O garotinho de 5 anos e as lições que ainda não aprendemos

Essa é a história de um garotinho e também sobre filhos, pais, titios, titias e crianças especiais, que pode mudar nossa percepção sobre o que realmente significa educar para as próximas gerações

O garotinho de 5 anos e as lições que ainda não aprendemos

As Paralimpíadas de Tóquio terminaram, em um clima muito mais ameno do que quando começaram. O início foi bem tenso. Com o aumento assustador de infecções pelo Covid-19 e sua variante delta, a realização dos jogos estava sendo duramente criticada e até chegaram a cogitar um cancelamento. 

É lógico que isso não iria acontecer, mas ficará marcado para sempre na história do esporte mundial. Acabou ofuscando um pouco o brilho no começo, já que tradicionalmente, a mídia e o público não costumam valorizar tanto essa versão dos jogos, de atletas especiais com limitações físicas. 

Fico me perguntando o motivo disso acontecer. Não é atraente para os patrocinadores? Quem sabe uma análise mais profunda em uma próxima matéria. Mas de qualquer forma, conseguiu aquecer nossos corações, pelos esforços e dedicação desses seres humanos em superar seus próprios limites, dando-nos um exemplo e tanto. Heróis!

A história do garotinho de 5 anos na casa do primo especial

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Vou lhes contar uma pequena história um tanto quanto pertinente a esse assunto e que pode lançar luz sobre esse tema. 

Uma jovem mãe decidiu ir à casa de sua irmã e levar seu filho, um garotinho de 5 anos, para lá brincar e passar o tempo. Na casa da irmã em questão, uma jovem mãe casada, o garotinho iria se divertir bastante, pois iria encontrar lá vários brinquedos e videogames que pertencem ao seu primo, o filho da jovem mãe, um garoto especial já adolescente, com suas limitações e medos, mas que só quer carinho, atenção e brincar muito. 

O garotinho iria também encontrar o titio, pai de seu primo especial, que sempre faz o possível para divertir o pequeno infante, outrora muitas vezes sem poder brincar com outras crianças, pois não há crianças por perto na casa onde mora. 

As visitas do garotinho inteligente e muito esperto são constantes. São feitas durante anos, para falar a verdade, desde seu nascimento. Ele aprende coisas de forma bem rápida, como falar pequenas frases em outros idiomas, já que se trata de uma família multicultural e multilingue. 

Fala sobre os modelos de carros preferidos, os mais novos jogos eletrônicos e até o nome de artistas da TV. É uma verdadeira esponja, absorve tudo ao seu redor. Isso encanta a todos e devido a isso, recebe constantemente elogios e afagos. Quanto mais elogios, mais confiante ele fica, mais sorridente e mais pululante. O garotinho já é considerado um prodígio e além de tudo muito fofo. 

A mãe dele até criou perfis em redes sociais para mostrar a todos o quanto seu garotinho é esperto, sagaz e muito bonito. Toda vez que seu cabelo é cortado, muitas fotos são tiradas e comparadas com os cortes de cabelo dos atores de novelas e filmes. Certamente, esse garotinho é muito abençoado.

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A educação e o legado que queremos deixar – a história continua

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Muitas vezes, é fácil imaginar como sua educação desse garotinho está sendo bem sucedida, afinal, nessa fase da vida é crucial que seu caráter e personalidade sejam bem construídos. E os louros, sem dúvida, vai para os pais, que supostamente o ensina sobre valores da vida e sobre respeito. 

Porém, observa-se que o pequeno menino, sem o uso dos devidos freios, acaba tendo um comportamento mais exacerbado em vários momentos, não sendo notado e advertido no tempo certo e sendo rechaçado apenas caso ele cometa alguma peraltice que comprometa a limpeza e organização daquele lar. 

A mãe, tentando provar que está genuinamente preocupada com a algazarra do piá, aos gritos e berros, tenta impor algum respeito e credibilidade, porém, não obtendo muito sucesso em sua investida, desiste na primeira oportunidade. 

Enquanto isso, o menino prodígio usufrui de todas as benesses de estar ali, imune a tudo e a todos. Enquanto isso, o pai daquela casa, observando atônito, tenta entender o que ocorre ao seu redor, porém, sem muito sucesso. 

Decide então realizar uma atividade recreativa para relaxar, sendo qualquer coisa, ler um livro, tocar violão ou mesmo jogar vídeo game em seu recinto particular, um pouco mais afastado de toda aquela balbúrdia. 

Como que instantaneamente, o menino brilhante e genial já aos seus 5 anos, percebe essa movimentação de seu velho tio e em disparada, puxa uma cadeira para acompanhar de perto e quiçá, participar ativamente dessa tão gostosa diversão. 

O quarto é afastado e a porta está aberta e aquela cena, de uma família aparentemente tão cheia de alegria, se torna em evidência, como uma fotografia de uma paisagem calma e exuberante pendurada na melhor parede da casa. 

As vozes ecoam pelo corredor, o que torna impossível identificar o que se fala, apenas sons abafados e murmúrios. Nesse meio tempo, de forma discreta e silenciosa, lá estava o garoto especial, filho do titio, que resolveu se abster do tumulto, observando atentamente a movimentação e esperando o melhor momento para também querer impressionar os adultos, seu pai e sua mãe, mas dentro de suas limitações, nem sempre compreendidas, nem mesmo pelos membros de seu próprio corpo. 

Qual criança não tem esse anseio, de impressionar os adultos que ele ama? Ele estava ansioso para mostrar que também queria participar da brincadeira que o pai decidiu iniciar e se dirigiu até o recinto afastado, bem depois que o seu priminho de 5 anos, como sendo um garoto muito sagaz, percebeu tudo de forma rápida e correu logo em disparada. 

O singelo menino especial chegou a sentou junto ao colo de seu pai, afinal era seu pai, para ter uma visão mais privilegiada da diversão que ali ocorria. De forma inesperada e prestativa, o talentoso garotinho de 5 anos virou para seu velho tio e disparou, como uma flecha, a seguinte frase: “Quer que eu feche a porta para ele não entrar?”

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Ricardo Pozzuto

Ricardo Pozzuto, 43. Atuou em empresas no Brasil na área de engenharia de produção, foi ao Japão em busca de novos horizontes e lá está ha mais de 18 anos. Nunca estudou jornalismo mas adora escrever e contar tudo o que vive, sente e pensa sobre o Japão, Brasil e o mundo. É conhecido como Caipira no Japão, um cara que produz conteúdo para as pessoas que valorizam informação, crescimento pessoal de um ponto de vista nem sempre pragmático, mas se diverte muito fazendo isso. Gratidão sempre.

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