Língua e luto na imigração de brasileiros ao Japão

Língua e luto na imigração de brasileiros ao Japão

Deixar o Brasil para viver no Japão requer o reconhecimento de que algo foi perdido e a consequente passagem pelo processo de luto por esta perda

A necessidade de elaboração do luto para aprender a língua japonesa

Próximo da data para entrar em vigor novas regras para a entrada de estrangeiros asiáticos no Japão (abril/2020), muitos alertam para a necessidade da comunidade brasileira aprender a língua japonesa sob o custo da perda de emprego, mas por que depois de 30 anos de imigração grande parte dos brasileiros não falam japonês?

O primeiro momento da imigração de isseis e nisseis (primeira e segunda geração de japoneses fora do Japão) ao Japão ocorreu mais expressivamente na década de 1980, embora na década anterior já existisse.

Este primeiro momento da entrada dos dekasegi brasileiros no Japão tinha como peculiaridade a proximidade com a língua e a cultura, uma vez que eram japoneses ou filho de japoneses. Em meados da década de 1990 o Japão reformula suas leis de imigração e possibilita a entrada de sanseis (terceira geração) seus cônjuges e filhos, que provocam uma substituição da mão de obra ilegal no país.

A partir da terceira geração o desconhecimento da língua japonesa aparece como uma marca. Para além da ideia que circula de que os brasileiros não se dedicam ao estudo da língua japonesa por preguiça[1], o texto propõe levantar outras hipóteses baseadas na psicanálise.

A2 - Carine Goto

Em primeiro lugar a decisão de deixar o Brasil para viver em outro país atravessa as pessoas de forma bastante intensa. Por um lado, na sociedade em que vivemos, significa o fracasso pessoal daquilo em que se investiu, por outro lado é abandonar o lugar de referências sociais, familiares, fraternas que marcaram a própria constituição psíquica.

Este processo de deixar para traz a experiência vivida no país de origem faz com que cada pessoa vivencie um luto, da mesma forma que vivenciamos quando uma pessoa se vai, no entanto, a chegada ao Japão, a urgência e característica do trabalho se apresentam como uma barreira para a elaboração necessária e superação desse momento.

Cada pessoa ao chegar no Japão sente essa experiência inicial de uma determinada forma, no entanto, é comum que apresentemos algumas expressões psíquicas desse momento e coloquemos toda a culpa no Jet lag.

Para além das mudanças do ritmo biológico por conta do fuso horário, um processo tão intenso quanto esse provoca outras alterações. Alguns sentem mal humor, excesso de sono ou agitação, dores no corpo, fadiga intensa, angústia, medo, entre outros que embora se expressem no corpo compreendem mais que ele, dizem do sujeito como um todo.

A2 - Carine Goto

Das histórias que ouvimos no Japão, algumas inclusive dizem de pessoas que no momento da chegada estiveram incapacitada para desenvolver o trabalho, recebendo diagnósticos psiquiátricos como depressão, síndrome do pânico ou dores generalizadas da fibromialgia.

Os primeiros brasileiros que estiveram no Japão para trabalhar a partir da década de 1990 tinham claro que se tratava de um momento, de um período de esforço para em breve voltar ao Brasil.

Naquele momento os altos salários possibilitaram que em poucos anos os descendentes dos japoneses retornassem ao país de origem com alguma economia, embora alguns brasileiros tenham permanecido no Japão.

É importante frisar que o fluxo migratório da década de 1990 foi formado por muitas famílias (casal com filhos) e que pelo fato da família estar junta alguns acabaram por ficar mais tempo no Japão, tanto pela dificuldade de grandes mudanças com um maior número de pessoas, quanto pelos maiores gastos para se manter uma família e consequente necessidade de mais tempo para economizar os montantes pretendidos.

A2 - Carine Goto

A partir dos anos 2000 os dekasegi começam a se caracterizar mais como imigrantes, conseguindo vistos de longa permanência e se mantendo por mais tempo no país, sendo que alguns fixam residência. Também neste período fica mais evidente o constante movimento de ir e vir entre Brasil e Japão, uma vez que vários nikkey brasileiros começam a refazer a viagem de trabalho ao Japão após perder as economias investidas no Brasil.

Aqui já podemos começar a elaborar algumas hipóteses da dificuldade de apropriação da língua japonesa pelos brasileiros: o planejamento de retorno ao Brasil e a pouca disponibilidade para integrar a cultura japonesa.

Acreditamos que esta pouca disponibilidade ocorre por diversas razões, entre elas a recusa em deixar a terra natal, mesmo estando há bastante tempo longe dela.

Deixar o Brasil para viver no Japão requer o reconhecimento de que algo foi perdido e a consequente passagem pelo processo de luto por esta perda, assim, conseguimos nos localizar novamente em meio ao estranho/estrangeiro.

A passagem por esse processo permite que o sujeito se reencontre novamente com aquilo que lhe promove a vida, em termos psicanalíticos chamamos de desejo.

É assim que o sujeito pode reencontrar seu lugar no laço social e reconstruir sua história como continuidade de uma teia de acontecimentos, não como ruptura, produzindo o espaço necessário para a criação.

A2 - Carine Goto

Alguns autores afirmam que o processo de imigração está completo quando conseguimos nos apropriar da língua, seria a concretização da passagem de um país à outro, ou ainda o movimento de transportar com sucesso o apego à primeira língua e às origens para outro lugar, permitindo ao sujeito amar novos mundos, perspectivas culturais e apreender o mundo de uma nova maneira.

Toda essa complexidade da passagem de um país à outro, resumida na linguagem mostram um movimento muito importante: a passagem pelo luto, o êxito no aprendizado da nova língua significam que o próprio sujeito se aceitou como estrangeiro, aquele que não é como os outros (os nativos).

Por mais que sigamos a cartilha para integrar uma nova cultura, será essa nossa caracterização para os olhos dos nativos, alguém que veio de outro lugar e que está aberto e disponível para amar um novo país.


[1] Ressalto aqui que o cotidiano de trabalho dos brasileiros nas fábricas japonesas, via de regra, é composto de muitas horas de trabalho, o que em alguns casos impossibilita a dedicação ao aprendizado da língua. Além da falta de tempo, o cansaço e estafa física e mental é uma realidade, isso sem descartar que o tipo de trabalho executado (esteira, movimentos repetitivos e fragmentação do trabalho) induz ao abandono dos ideais, na medida em que se acostuma com o trabalho nas fábricas.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e atende no Japão pelo Amae Institute.

Veja o perfil completo de Carine Sayuri Goto