A decadência de uma promessa

A decadência de uma promessa

A emissora de TV japonesa NHK mostrou o triste fim da vida de alguns brasileiros, que após quase 30 anos de dedicação e trabalho no Japão, sem perspectivas, morreram sozinhos

No ano em que a imigração brasileira ao Japão comemora seus 30 anos, a NHK apresentou uma reportagem expondo um problema “invisível” a sociedade japonesa: o que está acontecendo com alguns idosos dekasegi dessa primeira geração.

A imigração brasileira no Japão está comemorando 30 anos de vínculo entre os dois países. O Brasil desta época era um país que amargava uma recessão, após o fim da ditadura militar.

O Japão era um país que já começava a sofrer com a escassez de mão de obra e viu nos isei e nisei a solução para parte de seu problema. Com benefícios mútuos, os dois países davam esperança de uma vida melhor aos tão sofridos japoneses e seus descentes, que em um passado recente, sofreram perseguições e foram até levados a campos de concentração.

A reportagem da NHK mostrou dois casos, de brasileiros residentes em Aichi, que moravam em conjuntos habitacionais conhecidos como Danchi. Foram expostos na reportagem os casos de Alberto e de Fábio, dois brasileiros que estavam no Japão desde os anos 90.

Antes de prosseguir, é válido dizer que por mais absurdos que sejam os relatos, não são casos isolados, mas também não refletem o que ocorreu com a maioria dos dekasegi. Muitos continuam aqui no Japão e estão em condição bem diferente a esses casos.

O repórter da NHK mostrou como a vida de Alberto e Flávio ficou complicada após ambos chegar a casa dos 60 anos.

Alberto: da promessa a morte solitária

Com a emenda da Lei de Controle de Imigração em 1990, os cidadãos japoneses e suas famílias que viviam no Brasil, receberam qualificações para o reassentamento, e um verdadeiro boom de dekasegi ocorreu nesse período.

Alberto, de 64 anos, morava sozinho em um apartamento do conjunto habitacional. Ele veio ao Japão aos trinta anos de idade, largando sua profissão de contador no Brasil para ir trabalhar em uma fábrica de autopeças, com uma rotina de longas horas e tarefas pesadas.

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Alberto, 64 anos.
Foto: Reportagem da NHK

Alberto mudou-se com sua família, mas anos depois, sua esposa voltou ao Brasil, dando a luz a sua filha. Eles acabaram se divorciando e Alberto se manteve responsável pelo suporte da filha, enviando dinheiro para que ela pudesse ter educação de qualidade no Brasil.

Alberto continuava dizendo aos amigos no Japão que era casado, além de sempre demonstrar seu amor por sua filha, falando que ele ajudava em seus estudos e que mantinha contato com ela. Após o nascimento de seu neto, ele até cogitou voltar, mas ele já dizia que não poderia voltar.

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Foto do neto de Alberto
Foto: Reportagem da NHK

Sem dinheiro para voltar ao Brasil, cada vez mais distante do que um dia foi sua família, Alberto tinha diabetes e sentia cada vez mais debilitado. Aos 63 anos, a vida de Alberto mudou completamente. Após muitos anos de intenso trabalho, sua condição física se deteriorou muito e já não podia continuar realizando trabalho físico tão pesado.

Alberto largou o emprego na fábrica e perdeu a conexão com o local com todos. Segundo uma testemunha do conjunto habitacional, ele se isolou do convivo social.

Muitos relataram que Alberto apenas vagava pelo conjunto habitacional, as vezes conversa com os antigos colegas de fábrica, em outras ocasiões, apenas ficava sentado admirando o local.

O último contato com Alberto, foi de um funcionário de supermercado. Ele relatou que Alberto fez uma compra, dizendo ao funcionário que a diabetes estava piorando. Ao pagar, o homem estava tremendo muito. Mesmo assim, ele não pediu ajuda a ninguém.

Segundo a polícia, o corpo de Alberto foi encontrado três semanas após sua morte. Os vizinhos reclamaram do cheiro forte que vinha do seu apartamento. Alberto foi encontrado caído na sala. A polícia disse ainda que ele estava muito doente. Nove meses se passaram desde sua morte, mas a placa de identificação ainda estava na porta.

Sem parentes no Japão, não houve ninguém para ir ao seu enterro, relata um amigo. O corpo de Alberto está em um cemitério público.

Flávio: anos de trabalho duro reduzidos ao banco de uma praça

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Foto: Reportagem da NHK

Outra morte solitária ocorreu no mesmo complexo habitacional. O brasileiro Flávio morreu também com 60 anos. Depois de perder o trabalho, ela ficou desabrigado e foi vista frequentemente neste banco. Ele morreu bem ao lado deste banco.

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Foto: Reportagem da NHK

Flávio estava vivendo como sem-teto, após perder seu emprego e passou cinco anos em um canto do conjunto habitacional. Antes de morrer, ele foi entrevistado uma estação de TV do Brasil. Flávio disse na entrevista: “moro aqui todos os dias sem fazer nada. Apenas oro a Deus por um bom dia para mim.”

Yuko Kawaguchi, trabalha com apoio a estrangeiros, costumava conversar com Flávio neste complexo, enquanto eles tomavam café juntos. Kawaguchi aprendeu que, como a vida no Japão se prolonga, os laços com a família e com o país natal acabam rompidos e não há opção de voltar para casa.

Um dia, Kawaguchi perguntou ao Flávio, que parecia doente, mas ele não quis receber apoio, dizendo que não queria incomodar. Kawaguchi tentou convencer Flávio a ir ao hospital, mas ele apenas sorriu e disse: “Ok, não estou morrendo. Estou bem”.

Dois dias depois, Flávio foi encontrado morto, perto de um banco do conjunto habitacional. Dizem que o cartão de visita de Kawaguchi estava em suas mãos.

“Era uma noite muito fria, e era raro em Nagoya que a temperatura fique negativa, mas Flávio estava com roupas muito leves, parecia até suicídio. Ele morreu no parque, congelado. por que ele tinha que terminar assim?”, disse Kawaguchi. Flavio perdeu o emprego e sua perdeu casa. Com 60 anos, se é muito jovem para morrer no Japão.

Os trabalhadores estrangeiros estão envelhecendo, e agora?

A reportagem da NHK ficou bastante surpresa ao fazer uma pesquisa rápida no conjunto habitacional. Ao perguntar para cerca de 100 pessoas sobre o planejamento de voltar ao Brasil, cerca de 90% disse que iria passar apenas 5 anos no Japão, mas 60% disse que vivem no país a mais de 20 anos.

Em entrevista para a reportagem, Yuko Kawaguchi, representante da ONG [email protected]:

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Yuko Kawaguchi
Foto: Reportagem da NHK

“A aceitação do Japão a trabalhadores estrangeiros foi positiva antes de começar, mas posso dizer que muitos daqueles que aceitaram agora estão passando por uma crise. Faço atividades comunitárias há cerca de 20 anos e há muitos estrangeiros participam, mas alguns dos que estão sofrendo dizem: “eu sou um ser humano”. Algumas pessoas se suicidaram deixando um grito de “não faço parte”, enquanto outras morrem doentes. Mas quem pode ouvir esse grito? Acho que todo mundo precisa estar ciente de que vive em um ambiente em que pode ser ouvido”.

Outro convidado foi o Sr. Asa Matsumiya, Professor Associado da Universidade da Província de Aichi:

“Eu acho que o problema são as condições de trabalho, onde os trabalhadores estrangeiros são, em sua maioria, não regulares. Nesse sentido, é difícil construir uma conexão estável com a comunidade japonesa ao redor.

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Asa Matsumiya
Foto: Reportagem da NHK

Segundo uma pesquisa realizada com brasileiros que vivem na província de Aichi, 70% do emprego é irregular, 20% das pessoas não têm ou não conhecem o plano de saúde. E verificou-se que quase 50% das pessoas não pagavam ou não entendiam seus prêmios de pensão.

Eles dizem: não entendo completamente o sistema de seguro de saúde, o que é o sistema de pensões, o que é necessário pagar ou em que circunstâncias posso ser pago?”, relata o professor.

Como o Japão pode prevenir o isolamento dos estrangeiros?

A reportagem da NHK chegou a uma pergunta muito importante: como podemos impedir que estrangeiros sejam isolados?

As contra medidas começaram principalmente para os proprietários do complexo habitacional e o a senhora Kawaguchi.

Exame de saúde gratuito

Os moradores do complexo habitacional são abertos a qualquer pessoa, independentemente de nacionalidade ou idade. Kawaguchi espera aproveitar essas oportunidades para fortalecer os laços locais e criar um relacionamento em que japoneses e estrangeiros, para que ambos possam se ajudar.

O desafio do Japão de aceitar um número crescente de trabalhadores estrangeiros

A sociedade japonesa em que vivemos agora, só pode ser estabelecida com a ajuda de trabalhadores estrangeiros. O que você acha que é mais necessário ser feito agora?

O professor Matsumiya responde:

“Certificar-se de que você sabe para onde ir e onde encontrar as informações necessárias para vida diária. No momento, acho que isso está sendo implementado a nível nacional, mas existe um movimento para estabelecer um serviço de aconselhamento geral em municípios onde mais estrangeiros residem, onde possam responder a várias necessidades de uma só vez. É necessário conectar ainda mais os sistemas que podem participar da região enquanto conecta essas estruturas administrativas e regionais.

Na opinião de Kawaguchi:

“Os trabalhadores estrangeiros não são coisas, acho que temos que aceitá-los, considerando que a vida de uma pessoa está chegando ao Japão. Espero que o número de pessoas que pensem “estou feliz em morar no Japão” aumente”.

Os japoneses estão mesmo preocupados com os brasileiros?

Mesmo sendo hoje a quinta nação em números de imigrantes no Japão, diferentemente dos outros estrangeiros, os brasileiros tem muito mais ligação com os japoneses, uma vez que a maior comunidade se localiza no Brasil.

A crise brasileira já se arrasta desde 2016 e antes do coronavírus, o Japão voltou a ser atraente aos olhos dos descendentes. O país asiático vai continuar implementando esforços para conseguir mais mão de obra, mas precisa continuar investindo na qualidade de vida dos estrangeiros que já vivem no arquipélago.

Desde 2019, o ensino da língua japonesa aos imigrantes passou a ser responsabilidade do governo, mas esse ainda não apresentou nenhum esforço efetivo para que o número de falantes do idioma aumente.

Por outro lado, a nossa falta de interesse de aprender a língua e os costumes do Japão também enfraquecem a cobrança pela melhoria da qualidade de vida para nós, estrangeiros.