Granja Canguiri: o campo de concentração de japoneses no Brasil

Granja Canguiri: o campo de concentração de japoneses no Brasil

Em meio a uma onda de preconceito disfarçado por conta do coronavírus, vale a pena conhecer o sofrimento recente infligido pelo Brasil a comunidade japonesa, nos idos da 2ª Guerra Mundial

Um triste e obscuro fato da história da Imigração Japonesa no Brasil ocorreu justamente no pior período para o Japão, durante a 2ª Guerra Mundial. Os japoneses começaram a desembarcar no Brasil em 1908, devido a restauração da Era Meiji, uma política de emigração levou milhares de famílias a diversas regiões das Américas.

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Propaganda japonesa da emigração para o Brasil

Mesmo antes do inicio da 2ª Guerra, os brasileiros consideravam os imigrantes asiáticos como sendo de uma “raça inferior”, recebendo-os com muito preconceito. Existia inclusive um termo racista usado neste período chamado de “perigo amarelo”.

Espalhados pelo Brasil, principalmente no interior dos estados, os japoneses foram força importante na economia agrícola do país, nunca vistos como iguais, mas não eram tratados como inimigos antes do conflito mundial.

A chegada dos japoneses no Paraná

“Existem registros de aventureiros que chegaram em terras paranaenses no início do século XX, em 1909, um ano depois do desembarque do Kasato-Maru em Santos”, como conta a historiadora da Universidade Estadual de Maringá Rosangela Kimura, em seu livro Políticas restritivas aos japoneses no Estado do Paraná.

“Mas a introdução de mão de obra nipônica de forma sistemática, iniciou-se no litoral em 1916, mais precisamente, em Barro Vermelho, zona rural de Antonina e a primeira colônia paranaense fundada por japoneses foi a Cacatu em 1917, que tinha 250 alqueires no vale do rio Cachoeira”.

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Vale do Gigante, região de Antonina no Paraná
Foto: Gazeta do Povo.

Mesmo com esse inicio promissor, “a implantação de imigrantes japoneses no Paraná, nunca foi consenso. Sofreu, desde sempre, muita resistência no meio político e foi alvo de acaloradas contendas na imprensa.

Uma das figuras paranaenses mais proeminentes no cenário político nacional, o senador Ubaldino do Amaral, já nos debates do senado sobre a conveniência ou não de se implantar mão de obra asiática no Brasil, posicionou-se contrariamente”, cita a historiadora.

A Granja do Canguiri

A Granja do Canguiri é a residência oficial do governo do estado brasileiro do Paraná, localizada no município de Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba e com acesso pela Estrada da Graciosa.

Construída entre as décadas de 1930 e 1940, a “granja” já serviu de alojamento para japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e integrou o que foi o Parque Castelo Branco, local projetado para eventos rurais.

Hoje, além de sediar a residência oficial, o local abriga também o Complexo Newton Freire Maia, formado pelo Parque da Ciência Newton Freire Maia, um espaço dedicado à divulgação científica e tecnológica, e por vários outros órgãos do governo.

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Parque da Ciência Ciência Newton Freire Maia
Foto: José Fernando Ogura/ANPr

A 2ª Guerra Mundial e a perseguição aos imigrantes das forças do “Eixo”

A história do encarceramento de nipo-americanos nos Estados Unidos é famosa, mas a do Brasil não é menos vergonhosa. Em 1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo (que era a coligação formada por Alemanha, Itália e Japão) cujos cidadãos passaram a ser considerados inimigos.

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Mesmo com a imagem datada em 1949, a Campanha de nacionalização foi iniciada em 1939,
com Getúlio Vargas. Com a entrada na 2ª Guerra, imigrantes que não falassem português podiam ser presos

“O governo brasileiro criou assim 31 campos de concentração, para onde mandava os cidadãos de países do Eixo, para se alinhar com as estratégias dos Aliados e dos EUA”, explica a pesquisadora Priscila Perazzo, autora do livro Prisioneiros da Guerra.

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Alguns estrangeiros foram mandados para presídios comuns – como os de Ilha Grande e Ilha das Flores (RJ). Mas a maioria foi para campos de concentração, organizados pelo Ministério da Justiça.

Haviam 10 prisões, incluindo prisões na Ilha Grande, Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, outras no estado de São Paulo, onde estavam concentrados a maioria dos imigrantes japoneses, e nos três estados do sul, onde os imigrantes italianos e alemães se instalaram.

“Os documentos diplomáticos da época mostravam que o governo brasileiro havia sido instruído pelos Estados Unidos para deter os cidadãos do Eixo e seguiu essas ordens. Foi apoiado pelo racismo, que já existia, aos imigrantes japoneses.”

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Pesquisadora Priscila Perazzo

“Consideramos agora que apenas 10 mil pessoas foram detidas, porque os principais assentamentos japoneses, como Bastos, estavam sob o controle estrito da polícia e perderam a liberdade de movimento. Era praticamente um campo de concentração”, segundo a professora.

O livro Ayumi – Caminhos percorridos, escrito pelo pesquisador Claudio Seto e a jornalista Maria Helena Uyeda, é até hoje um dos poucos registros dessa história, contada por uma senhora japonesa que viveu no Canguiri e narrou ao pesquisador, quando ele ainda era vivo, a situação precária enfrentada na granja.

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Ayumi – Caminhos percorridos

Essa etapa negra da historia do Brasil e do Paraná teve início em 1942, quando uma lei federal exigiu que todos os imigrantes que fizessem parte do Eixo fossem retirados da faixa litorânea e ficassem a pelo menos 100 quilômetros de distância do mar, por medida de segurança nacional. Havia o medo de que os japoneses pudessem fazer algum ataque no litoral ou conspirar contra o país, explica Maria Helena.

Em outro livro, Bushido – Caminho do Guerreiro Semeador, dos mesmos autores, o Exército brasileiro chegou com caminhões e transferiu as famílias da chácara Tozan para estações agrícolas experimentais do governo e muitas outras famílias foram para galpões da Granja do Canguiri, que mais parecia um campo de concentração.

Os adultos eram obrigados a trabalhar nas plantações e com galinhas. As crianças foram separadas dos pais, levadas para a Escola Agrícola Militar de Castro, sob pretexto de educá-las, medida essa que foi interpretada pelos japoneses como uma forma de evitar fugas do campo de internamento.

Além disso, para poder viajar, eles precisavam de um salva-conduto, mas mesmo quem tinha tal documento não conseguia se locomover, já que o salvo-conduto ficava guardado na administração da granja.

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O incentivo do governo ao preconceito

Não bastasse o aprisionamento e o trabalho forçado, os japoneses ainda tiveram que lidar com o preconceito. Foi criada pela Liga de Defesa Nacional a “Campanha da Borracha usada”, que também recolhia metal para ser reciclado pelas indústrias Norte Americanas.

Como prêmio um passeio na Granja do Canguiri e para demonstrar o poder do governo paranaense, semanalmente eram organizados passeios para estudantes premiados com a coleta, para ver a triste realidade vivida pelos imigrantes japoneses, que eram alojadas em galpões rurais com o mínimo de infraestrutura, e que anteriormente haviam sido ocupados por cavalos e bois.

Eles se divertiam fazendo gozações com os nipônicos e seus descendentes brasileiros. Invariavelmente os estudantes curitibanos, em atitude de chacota, ofereciam capim aos alojados com imitação de mugido, relincho e berro de bode, como escrevem os autores no livro.

Desse cenário preconceituoso, surgiu o apelido de “bode”, para designar japoneses em geral, que acabou virando moda em Curitiba. Os estudantes que faziam os passeios vangloriavam-se dizendo que “iam ver os bodes”.

A humilhação dos japoneses continuava

Está escrito na ficha de um dos japoneses presos pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops): “essas pessoas são incompreensíveis”, segundo o delegado. Isso resume o que os japoneses passaram no Brasil.

Só pelo fato de terem uma cultura totalmente diferente, diversos brasileiros tiveram dificuldades de compreender como os orientais pensavam e por que agiam de determinada forma.

“Além do campo de confinamento para um certo grupo de orientais, outros japoneses foram perseguidos pelas ruas de Curitiba e alguns tiveram suas lojas destruídas durante a Segunda Guerra e no período da campanha de nacionalização de Getú­lio Var­gas.

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Eles eram considerados uma raça que tinha características inferiorizantes – ao contrário dos alemães e italianos – porque a diferença maior estava marcada literalmente no rosto.

“Eram chamados de amarelos. O termo japonês é muito mais recente. E chegaram a ser conhecidos como ‘perigo amarelo’. O Brasil queria imigrantes para branquear a população, mas a miscigenação entre brasileiros e orientais não era bem vista”, explica a historiadora Elena Shizu­no, doutora pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em seu livro Os imigrantes japoneses durante a Segunda Guerra Mundial: bandeiras do oriente ou perigo amarelo.

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Durante a constituinte de 1934 houve também perseguições e restrições aos orientais. Foi aprovada uma cláusula que impunha cotas restritivas para a entrada de imigrantes japoneses no Brasil. Médicos eugenistas acreditavam que, se mais japoneses viessem ao país, a miscigenação “descontrolada” originaria um povo cada vez mais incapaz. “Foi diferente com os imigrantes brancos, como espanhóis, alemães e italianos. Essa mistura era considerada perfeita”, afirma Elena.

A contribuição dos imigrantes japoneses ao Brasil no pós-guerra

Mesmo com essa mancha obscura na história dos dois países, a participação dos imigrantes japoneses foi imensa para o Brasil, que saiu do século 20 sendo considerado o país que mais se desenvolveu naquele século, deixando de ser uma nação cujo território era pouco explorado no início de 1900, a uma potencia urbana e industrial nos anos 2000.

Por sua vez, os imigrantes japoneses exploraram regiões antes menosprezadas pelos brasileiros, criando cidades do litoral ao interior, utilizando suas técnicas mais avançadas no campo e na pesca.

Uma das maiores contribuições culturais veio no campo das artes plásticas, com a chegada de ceramistas, artistas plásticos, artesãos e fotógrafos, trazendo novidades para o Brasil nas concepções estéticas e que ajudaram a “compor e dar novo formato às artes plásticas do Brasil”, nas palavras de Antônio Henrique Bittencourt Cunha Bueno.

Os descendentes dos primeiros japoneses saíram da agricultura e hoje são parte integrante em todas as áreas de trabalho, inclusive no esporte e na política.

Nos anos de 1980, com a crise econômica brasileira, ocorre o movimento contrário e muitos brasileiros se aventuram em um Japão tecnológico e não menos desafiador.