Psicologia no Japão: da psicoterapia à atuação do psicólogo brasileiro

Psicologia no Japão: da psicoterapia à atuação do psicólogo brasileiro

Para quem busca atendimento psicológico no Japão ou para o profissional psicólogo brasileiro que gostaria de saber das possibilidades de atuação no Japão, esse texto visa esmiuçar alguns pontos importantes que se entrelaçam nos dois casos

No Brasil o psicólogo é o profissional que se graduou em uma faculdade de psicologia e ao se formar está apto para trabalhar em diversas áreas, inclusive na psicologia clínica com atendimentos em consultórios ou instituições.

Temos que levar em consideração que somente a graduação não é o suficiente para essa prática, mas o fato de ser formado em psicologia dá ao psicólogo a possibilidade legal de trabalhar nessa área. Não é incomum que optando pela atuação clínica os psicólogos procurem cursos de pós-graduação, supervisões com psicólogos que tenham muitos anos de experiência clínica, grupos de estudos e outras formas de estabelecer uma formação continuada que os ajude a compreender melhor os casos que surgem para atendimento. Via de regra, a formação do profissional para atuação clínica leva muito tempo. No entanto, a psicoterapia, aquilo que o psicólogo oferece na clínica, não é uma prática específica do psicólogo no Brasil. Outros profissionais da área psi, como psiquiatras, terapeutas, ou até mesmo profissionais de outras áreas com formação em uma das diversas correntes de psicoterapia podem oferecer este atendimento mesmo não sendo formados em psicologia.

Já no Japão a psicoterapia é prática exclusiva do psicólogo clínico e para estar habilitado nesta modalidade de atendimento é preciso formação específica, que inclui pós-graduação (mestrado) com duração de pelo menos 2 anos,e certificação profissional concedida através do exame nacional. Este exame é realizado uma vez por ano em Tóquio e é dividido em diversas categorias, no exame primário são avaliados conhecimentos em avaliação psicológica, entrevista psicológica, apoio comunitário e pesquisa, além disso também se avalia ética e legislação. Já na segunda fase do exame é realizada uma entrevista e prova oral. Então, um psicólogo formado no Brasil pode se tornar um psicólogo clínico no Japão caso comprove a formação e passe no exame anual, para isso é necessário bom domínio da língua japonesa, além de conhecimentos para prestar o exame. 

No entanto, existe outra modalidade muito mais aberta de atendimentos que pode ser utilizada para formalizar os atendimentos psicológicos chamada Counseling, ou Aconselhamento. 

Segundo o livro Counseling around the world, após o crescimento econômico do Japão na década de 1970, a recessão na década de 1990 e mudanças de valores culturais, houve a passagem de um senso de coletividade para uma sociedade marcada pelo individualismo e isolamento. Podemos entender essas transformações gerando um mal-estar psíquico nas pessoas, na medida em que há maneiras específicas de subjetivação de acordo com a forma de organização sócio-político-econômica, que neste caso chamamos de subjetividade neoliberal.

Nessa forma de subjetividade, muito marcada em nossa época, vemos cada pessoa se entendendo como centralidade nos processos de fracasso ou sucesso. Por exemplo, se uma pessoa não consegue um emprego a responsabilidade pelo fato recai totalmente sobre ela a partir do pensamento de que “eu não fui bom o bastante”, “preciso me esforçar mais”, “eu não estava preparado o suficiente”, “deveria estar estudando ao invés de estar dormindo”, etc.

É um processo peculiar que a própria pessoa produz, não é apenas uma acusação social, e que desconsidera qualquer outro dado conjuntural, como o fato do mundo em que vivemos contar com um grande contingente de desempregados e que essa massa de mão de obra sem ocupação é necessária para reduzir os custos com salários (essa discussão está presente na obra de Thiago Marques Leão, pós-doutorando em Saúde Pública pela USP e colaborador do site Todo Dia Japão). 

É também neste contexto que vemos um aumento muito expressivo dos sintomas de depressão, ansiedade, e dos diagnósticos médicos psiquiátricos como bipolaridade. Vale ressaltar que com esses diagnósticos também saltaram as taxas de uso de medicação psiquiátrica e que muitas pessoas passaram a fazer o uso dessas medicações de forma prolongada, cronificando os sintomas.

Neste contexto vemos os casos de sofrimento psíquico aumentarem incrivelmente em todo o mundo e no Japão não foi diferente. Enquanto em diversos países, inclusive no Brasil a psicologia já estava estabelecida, inclusive a psicologia clínica, no Japão por questões culturais pouco se ouvia falar nesse tipo de atendimento, questão defendida por alguns autores pela sensação de vergonha e culpa do povo japonês ao precisar de auxílio com questões psíquicas. Mas é neste contexto que vemos o Counseling se fixando no país, oferecendo atendimentos em Aconselhamento para pessoas em sofrimento psíquico. 

Essa história é bastante recente e, por isso, o Counseling ainda se apresenta de forma confusa como profissão. Não há uma definição clara sobre o que é Counseling, assim como não há licença ou regulação específica da área. Para que uma pessoa se registre como Counselor (profissional que oferece o aconselhamento) não é exigida qualquer formação na área, embora a formação e qualificação existam.

Esse panorama abre tanto a possibilidade de que profissionais da área psi, com formação, possam oferecer atendimentos, mas também abre brechas para que qualquer pessoa sem formação se autodenomine um profissional da área. Muitos estrangeiros ou japoneses com formação no exterior se registram como Counselor, é o caso de pessoas formadas em psicologia nos Estados Unidos, Inglaterra, Brasil e outros países, é também o caso de alguns psicanalistas no Japão. Através do registro de Counseling é possível legalizar seu trabalho como profissional autônomo, bastando para isso formalizar sua atividade junto à receita federal de forma bem desburocratizada. Mas é também por essa possibilidade ser tão aberta que é necessário tomar alguns cuidados.

Então, se você estiver procurando um profissional da psicologia, psicanálise ou saúde mental fique atento a sua formação. Faça uma busca na internet e verifique em que faculdade se formou, quais cursos fez, se realmente ele tem uma formação condizente com o que divulga, os anos de experiência na área e qual sua trajetória profissional. Também verifique se é vinculado a alguma associação ou instituição que dê credibilidade à formação.

O Counselor no Japão pode trabalhar em diversas áreas (hospitais, clínicas, escolas, universidades, agência de bem estar social, companhias privadas, etc), mas no caso da saúde mental para trabalhar em instituições como clínicas e hospitais há necessidade de orientação de um médico psiquiatra. Nesse último caso, somente um médico pode fazer formalmente o diagnóstico e o sistema de saúde japonês só cobre os gastos com atendimentos caso seja conduzido sob a direção médica. 

Nos consultórios particulares a abrangência dos custeios pelo shakai hoken ou kokumin hoken foi expandida em 2010 somente para a categoria de atendimento em Terapia Cognitiva Comportamental, para as outras modalidades, o pagamento é feito integralmente pela pessoa atendida.

Outra possibilidade do psicólogo brasileiro atuar legalmente no Japão é através da contratação de uma empresa que garanta seu trabalho, ou seja, uma empresa formalizada que oferece atendimentos em saúde mental pode realizar uma avaliação curricular do profissional psi e garantir sua formação, mas nessa modalidade o profissional só pode oferecer seus atendimentos na instituição. Vemos isso principalmente nas instituições voltadas aos cuidados das crianças brasileiras. Nessa situação o profissional brasileiro é reconhecido em seu trabalho de psicologia clínica pela instituição.

Organizações Não-Governamentais também recrutam psicólogos para desenvolverem atendimentos para a comunidade brasileira, e a forma que encontraram para garantir a formação mínima do profissional foi exigindo o registro no Conselho Regional de Psicologia (CRP), embora a atuação desse conselho profissional seja restrita ao Brasil. O CRP é um órgão fiscalizador e regulador da psicologia no Brasil e não pode atuar em outros países, no entanto, tornou-se um documento que comprova que os brasileiros tiveram uma formação reconhecida e tem funcionado no Japão como garantia dessa formação.

Outra forma de afirmar a formação na área, mesmo sem a validação do diploma, é através de associações de profissionais. Existem algumas delas formadas por estrangeiros que fazem um reconhecimento institucional da formação, há aquelas que exigem pelo menos mestrado na área e uma vez filiado é a garantia de que o profissional passou por uma avaliação rigorosa de sua formação, mas isso não substitui o registro japonês de psicólogo clínico, apenas é uma garantia para aquelas pessoas que buscam um profissional qualificado.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e atende no Japão pelo Amae Institute.

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