Irezumi: a tatuagem no Japão

De ritual religioso a marcação de criminosos, a tatuagem no Japão – ou irezumi – tem uma história turbulenta. Passou por diversas transformações de status e ainda hoje é motivo de debate

Irezumi: a tatuagem no Japão

A tatuagem no Japão tem uma história turbulenta.

No passado era vista como uma tradição nobre, chegando até a ser considerada a quintessência da moda urbana. Na era moderna, quando o Japão se abriu para o mundo, foi declarada ilegal. A antropóloga cultural Yamamoto Yoshimi – autora de Irezumi to Nihonjin (Os Japoneses e as Tatuagens), Irezumi no sekai (O Mundo das Tatuagens) – conta qual é a visão atual dos japoneses sobre a tatuagem.

Um critério de beleza feminina

Tatuagens estão cada vez mais na moda. No entanto, injetar pigmentos na pele para desenhar padrões, imagens ou símbolos é uma das formas mais antigas e difundidas de modificação corporal em todo o mundo. As origens da tatuagem, que em japonês é chamada 入れ墨irezumi – não são claramente conhecidas. Há, no entanto, ampla evidência de que, no Japão, a tatuagem remonta aos tempos pré-históricos. As decorações feitas nas estatuetas Dogû e Haniwa, encontradas em locais do Paleolítico e do Neolítico, indicam que a tatuagem era praticada no Japão desde tempos imemoriais.

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No sul do Japão, desde as ilhas Amami Oshima até o arquipélago Ryukyu (a atual Okinawa), as mulheres faziam o hajichi, as tatuagens nas mãos, que muitas vezes iam da ponta dos dedos até os cotovelos. As primeiras referências de hajichi remontam ao século XVI, embora a prática em si é provavelmente muito mais antiga. Acredita-se que estava associada a ritos de passagem: as tatuagens nas mãos indicariam que a mulher era casada. Quando uma tatuagem era concluída, o casamento era celebrado. Os desenhos e áreas do corpo tatuados variavam de ilha para ilha. Em alguns lugares, chegava-se a acreditar que uma vez morta, uma mulher sem hajichi teria uma vida de sofrimento no além.

Atualmente o hajichi não é mais realizado. Não se sabe quando a prática foi extinta. Embora seja provável que a última mulher com hajichi tenha morrido no início da década de 1990.

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Entre os Ainu, povo do norte do Japão, as mulheres costumavam usar tatuagens ao redor dos lábios e nas mãos. Esta prática foi registrada pela primeira vez em 1612, por Girolamo de Angelis, missionário jesuíta italiano. Portanto, parece que a tatuagem já foi uma prática bastante comum em todo o arquipélago. O Kojiki (712) e o Nihon Shoki (720), as duas obras escritas mais antigas do Japão, mencionam que a tatuagem era praticada tanto como um costume quanto como uma sanção.

Mas a prática começa a desaparecer em meados século VII, devido a uma significativa mudança de critérios de beleza feminina. Até o início do século XVII, elas não aparecem em qualquer documento ou imagem.

Interesse renovado no período Edo

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Foi durante o período Edo (1603 a 1868) que a tatuagem experimentou um ressurgimento significativo. No século XVIII o irezumi também se difundiu entre os hikyaku 飛脚 “mensageiros” e os tobishioku (ou tobi) とび職 (trabalhadores da construção civil). Esses operários preferiam tirar o quimono para ter mais liberdade de movimento, muitas vezes trabalhando apenas com uma simples fundoshi (tanga). Para não se sentirem constrangidos, eles cobriam os corpos com tatuagens. Os tobi eram escaladores ágeis, e desempenharam um papel muito importante na preparação de eventos públicos, como festivais, e participavam na manutenção da ordem e no combate a incêndios.

Com o tempo, as tatuagens se tornaram parte integrante da imagem e identidade do tobi, tanto que as pessoas ricas da vizinhança se encarregavam de pagar os custos da tatuagem. Quando um incêndio começava, esses ágeis trabalhadores enfrentavam o fogo demolindo estruturas de madeira e evitando assim que o fogo se propagasse. O dragão era um dos desenhos de tatuagem mais comuns, já que era tradicionalmente reverenciado no Japão por trazer chuva e proteção espiritual.

Assim, as tatuagens evoluem de designs de personagens simples para designs maiores e complexos. Essa tendência resultou no surgimento de uma nova profissão especializada: os horishi 彫師, ou tatuadores profissionais.

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“Kyumonryu shinshin e Chokanko Chintasu” de Utagawa Kuniyoshi

Na primeira metade do século XIX o artista de ukiyo-e, Utagawa Kuniyoshi, representa alguns dos heróis da novela clássica chinesa Shui hu zhuan (beira-mar) com tatuagens cobrindo seus corpos (ver acima). A série foi um enorme sucesso e outros artistas seguiram essa tendência criando gravuras de famosos atores kabuki exibindo suas tatuagens. Graças em grande parte à influência do ukiyo-e e do kabuki, as tatuagens continuaram a progredir em tamanho e complexidade, até cobrirem o corpo inteiro.

Deve-se notar que a prática do irezumi nunca se espalhou entre a classe dominante dos samurais, pois eles viviam de acordo com o pensamento confucionista que proibia ferir o próprio corpo. 

Medidas repressivas na era moderna

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Imperador Meiji, de 1867 a 1912

Após o colapso do Shogunato e da Restauração Meiji em 1868, o novo governo empreendeu a construção de um estado moderno no modelo das nações industriais ocidentais. Depois de mais de 200 anos de isolamento quase total, o Japão finalmente abriu suas portas para o mundo. Dignitários, viajantes e marinheiros de países estrangeiros começaram a chegar ao país, e em seus diários de viagem era possível ler muitos comentários de surpresa com os costumes da sociedade japonesa, como os banhos públicos, onde homens e mulheres tomavam banho juntos (konyoku), ou a visão de homens andando nas ruas vestidos apenas com um fundoshi e cobertos de tatuagens.

Temendo passar a imagem de um país atrasado, o governo Meiji decidiu em 1872 proibir tanto fazer quanto receber tatuagens. Este contexto leva o irezumi a ser praticado secretamente em círculos com os quais está historicamente relacionado. As tatuagens japonesas ficaram, portanto, escondidas sob camadas de roupas. Paradoxalmente, essas circunstâncias podem ter ajudado a reforçar o mistério em torno do irezumi, criando uma aura de algo oculto, belo e imbuído de uma espiritualidade profunda.

Entre os Ainu e os habitantes de Ryukyu, a proibição da tatuagem teve um impacto decisivo. As mulheres foram obrigadas a renunciar a um costume que fazia parte de sua herança cultural. Por algum tempo, muitas continuaram a fazer tatuagens em segredo, contudo eram rapidamente descobertas pelas autoridades. Hoje, tanto entre os Ainu quanto nas Ilhas Ryukyu, a prática da tatuagem desapareceu completamente.

A diáspora horishi

Apesar da repressão do governo Meiji, os horishi foram reconhecidos internacionalmente pelo seu talento. Os visitantes estrangeiros na era Meiji procuravam fazer tatuagens exóticas como lembrança. Este é o caso do Príncipe Jorge e de Nicolau Alexandrovich (que mais tarde se tornariam, respectivamente, o Rei Jorge V do Reino Unido, e o Imperador Nicolau II da Rússia). Jornais americanos e britânicos publicaram relatos de marinheiros e viajantes que fizeram tatuagens no Japão, despertando a curiosidade dos leitores.

Como a tatuagem tornou-se ilegal em seu país, os horishi foram forçados a trabalhar como pintores ou fabricantes de lanternas e praticar seu verdadeiro ofício às escondidas. Para usufruir de maior liberdade profissional e atender a um crescente interesse do exterior, alguns deles deixaram o Japão e se estabeleceram em Hong Kong, Cingapura, Filipinas, Tailândia, Índia, Grã-Bretanha ou Estados Unidos. As atividades desses emigrantes horishi foram reveladas nos últimos anos pelo trabalho dos escritores Koyama Noboru e Yamamoto Yoshimi.

Como o irezumi era especialmente procurado por marinheiros e passageiros, os horishi costumavam trabalhar em instalações alugadas perto dos portos. Alguns deles viajavam muito pelo mundo durante sua carreira. Em 1899, o renomado tatuador Horitoyo Yoshisuke, entrevistado por um jornalista do New York Herald, relatou suas muitas viagens a capitais ao redor do mundo, como Paris, Londres ou Nova York, nas quais tatuou personalidades famosas e membros de famílias da realeza europeia.

No entanto, os horishi acharam seu trabalho no exterior um tanto desmotivador. De fato, apesar de suas habilidades serem apreciadas onde quer que fossem, a grande maioria dos clientes procurava apenas uma pequena tatuagem simples e exigiam apenas uma sessão. Sem uma grande comissão ou designs elaborados, os horishi não tiveram a oportunidade de exibir seus talentos por completo.

Fora das sombras

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“Tebori” foto de zacdavies – CC BY-ND 2.0

A proibição de tatuagens no Japão foi completamente suspensa em 1948, sob a ocupação americana do pós-guerra. Bases militares dos EUA foram estabelecidas em todo o Japão e os tatuadores japoneses começaram a oferecer seus serviços aos militares dos EUA, especialmente em torno da base naval de Yokosuka.

No entanto, foi apenas na década de 1970 que os horishi começaram a emergir das sombras, graças à publicação de livros e exposições dedicadas à sua arte. Foi também neste período que os estilistas Issey Miyake e Yamamoto Kansai criaram roupas com design inspirado no irezumi. Na década de 1980, a tatuagem se espalhou entre grupos de rock americanos e britânicos, despertando novo interesse entre os jovens fãs japoneses do gênero. À medida que a tatuagem ganha popularidade, os jovens japoneses redescobriram a beleza da arte tradicional do irezumi.

Em 2014, de acordo com uma pesquisa realizada por membros da Federação da Ordem dos Advogados de Kanto, entre mil homens e mulheres de 20 a 60 anos, 16 deles tinham tatuagens. Essa proporção permanece baixa em comparação com a maioria dos países ocidentais, onde oscila entre 10% e 25%. Isso indica que a sociedade japonesa ainda está começando a considerar a tatuagem como um verdadeiro modo de expressão estética.

No século XIX, quando as potências ocidentais voltaram seu olhar para o Japão, a ameaça de colonização fez com que o governo quisesse apresentar uma aparência civilizada e forte. As tatuagens eram consideradas um sinal de barbárie que não se encaixava em uma civilização moderna. Portanto, em 1872, os governantes japoneses emitiram uma proibição nacional de tatuagens. Depois disso, foi principalmente a máfia japonesa conhecida como Yakuza que manteve viva a prática da tatuagem. Por causa dessa tendência, muitos cidadãos japoneses presumem que as pessoas com tatuagens são membros da Yakuza, então os portadores de tatuagens frequentemente enfrentam o preconceito e o medo da comunidade. A proibição foi levantada pelas forças de ocupação dos Estados Unidos em 1948, mas isso também teve um efeito negativo na percepção das tatuagens. O levantamento da proibição pelos americanos fez com que muitos japoneses se ressentissem ainda mais com a prática.

Hoje, os tatuadores de todo o mundo são inspirados por símbolos e designs japoneses, e a globalização do irezumi está lentamente abrindo essa prática. Muitos ocidentais que viajaram para o Japão ou viram o irezumi optaram por usar os mesmos ícones em suas próprias tatuagens, como peixes Koi e dragões. Existem alguns problemas com essa prática pois na cultura japonesa essas imagens carregam um significado e importância específicos, que os ocidentais podem não conhecer ou compreender.

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Shuihu Zhuan, 1875, de
Toyohara Kunichika

No entanto, alguns artistas adotaram o estilo de representar essas imagens e os aplicaram à sua própria cultura. Um exemplo é o tatuador Christopher D. Brand, que se inspirou nas histórias tradicionais do romance chinês do século 14, chamado Shuihu Zhuan, (“Margem d’água”, também conhecido como Suikoden em japonês),para criar uma série de tatuagens chamada “108 Heroes of Los Angeles“. A história diz respeito a um grupo de bandidos fora da lei lutando contra um governo corrupto e fez muito sucesso com o público japonês no período Edo (1600-1867 d.C.) e, devido às suas ilustrações elaboradas, tornou-se parte da “febre” das tatuagens japonesas daquela época.

Brand preserva a forma tradicional do irezumi, usando um estilo de representação figural semelhante às xilogravuras Edo e decora o fundo da tatuagem de uma maneira semelhante ao irezumi tradicional. No entanto, ele muda a história para caber na cultura chicana, ou mexicana-americana, mudando os heróis, as histórias e as armas. Este é um exemplo de como as tradições do irezumi e da influência japonesa foram preservadas, ao mesmo tempo que se adaptou para se adequar a diferentes culturas e diferentes períodos de tempo.

Ainda existem limites, e muitos cidadãos normais ou celebridades escondem suas tatuagens para suas ocupações cotidianas. Mas eles se tornaram aceitos em certos lugares, como em um bairro boêmio, em uma grande cidade ou durante uma ocasião especial.

As Tradições de Irezumi

A arte do irezumi está impregnada de tradições, desde o processo de aplicação até os tipos de símbolos utilizados. O treinamento na arte segue um sistema tradicional no qual um aprendiz, ou 弟子deshi – estudava e treinava por anos com um mestre, ou 師匠shisho. Assim que o shisho sentir que o deshi está apto, ele pode trabalhar com os clientes e se tornar um mestre. Uma vez que o deshi se torna um shisho, ele pode decidir continuar trabalhando no estilo que o seu shisho lhe ensinou ou pode criar seu próprio estilo ou interpretação. Essa ligação de estilos conecta os tatuadores em uma “família”, chamada 一門ichimon.

Outro aspecto em que a tradição desempenha um papel é no desenho da tatuagem. Os clientes não estão autorizados a escolher suas tatuagens; ao invés disso, o shisho cria o design para o cliente, sob a ideia de que é uma honra para o cliente ser tatuado e o mestre sabe qual design será o melhor. 

O método de aplicação do irezumi é chamado 手彫りtebori – traduzido como “tatuar com as mãos”. Este é um método executado à mão, utilizado para obter cores vibrantes e mudanças sutis de tom de uma forma única.

O formato da tatuagem também segue uma tradição devido ao histórico de conotação negativa das tatuagens. A forma da tatuagem foi projetada para ser escondida sob a roupa, criando a localização típica do irezumi nas costas, nas pernas e, às vezes, com uma abertura no centro do peito, caso a pessoa queira usar um quimono. Por isso no Japão as tatuagens são vistas como algo íntimo e privado, e não são usadas à mostra e conforme a moda como nas culturas ocidentais.

Existem vários motivos populares que são frequentemente usados ​​em designs de irezumi que possuem significados tradicionais. Três dos motivos mais populares são peixes Koi, cobras e caveiras. Os peixes Koi são conhecidos por simbolizar a boa sorte e a ideia de triunfar sobre os obstáculos. Por causa dessa associação, muitas vezes é retratado nadando em uma cachoeira. As cobras simbolizam proteção, especialmente contra doenças e azar, por isso está ligado à ideia de cura e regeneração. Também é um motivo apreciado no irezumi pois pode ser representado como se estivesse envolvendo o corpo, o que é visualmente interessante. Finalmente, o crânio está associado à morte, ao respeito pelos ancestrais e ao ciclo de vida. Isso torna a imagem mais positiva do que normalmente é percebida nas culturas ocidentais, o que pode causar problemas em interpretações interculturais.

A conexão de Irezumi com o crime

A primeira vez em que a tatuagem foi associada a criminosos foi em 300 d.C., quando eram utilizadas para marcar e identificar criminosos. A partir de 1720, as autoridades tatuavam criminosos no braço ou na testa como punição, o que fez com que grande parte da classe trabalhadora tivesse uma imagem negativa do irezumi.

O Japão parou de marcar criminosos no século XIX, e as pessoas começaram a tentar esconder essas tatuagens, conhecidas como 墨刑 – bokkei (ver também 五刑), dentro de designs maiores e mais decorativos.

A associação com a criminalidade tornou-se ainda mais forte com a utilização frequente do irezumi pela Yakuza, a máfia japonesa. As duas se tornaram sinônimos e as tatuagens fazem parte da cultura e da identidade Yakuza. Este ato de rebelião permitiu que a arte da tatuagem sobrevivesse.

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Foto de  elmimmo no Flickr

Devido à sua associação com a Yakuza e à criminalidade, as tatuagens são vistas como intimidantes e muitas vezes são escondidas para manter o membro da gangue anônimo.  Esses fatores levaram ao design distinto do irezumi da Yakuza, conhecido como Horimono.

A associação com a Yakuza dificulta o processo de aceitação. O fato é que quando um ocidental tem uma tatuagem, ela é interpretada de maneira diferente do que quando um membro da Yakuza a tem. Mas a popularidade das tatuagens entre a Yakuza começou a cair como um método de se misturar ao público em geral e evitar a detecção. Esta diminuição provavelmente abrirá o irezumi ao público em geral.

Muitos estabelecimentos, como piscinas públicas e fontes termais, ou onsen, proíbem a entrada de pessoas com tatuagens visíveis, não importa o quão pequenas sejam. Com o crescente número de visitantes ocidentais migrando para o Japão, as leis atuais e os estigmas sociais em torno das tatuagens estão se tornando não apenas confusos, mas prejudiciais para esta forma de arte japonesa, à medida que o governo proíbe tatuagens para nativos, mas respeita os visitantes com tinta sob a pele.

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

Veja o perfil completo de Jaqueline Kuriu