Um ministro da solidão para um povo distante da saúde mental

No início do ano de 2021 o Japão nomeou seu primeiro ministro da solidão, responsável por políticas de diminuição dos índices de suicídio

Um ministro da solidão para um povo distante da saúde mental

O Ministro da Solidão japonês tem a impossível tarefa de fazer as pessoas recuperarem o gosto pela vida. Em 2020 o Japão registrou um total de 20.919 mortes por suicídio, incluindo nesses números 440 crianças em idade escolar (ensino fundamental e médio) e 6.976 mulheres.

Pandemia e questão econômica

Há um entendimento do governo de que o recente aumento nos suicídios está intimamente ligado à pandemia e suas sequelas socioeconômicas, tais como desemprego, isolamento social, diminuição da renda familiar e preocupação com o futuro, por esses motivos muitas das medidas que estão sendo elaboradas se vinculam à segurança econômica e alimentar, como por exemplo, a criação de um banco de alimentos ou ajuda financeira para famílias vulneráveis, como no caso das famílias mono-parentais.

tarefa ministro da solidão
A solidão se tornou uma preocupação séria durante a pandemia para o governo japonês

Relembrando a crise econômica da década de 1990, tivemos um pico nos índices de suicídio com aumento de 34,7% somente em 1998, nos mostrando o quanto naquele momento a morte esteve ligada com questões políticas e econômicas. No entanto, é importante ressaltar que a década de 1990 foi bastante marcada pelo acirramento das políticas neoliberais no Japão, que já haviam iniciado na década anterior.

O Japão, embora não tivesse uma política de bem-estar social organizada pelo governo, desfrutava de algumas garantias sociais assumidas pelas empresas, esse paternalismo empresarial oferecia estabilidade no emprego e ascensão hierárquica vinculada a momentos de vida socialmente reconhecidos, tais como casamento, nascimento dos filhos, etc.

Os trabalhadores eram recrutados diretamente das escolas e tinham emprego estável até os 55 anos, quando se aposentavam com um valor suficiente para manter a família e aproveitar viagens e descanso, mas tudo isso só era possível desde que cada trabalhador evidenciasse sua fidelidade à empresa, e isso significava que a mudança de emprego não era algo bem visto.

A política de gestão das empresas incluía assistência médica, odontológica, habitação, educação dos filhos, seguro, caderneta de poupança, bônus semestrais e participação nos resultados da empresa, e foi justamente essa organização do trabalho que desmoronou nos anos de 1990.


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A crise financeira asiática não foi somente uma desregulação monetária, como também marcou o fim de um modelo de organização socioeconômica baseado no modelo paternalista empresarial de bem-estar social.

Muitos trabalhadores que dedicaram a vida inteira para se aposentar tranquilamente, como viam seus colegas e familiares fazerem, foram demitidos sem ressentimentos por parte da empresa, essa que se acreditava ser a base de segurança para manter a família e seu estilo de vida. Os altos índices de suicídio a partir dessa crise evidenciam esse desolamento.

No momento atual de pandemia o que os suicídios nos mostram? É preciso ler nas entrelinhas o que os sintomas sociais escancaram.

A solidão entre as mulheres

Os últimos dados sobre suicídio durante a pandemia elucidaram que há um sofrimento maior entre as mulheres, uma vez que o aumento nas mortes ocorreu justamente entre a população feminina, ficando praticamente estável entre os homens.

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A solidão das japonesas se agravou durante a pandemia

A mulher ocupa um lugar secundário na sociedade japonesa, embora hoje em dia muitas delas façam um curso universitário e ingressem no mercado de trabalho, são minoria nos cargos gerenciais e recebem menos promoções, além disso a distinção salarial entre homens e mulheres ainda é realidade no Japão, apesar de ilegal.

É comum também que as mulheres deixem o emprego ao se casarem ou ter filhos, já que são os homens que ganham melhores salários e o lugar social da mulher ainda é reconhecidamente de cuidado familiar.

Internacionalmente o Japão passa por constrangimentos constantes ao ser reconhecido como país que não prioriza a igualdade de gênero em suas políticas e não são raros os casos na mídia que demonstram essa realidade, como exemplo, no ano de 2018 a universidade de medicina de Tóquio assumiu que deu preferência aos candidatos homens por mais de uma década nas provas de vestibular, após a denúncia e fim da fraude as mulheres estão apresentando melhores resultados nas provas.

Crianças

O sofrimento na infância não é novidade, mas é amplamente banalizado. Via de regra os adultos consideram que as crianças não sofrem, pois não precisam se preocupar com problemas do mundo adulto, como trabalhar, pagar contas, etc. No entanto, o mundo infantil não é mar de rosas.

Por mais que os pais tentem esconder algum conflito vivenciado pela família, a criança percebe para além das palavras e não falar sobre o assunto pode ser a pior opção, criando uma série de fantasias no universo infantil. E temos que considerar que uma família que toma a decisão de deixar sua pátria para trabalhar no Japão, a grande maioria nas fábricas japonesas, passará no mínimo pelo luto de deixar seu país, família e amigos.

A nova cultura, nova língua e o novo ambiente escolar fazem parte de uma nova realidade que a criança precisa elaborar. Por vezes há um bom suporte da escola para essa transição, mas também sabemos que as escolas japonesas são bastante rígidas e que uma frase de grande circulação entre os japoneses para definir seu sistema de ensino é “se um prego se destaca precisa ser martelado”.

O sistema de ensino japonês é bastante exemplar no que dispõe aos alunos, as escolas estão organizadas para oferecer atividades em período integral, indo desde as matérias do núcleo comum, até mesmo aulas que envolvem atividades para autonomia do dia-a-dia, como cozinhar ou realizar pequenos consertos em roupas. O ensino japonês é considerado de excelência, mas ao mesmo tempo orienta para a padronização dos sujeitos, uma vez que não há muito espaço para a solidão. Além do mais, a cobrança por um bom desempenho é motivo de bastante cobrança entre os próprios alunos.

Imigrantes

Intrigantemente os imigrantes não entram nas contas do governo para políticas de saúde mental. No entanto, sabemos o quanto o trabalho e mudança de país produzem sofrimento psíquico, além do fato da taxa de suicídio entre imigrantes ser considerável.


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Entre os brasileiros, sabemos que o uso de remédios psiquiátricos para dormir, para ansiedade e depressão é a estratégia mais empregada para aliviar o sofrimento psíquico, mas que também é corriqueiro que muitas pessoas nessas condições voltem ao Brasil em busca de um tratamento.

Esse movimento dos estrangeiros de retornar à sua terra natal diante de uma doença ou sofrimento, contribui para que o governo não se ocupe na construção de políticas públicas voltadas aos expatriados e nem sequer divulgue dados estatísticos sobre a observação de tais problemas.

Hikikomori – a solidão ao estilo japonês

O termo Hikikomori é utilizado para designar as pessoas que entram em isolamento social por livre vontade, permanecendo dessa forma por longos anos. O Japão apresenta esse fenômeno como algo corriqueiro em sua sociedade, principalmente entre jovens e adultos. No entanto, o governo tem se preocupado com esse tipo de solidão entre idosos e destaca que vários deles morrem sozinhos, e a descoberta da morte demora vários dias, geralmente quando os vizinhos começam a sentir um cheiro desagradável.

O isolamento social extremo, fora do contexto pandêmico, ocorre há muitos anos no Japão e para os jovens ganha contorno de uma recusa em viver nessa sociedade de cobranças excessivas. Há um debate crescente que pergunta o que acontecerá com os hikikomori quando seus pais falecerem, sendo que alguns deles dizem que morrerão com seus pais apontando para um possível suicídio.

Estratégias de Saúde Mental

O sistema de saúde japonês é integrado por clínicas particulares que ingressam no sistema público de seguros, dessa forma, para todo cidadão inscrito nos seguros de saúde o governo subsidia o tratamento e os medicamentos. Esse tipo de sistema, embora muito organizado e eficiente no país, deixa a desejar quando falamos em Saúde Mental, isso porque para oferecer atenção necessária nesse campo são necessárias ações articuladas em rede, algo que não acontece no Japão.

Basicamente o sistema de Saúde Mental japonês é composto por clínicas de psiquiatria e hospitais psiquiátricos, onde uma pessoa em sofrimento intenso fica internada por alguns meses recebendo medicamento. Em outras palavras, a estratégia dominante é a da medicação psiquiátrica.

Infelizmente, os psicotrópicos não foram desenvolvidos para curar o sofrimento psíquico, seja ele qual for (depressão, ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia, solidão etc), eles aliviam sintomas temporariamente e o uso prolongado torna os casos crônicos, isso significa dizer que eles passam a não ter cura e podem evoluir de maneira muito ruim no decorrer dos anos.

Além do mais, o uso desses medicamentos está intimamente ligado ao aumento dos índices de suicídio, o que no contexto japonês significa colocar “lenha na fogueira”.

Movimentos ainda tímidos refletem e propõem outros tipos de tratamento, como é o caso do Open Dialogue, abordagem finlandesa que vem sendo empregada no Japão por um pequeno grupo da Universidade de Tsukuba, orientado pelo professor Saito Tamaki. Nesse tipo de abordagem para casos de psicose a família, amigos e vizinhos são convidados a apoiar a pessoa que passa por sofrimento, fazendo com que a medicação não seja necessária ou pouco utilizada. Como resultado temos o retorno da pessoa para sua vida cotidiana, incluindo o trabalho, em índices muito maiores do que no tratamento convencional medicamentoso.

Conclusão

Voltamos a nossa pergunta inicial: No momento atual de pandemia o que os suicídios nos mostram? É preciso ler nas entrelinhas o que os sintomas sociais escancaram.

Definir que o aumento nos suicídios é decorrente da crise econômica da pandemia e intensificação da solidão e isolamento social pode ser uma resposta simplificada para o que os suicídios falam. Na complexidade da nossa sociedade muita coisa há de ser levada em conta. Aspectos do mundo do trabalho geralmente são deixados de fora, isso porque não é um questionamento conveniente em uma sociedade que prioriza a organização empresarial mesmo diante da saúde das pessoas.

Precisamos frisar que foi o Japão que desenvolveu o Toyotismo, uma forma de organizar o trabalho que intensificou a exploração do trabalhador em níveis nunca vistos até então e que dentro das empresas utilizam o medo como forma de gerenciar os recursos humanos. Hoje em dia estamos diante de outras formas de intensificação da exploração do trabalho, que junto a ela acrescentam a precarização e insegurança.

Ao mesmo tempo a cultura japonesa não é aberta para a psicanálise ou a psicologia, como lugares de reconhecimento da cura pela fala. A vergonha de precisar de um profissional psi ou mesmo a culpa pelo sofrimento parecem impedir que as pessoas cheguem a esses profissionais.

Pensar que os suicídios acontecem pela pandemia é ignorar que esse é um movimento antigo da população japonesa, na medida em que entendem que o sofrimento é culpa delas e que não pode ser compartilhado. A pandemia vem se somar a uma sociedade que por si já provocava o sofrimento psíquico, mas que agora acirra a falta de perspectiva no futuro próximo, ainda que o Japão esteja em condições muito melhores que do Brasil, por exemplo.

O processo de isolamento da população japonesa parece demonstrar um sofrimento social vivido como individual e carregado do sentimento de culpa. Se o suicídio é o fenômeno extremo desse sintoma social, não podemos nos esquecer do aumento das pessoas que se recusam a ter relações sexuais, daquelas que preferem ter relacionamentos com personagens de anime ou hologramas e da decrescente taxa de natalidade. Se o ministro da solidão de fato elaborasse um plano para resolver esses problemas, estaríamos diante de uma revolução, algo que não acontecerá.

Se você ou alguém que você conhece precisa de aconselhamento, o site Consulado Geral do Brasil em Nagoya faz parcerias com psicólogos para auxiliar membros da comunidade. A depressão, o isolamento social e a solidão, não devem ser ignorados, principalmente durante a pandemia.

Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

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