Os invisíveis sem-teto do Japão

Os invisíveis sem-teto do Japão

Existe um número crescente de pessoas que vive nas ruas, em cibercafés e até em seus carros. Esses são os invisíveis sem-teto do Japão

O Japão é um dos países mais desenvolvidos do mundo, mas apesar de tudo, ainda não está livre da miséria. Em termo gerais podemos dizer que não sentimos que o Japão têm pessoas vivendo na pobreza e, apesar da grande quantidade de empregos disponíveis, seus invisíveis sem-teto se tornaram notícias recentemente.

Segundo pesquisa realizada em 2019 pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-estar do Japão, 4555 pessoas foram identificadas como moradores de rua, em mais de 255 municípios no país. Dados bem modestos ao comparar com São Paulo, por exemplo. A cidade tinha algo em torno de 400 mil moradores de rua, mesmo que especialistas digam que o número possa ser ainda maior.

Ainda segundo relatório do Ministério japonês, as pessoas consideradas moradores de rua se abrigam basicamente embaixo de pontes, a beira de rios, estradas e em estações de trem.

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Pessoas que vivem embaixo de pontes em Nagoya
Imagem: Google Maps

Infelizmente, o Japão não tem apenas moradores de rua, muitos sem-teto vivem totalmente ocultos, muito mais invisíveis que os próprios moradores de rua. São os Refugiados de Cibercafé.

Onde vivem os Refugiados de Cibercafé?

O termo Netto kafe nanmin (ネットカフェ難民) ou Refugiados de Cibercafé refere-se a uma classe de desabrigados ou sem-teto do Japão que não têm endereço permanente, incapazes de alugar um apartamento e que dormem nos internet café.

Uma pesquisa do governo metropolitano de Tóquio divulgada em 2018 mostrou que existem cerca de 4.000 Refugiados de Cibercafés, que optam por passar a noite em tais instalações porque não têm uma residência estável.

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A entrada de um cibercafé no distrito de Akihabara, em Tóquio
Foto: Satoko Kawasaki

A pesquisa, realizada em novembro de 2016 a janeiro de 2017, teve como alvo 502 internet cafés e de mangá em Tóquio, que estão abertos 24 horas por dia e incluiu 946 de seus clientes. As respostas válidas foram fornecidas por 222 cafés.

Com base nos resultados divulgados, o governo metropolitano estimava que cerca de 15.000 pessoas permaneciam nesses cafés diariamente durante a semana e cerca de 4.000 delas estão desabrigadas. A pesquisa revelou também que cerca de 3.000 também não têm empregos estáveis.

Os resultados indicaram que 37,1% de todos os clientes da noite para o dia estavam usando cibercafés na capital como substitutos de hotéis ou em viagens pessoais. Por outro lado, 25,8% confirmaram que não tinham residência estável e estavam usando os cafés como opção de moradia.

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Foto: Satoko Kawasaki

A pesquisa também descobriu que, das 363 pessoas que confirmaram que eram trabalhadores temporários e não tinham residência estável, mais de 90% usavam várias opções diferentes de abrigo, incluindo restaurantes de fast food, ou apenas dormiam nas ruas.

A pesquisa definiu trabalhadores temporários como aqueles sem empregos estáveis. Isso incluía funcionários contratados e de meio período.

Embora o período de sem-teto tenha variado, 17,6% disseram ter se mudado de sua residência anterior um a três meses antes e 11,0% disseram que não moravam há mais de 10 anos em um endereço fixo.

Perto de um terço dos que não têm residências estáveis ​​disseram que a principal razão pela qual eles perderam suas casas foi a incapacidade de pagar aluguel devido à perda de empregos.

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Foto: Satoko Kawasaki

Uma das facilidades que os internet café, além de um local com privacidade e com internet, muitos oferecem chuveiros e água quente para preparar macarrão instantâneo a preços que variam de ¥1400 a ¥2400 por noite, mais barato que muitos hotéis cápsula.

A declaração de Estado de Emergência em Tóquio pode transformar esses refugiados em moradores de rua

Esses refugiados viram notícia novamente com a declaração de Estado de Emergência em Tóquio devido as restrição que o governo da província está tomando.

A cidade quer reduzir ou fechar diversos estabelecimentos tidos como locais de entretenimento. Algumas autoridades locais estão abrindo abrigos para acomodar os refugiados e impedir que eles durmam ao ar livre.

Abrigos temporários, como o de um salão de judô em Yokohama, operados pelas autoridades locais de Kanagawa, foram projetados por uma equipe liderada pelo premiado arquiteto japonês Shigeru Ban para oferecer privacidade e prevenir o contágio pelo coronavírus.

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Foto: AFP / CHARLY TRIBALLEAU

Os moradores dormem em camas de tipo acampamento ou camas de papelão divididas por uma estrutura de tubos de papel resistente, com uma cortina, criando um cubículo.

Ban é famoso por outros abrigos e prédios de emergência, incluindo a Catedral de Papelão para Christchurch, na Nova Zelândia, após o terremoto de 2011.

O objetivo é fornecer um local seguro para aqueles expulsos pela crise do coronavírus, disse Yuji Miyakoshi, funcionário do governo municipal.

O abrigo gratuito recebeu cerca de 40 pessoas desde a abertura no dia 11 de abril e um morador disse que ficou desolado, após seu alojamento em um “hotel cápsula” ter sido fechado dois dias antes.

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Foto: AFP / CHARLY TRIBALLEAU

Os sem-teto que vivem em seus carros

Outros sem-teto invisíveis do Japão vivem em carros, como deflagrou a emissora NHK em um documentário chamado Invisible Homeless: People Living in Cars ou em tradução livre “Os invisíveis sem-teto: pessoas que vivem em carros”.

O problema não é novo, mas se agravou depois da crise de 2008-2009 e também com o terremoto e tsunami de 2011.

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Imagem: NHK

Como a grande maioria dos estacionamentos no Japão são abertos 24 horas por dia e são livres de tarifas, possuem restaurantes ou máquinas automáticas com comida rápida, o local é ideal para alguns sem-teto passarem as noites.

A reportagem mostrou o caso de uma idosa de 92 anos, que morreu dentro de um desses carros. Ela e mais duas pessoas de sua família estavam morando no carro a mais de um ano.

https://www.youtube.com/watch?v=VyMxEwcFwes

Muitos outros idosos e pessoas que perderam a perspectiva em suas vidas vivem na mesma situação. Elas não se encaixam em programas de auxílio do governo, pois muitos deles possuem renda.

Como a sociedade reage aos sem-teto

Apesar da pequena parcela que os moradores de rua e sem-teto representam na sociedade japonesa e, a grande maioria deles viver nessas condições existem pessoas que querem ajudar a minimizar o distanciamento entre elas.

Um grupo de apoio solidário criou uma página no Facebook para divulgar um pouco do trabalho que prestam frente aos moradores de rua que vivem em Nagoya, província de Aichi.

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Foto: Macos Sogabe

Conversamos com Marcos Sogabe, lutador de boxe atuando no Japão que participa há cerca de seis anos. Marcos disse que a assistência aos moradores de rua já acontece há mais de 20 anos e que o projeto é dirigido por um Centro Espírita Nec, mas a maioria dos voluntário não frequentam a instituição.

Segundo Marcos, a ação acontece duas vezes por mês, no segundo e quarto sábado. Eles distribuem comida, roupas, no inverno um kit inverno com touca, cachecol e kairo, e no verão um kit higiene com barbeador, toalha, escova de dentes. Quando recebem doações, eles também distribuem salgados, bolachas e sucos.

Devido à preocupação com o contagio do novo coronavírus, o grupo começou a distribuir kits com álcool em gel, máscaras de pano, sabonetes e detergentes.

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Grupo de Assistência Brasileiros Solidários de Nagoya no natal
Foto: Marcos Sogabe

Se você ficou curioso e quer participar como voluntário ou fazer alguma doação, entre em contato pela página no Facebook Brasileiros Solidários Japan.