequências estariam a permanência em salas de aula especiais, o diagnóstico acompanhado do preconceito da sociedade e a impossibilidade de autonomia.

Em reportagem da Folha de São Paulo de 2017, falava-se do fracasso escolar de cerca de 40 mil crianças brasileiras no Japão atrelada a um possível diagnóstico, o autismo, estimado em 6%, enquanto a taxa entre japoneses era de 2%, segundo a reportagem.

Em tom crítico à situação, já se falava sobre a falta de estímulo adequado das crianças brasileiras, uma vez que muitas delas ficavam em creches clandestinas praticamente largadas, sem cuidados adequados, situação que se configurou dessa forma pela exigência de muitas horas extras aos pais, justamente porque são contratados para assumirem os empregos que os japoneses recusam, exigindo muitas horas de dedicação diária, salários baixos e trabalhos braçais.

Além disso, apontava-se para um diagnóstico errôneo baseado na falta de comunicação da criança, sem avaliar seu contexto de vida, levando-as a ingressarem em salas de aula especiais e serem taxadas pelo resto da vida.

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A proposta de cuidado oferecida pela saúde coletiva japonesa, centra-se em avaliar a criança, verificar se ela corresponde ao que se espera para a idade em termos de conhecimento escolar, cultural, de linguagem e socialização. Infelizmente as questões familiares que as atingem não são colocadas como fatores centrais para o comportamento infantil.

Pensemos no caso dos brasileiros no Japão: geralmente as famílias tomam a decisão de mudarem para um país tão distante quando não encontram saídas econômicas no Brasil, isso significa que a renda familiar já não é suficiente há um bom tempo, possivelmente contando com a ajuda de parentes. A decisão de mudar para um país desconhecido, sem uma rede familiar ou de amigos, sem compreender muito bem a cultura, costumes e a língua não é uma escolha fácil.

Ao chegar no Japão além do choque cultural, há a adaptação no trabalho, sendo este braçal e repetitivo, e o período de luto a se passar por deixar o país de origem.

Para os adultos o início da vida no Japão é um período difícil e é expressado, muito frequentemente, por desânimo, mal humor, dores fortes no corpo não justificadas somente pelo trabalho, tristeza ou agitação, mas às vezes por sintomas mais graves.

No caso das crianças também se trata de um momento crítico na vida, onde se deixa pra trás todas as referências sociais, culturais e psíquicas conhecidas até então. Trata-se da mudança de escola, perda de contato com os amigos e familiares queridos e entrada num mundo estranho a seus olhos. Se tudo isso já não fosse o bastante, há mais uma questão para lidar: a percepção de que algo não vai bem com seus pais. Isso é fundamental para entendermos o sofrimento infantil.

Por mais que os pais queiram esconder uma situação difícil ou pensem que as crianças não entendem o que se passa, elas percebem e isso as afeta muito. As crianças não tem a maturidade dos adultos para dizerem que não estão bem e muitas vezes esse sofrimento passa despercebido, ou ainda, é visto como manha, malcriação ou rebeldia.

É preciso que se saiba: as crianças estão envoltas em suas fantasias que as marcarão como seres humanos e as experiências da infância se entrelaçam com essas fantasias e serão carregadas pelo resto da vida, como marcas psíquicas.

Você que está lendo esse artigo lembra de algum fato importante de sua infância? Talvez quando sentia medo de ser abandonado pelos pais e como isso foi vivido de forma traumática, uma vez que demoraram um pouco mais para te buscar na escola? Ou do medo que sentia a noite, quando tudo ficava escuro, intensificado pela impossibilidade de dormir com seus pais? Ou como vivenciou o abandono ou negligência dos cuidadores, ou ainda, medo de cavalos, aviões, ônibus, que se misturavam a outros medos que não conseguia explicar? São apenas exemplos, mas nos ajudam a entender como os medos típicos da infância na formação psíquica se entrelaçam com as experiências vividas na realidade.

Agora podemos compreender a radical mudança de sair do seu país de origem, num contexto de dificuldades sócio-político-econômicas dos pais, introduzido no universo infantil. Dificuldade de sociabilização não pode ser diagnóstico psiquiátrico.

Me arrisco a dizer que a centralidade do problema não é levada em consideração na hora do diagnóstico no modelo tradicional japonês.

Primeiro, porque o diagnóstico inicial é feito com testes psicológicos, mas que não são obrigatoriamente aplicados por psicólogos no Japão, segundo Nakagawa, 2018.

Segundo, porque os testes são organizados segundo a cultura e língua do Japão, desconsiderando a cultura das crianças imigrantes.

Terceiro, porque não há o contato necessário com os pais e pessoas que estão no dia-a-dia da criança para entender seu contexto e suas angústias.

E, finalmente, porque não há espaço para essa criança ser ouvida na forma que consegue se expressar e isso envolve o brincar.

Crianças não falam que não estão bem e que precisam de um tempo. Elas expressam o sofrimento e as dificuldades principalmente em meio às brincadeiras, mas é também brincando que elas conseguem superar muitas coisas.

Drogas psiquiátricas na infância

Entre os profissionais da saúde mental há um grande debate sobre a eficiência das drogas psiquiátricas. Embora nosso pensamento quase imediato seja de procurar um médico, no caso um psiquiatra quando percebemos que não estamos conseguindo lidar com algum sofrimento ou emoção, a estratégia de tratamento somente com a medicação não é a melhor indicação.

Quando apresentamos alguma debilidade física ou doença, geralmente vamos ao médico e ele prescreve uma medicação para auxiliar o corpo a reestabelecer o equilíbrio. Se temos uma dor de garganta bacteriana tomamos um antibiótico, se temos influenza tomamos um antiviral, ou seja, o médico tem um remédio que nos cura. É assim que estamos acostumados a agir, porém no caso das questões psíquicas a lógica não é essa.

Não há qualquer estudo que comprove a disfunção orgânica diante do sofrimento psíquico, como depressão, ansiedade, fobia, bipolaridade, ou mesmo em casos considerados mais graves como psicose ou melancolia.

O que temos são estudos que apontam uma possível mudança orgânica, mas não atribui a esses sintomas a mudança, não há certeza sobre essa hipótese.

Embora seja amplamente difundido que o sofrimento psíquico esteja relacionado com o desequilíbrio de substâncias cerebrais, como dopamina ou serotonina, isso não é comprovado pela ciência, mesmo sendo este o discurso predominante.

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Alguns estudos demonstram o contrário. Pessoas que apresentavam quadro de depressão, ansiedade ou psicose tiveram a química cerebral modificada após serem medicadas com psicotrópicos (Whitaker, 2017).

O grande problema é que depois da adaptação cerebral, a retirada da medicação pode ser bastante difícil e, ao contrário do que se pensa, tal medicação não deveria ser tomada por longo período.

Uma das pesquisas mais importantes sobre o uso de medicação psiquiátrica está na Finlândia e tem aproximadamente 30 anos de prática no serviço de saúde. Trata-se da experiência do Open Dialogue ou “Diálogo Aberto” na tradução para o português.

Desde a década de 1980, a região da Lapônia Ocidental desenvolveu um tratamento diferenciado no cuidado de pessoas em crise psicótica e a grande mudança foi entender que o remédio é secundário no tratamento, por isso, cuida-se da pessoa sem a medicação, mesmo durante a crise, ou com baixas doses e por breve tempo.

Como resultado dessa experiência sabemos que as pessoas que foram inseridas no Open Dialogue voltaram a trabalhar num período médio de 2 anos, retomando as atividades corriqueiras e mesmo as mais complexas, enquanto que pessoas que usaram medicação psicotrópica no modelo tradicional da psiquiatria, de forma contínua, ficaram cronificadas e não retomaram suas vidas, tornando-se dependentes de auxílios governamentais para garantir a subsistência.

A estabilização dos quadros também apresentou diferença drástica: 10 anos de estabilização em média para quem não tomou remédio psiquiátrico e foi inserido na modalidade do Diálogo Aberto, além da pouca ou ausente medicação, essa abordagem também introduz a fala, diálogo, apoio familiar e comunitário como estratégias de cuidado, enquanto quem fazia uso prolongado de psicotrópicos tiveram várias internações psiquiátricas. (Florence, 2018).

No caso da infância, o uso de drogas psiquiátricas pode provocar sérias consequências, pois estamos falando da modificação da química cerebral através de medicação e sabemos que tem um grande potencial de tornarem-se dependentes.

Com o passar do tempo, a tendência é de aumento nas doses ou inclusão de outras drogas para lidar com os efeitos colaterais e iatrogênicos, efeitos indesejados e decorrentes do próprio tratamento.

Outro problema revelado no uso prolongado das drogas psíquicas é que com o passar dos anos elas podem agravar o quadro. Nos relatos que conhecemos, tanto na prática de saúde mental no Brasil, mas também em casos clínicos publicados no mundo, quando um sintoma se agrava, a psiquiatria lida como se fosse uma evolução do problema psíquico e a solução é o aumento das doses ou mudança da medicação. No entanto, as pessoas que conseguiram retirar a medicação após o uso prolongado e procuraram alternativas de tratamento, perceberam pioras como consequência da medicação (Whitaker, 2017).

Outro aspecto importante que não pode ser descartado é sobre o sofrimento psíquico gerado pelo bullying. Não entraremos aqui neste assunto, mas indicaremos o texto de Thiago Marques Leão neste site, Bullying no Japão: o que pais e mães brasileiras precisam saber.

Concluindo, as questões de sofrimento nas crianças são reflexos de diversos fatores, mas nunca podemos descartar o contexto familiar e social.

No caso das crianças brasileiras no Japão precisamos ter em mente que não se trata de uma mudança qualquer e que devemos ajudá-las em suas dificuldades.

A medicação psiquiátrica como única forma de cuidado ao invés de apresentar essas ferramentas pode dopar a dinâmica psíquica e até mesmo dificultar a superação das dificuldades, porém pode ser que os psicotrópicos sejam necessários, mas nunca isoladamente.

Trata-se de um recurso secundário para que o trabalho psíquico seja possível, não nos referimos ao aprendizado comportamental para a vida em sociedade, apesar de apresentar seu valor na autonomia das crianças que se tornarão adultos, estamos falando de processos mais complexos e profundos onde as crianças podem comunicar as dificuldades psíquicas que passam, entrelaçadas à realidade, e podem receber apoio para compreender esse processo à sua maneira.

Além do risco de tornar as crianças viciadas em medicação, também podemos piorar o quadro pela modificação cerebral que o remédio provoca.

Estudos sobre autismo no Japão

Alguns estudos estão sendo realizados no Japão para trazer mais dados sobre a predominância de crianças brasileiras com autismo, em comparação com crianças japonesas.

Apesar de em 2016 a ONG SABJA ter divulgado a discrepância dos diagnósticos de autismo entre as crianças brasileiras, uma breve publicação da Embaixada do Brasil em Tóquio aponta para outras perspectivas.

A divulgação inicial da pesquisa sobre autismo realizada pela Embaixada pode ser acessada no link.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e atende no Japão pelo Amae Institute.

Veja o perfil completo de Carine Sayuri Goto