Cultura do cancelamento e sofrimento psíquico: o perigo para adolescentes e jovens no Japão

Cultura do cancelamento e sofrimento psíquico: o perigo para adolescentes e jovens no Japão

O cancelamento já é utilizado há anos por movimentos sociais para chamar a atenção para causas sociais e tentar promover mudanças, mas agora o foco é em pessoas

Nas últimas semanas, têm-se falado muito sobre cultura do cancelamento, no Brasil. O cancelamento não é uma prática nova, mas seus efeitos mais polêmicos ganharam o debate público este ano, com o caso do norte-americano Emmanuel Cafferty (47 anos), filho de imigrantes mexicanos.

Enquanto voltava do trabalho na caminhonete da empresa, com o braço esquerdo para fora e estalando os dedos, ele foi surpreendido por outro motorista que começou a buzinar e gritar. O motorista sacou o celular e fotografou Cafferty, que não fazia ideia do que estava acontecendo. Duas horas depois, seu chefe ligou avisando que ele estava suspenso, porque havia sido denunciado por racismo nas redes sociais. Cinco dias depois, ele foi demitido.

O motorista que fotografou Cafferty confundiu seu gesto de estalar os dedos com outro gesto específico, usado por movimentos supremacistas brancos. Há poucos dias, George Floyd, um homem negro e desarmado, fora brutalmente morto pela polícia em Minneapolis, levando a ondas imensas de protestos antirracistas nos EUA.

Com os nervos à flor da pele, sem pensar duas vezes, o motorista postou a foto em sua conta do Twitter, acusando Cafferty de racismo. Nas redes sociais, identificaram o logo da empresa que suspendeu e em seguida demitiu o funcionário. Em resumo, Cafferty foi cancelado.

Cultura do cancelamento e sofrimento psíquico: o perigo para adolescentes e jovens no Japão 1

Em agosto, no Brasil, a professora e antropóloga Lilia Schwarcz foi também cancelada depois de fazer críticas a um filme da cantora Beyoncé. Schwarcz escreveu no jornal Folha de São Paulo: “Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha”. Ela, que não é negra, foi duramente criticada por falar a uma mulher negra sobre “negritude”, acusada de racismo e cancelada. O cancelamento de Lilia Schwarcz reacendeu uma discussão importante sobre as consequências (muito) reais do cancelamento virtual.

Mas Afinal o que é “Cultura do Cancelamento”?

O cancelamento já é utilizado há anos por movimentos sociais para chamar a atenção para causas sociais e tentar promover mudanças. A ideia era pressionar marcas, empresas e políticos a tomarem atitudes em nome destas causas.

É uma prática que se inspira nos movimentos por direitos civis de negros, nos anos 1960, nos EUA: o boicote de empresas, restaurantes, lojas e concessões de transporte público era uma forma de pressão contra as leis de segregação racial norte-americanas. A ideia era atacar onde mais doía: no bolso dos empresários.

O movimento negro tinha pouco poder de pressão sobre os políticos, e pressionava empresas que, por sua vez, pressionariam os políticos a alterar a legislação racista. O cancelamento, segundo a professora Lisa Nakamura, da Universidade de Michigan, é um “boicote cultural”, e a prática tomou contornos muito maiores na internet, viralizando e atingindo um número de pessoas antes inimaginável.

Contudo, na chamada cultura do cancelamento, o “boicote” deixou de ser direcionado às empresas (restaurantes, ônibus) e de ter um objetivo mais definido (mudar a lei, por exemplo), para se voltar contra indivíduos em nome de bandeiras e valores mais gerais, como foi o caso de Emmanuel Cafferty e Lilia Schwarcz, e a pauta antirracista.

Continua sendo um boicote, no sentido de que é um movimento para não dar visibilidade a pessoas que vivem dessa atenção e não a mereceriam (pela violação moral que teriam cometido). Para muitos, o simples fato de você deixar de segui-los nas redes sociais, ou de consumir seus conteúdos digitais, já é uma forma de privá-los de sua principal fonte de renda. Além disso, pressiona-se empresas que contratam ou patrocinam a pessoa cancelada, para promover um desfinanciamento (defunding).

Foi o caso, há poucos meses, da influencer Gabriela Pugliesi, que foi cancelada depois de dar uma festa para amigos, durante a quarentena, perdendo patrocínios e parcerias após a repercussão negativa do caso. À medida que foi se individualizando, a cultura do cancelamento se tornou também uma espécie de justiçamento digital, uma tentativa de fazer justiça e combater a impunidade para atos, que determinados grupos consideram inaceitáveis.

A cultura do cancelamento se tornou uma reação contra violações inaceitáveis de certa moral e de identidades compartilhadas por indivíduos, justificada por valores auto-evidentes difusos (justiça, igualdade, respeito). Pode ser também uma reação intensamente narcísica e violenta, contra atos percebidos como um ataque à forma como esses indivíduos vêem e entendem o mundo. No fim das contas, é uma reação ao que eles percebem como um ataque pessoal. Complicado? Deixe-me explicar.

“Como assim, você não concorda comigo? Tá louco(a)?!?”

Para a psicanálise lacaniana (de forma bem simplificada), nós nos relacionamos com outras pessoas a partir de um engano ou ilusão: nós imaginamos que há uma correspondência entre o que nós falamos e o que a outra pessoa escuta e entende, apesar de certos “problemas de comunicação”.

Isto é, ainda que haja alguns mal-entendidos, acreditamos que nossa compreensão e visão sobre o mundo é a mesma das pessoas com as quais nos relacionamos. Este engano de que há uma simetria entre a forma como entendemos o mundo e a forma como os outros entendem, estabelece “relações imaginárias” de que todos vemos, compreendemos e falamos a mesma coisa.

Isso é tão fundamental para a gente, que quando percebemos este engano e não reconhecemos o mundo do outro, reagimos de forma agressiva ou mesmo violenta.

Quem nunca reagiu com irritação e surpresa quando escutou um(a) amigo(a) discordar sobre algo que nos parece óbvio, evidente, inegável? Quem nunca teve uma reação tipo “Como assim? Você tá louc(a)? É óbvio que (…)”. Se a outra pessoa for alguém que faz parte de nosso círculo de relações, e diz algo que contraria nossas verdades, nós nos sentimos verdadeiramente traídos.

Não conseguimos nos entender e nem lidar com a discordância na internet porque, na sociedade contemporânea, ser confrontado com o engano das “relações imaginárias” é sentido como uma inaceitável violência.

Como explica o sociólogo alemão Ulrich Beck, vivemos em uma sociedade radicalmente individualizada. À medida que cada indivíduo se percebe como o único responsável por seu sucesso e seu fracasso, e que não pode mais contar com (aquela) família (de antigamente), com o Governo, com a vizinhança etc., as identidades e experiências individuais se tornam nossa verdade mais importante: a verdade sobre o mundo não vem mais dos livros de história, da ciência, do jornal ou do Governo, mas de nossas identidades e experiências pessoais.

E quando nós estabelecemos relações imaginárias nesse contexto, a não-correspondência entre nossa visão de mundo e a visão de mundo do outro não é apenas uma ofensa ao nosso modo de viver, é um ataque à nossa própria vida, é vista como uma violência contra nossa própria existência. A forma como reagimos na internet, seja entre trolls, haters ou pela cultura do cancelamento é também um reflexo deste processo social de individualização subjetiva.

Cancelamento virtual, consequências reais: Sofrimento e Suicídio no Japão

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Resolvi escrever este texto depois de ler uma publicação no Twitter do ídolo da seleção de futebol japonesa, Keisuke Honda, no final de agosto: “Ultimamente não tem havido um monte de suicídios de celebridades?”. Isso me fez pensar no porquê deste fato, apontado por Honda, e acredito que entender por que e como as pessoas se comportam na internet, poderia ser importante para tentar prevenir eventos trágicos desta natureza e para repensarmos nosso comportamento.

Como já vimos, acredito que uma primeira resposta para o porquê e como nos comportamos na internet tem a ver com as “relações imaginárias” e a “individualização da sociedade”, como falei logo acima. Acredito que isso contribuiu para o que aconteceu com a celebridade japonesa Hana Kimura. Criou-se um consenso de que o suicídio de Hana foi resultado de cyberbullying. Acredito que entre as pessoas que atacaram Hana havia bullyings, haters e trolls, mas não eram a maioria.

Em nosso último texto vimos o que é o bullying, e o que aconteceu com Hana parece mais um cancelamento do que cyberbullying. Boa parte dos comentários odiosos que ela recebeu foram de pessoas decepcionadas e revoltadas com ela, pela forma como ela tratou outro participante do programa Terrace House.

Ao contrário dos espectadores, Hana não sabia que o colega de casa estava passando por diversos problemas e mostrando sinais de depressão. A atitude de Hana foi vista como insensível e agressiva; criticada e respondida de forma virulenta nas redes sociais. Na prática Hana foi cancelada e não suportou esta violência.

Temos que lembrar que Hana, como todos os adolescentes e jovens nascidos nos últimos 20 e poucos anos, são nativos digitais – isto é, eles nasceram, cresceram, foram sociabilizados, se relacionam e desenvolvem sua subjetividade intermediados pelas tecnologias digitais.

O cancelamento e as violências virtuais são sentidos como fatos profundamente reais e difíceis de suportar. As consequências são reais, não apenas porque atingem o mundo não-digital, mas porque para esses jovens o mundo virtual e o mundo real são uma e a mesma coisa.  É fundamental estar atento a isso porque o cancelamento não atinge apenas famosos e (sub) celebridades. Hoje, qualquer um pode ser vítima de ataques virtuais com consequências muito reais para sua vida, como vimos.

Para o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, os “cancelamentos digitais” são possíveis porque há um grupo amplo de pessoas unidas por um sentimento de pertencimento recíproco, “motivados pela percepção de que todos estão identificados entre si por algum aspecto essencial de sua própria persona social”, que estabelece uma dinâmica de nós contra eles, de insider e outsiders no sentido de Becker.

Em outras palavras, são indivíduos que partem de uma relação imaginária e acreditam compartilhar uma mesma verdade de mundo, que diz respeito às suas identidades e experiências pessoais. É justamente por esta relação ser imaginária, que a qualquer momento um dos insiders pode se tornar um outsider alvo do justiçamento digital.

Thiago Marques Leão é Bacharel em Direito, Mestre e Doutor em Saúde Pública pela USP. Atualmente é pesquisador de Pós-Doutorado da Faculdade de Saúde Pública da USP e residente na Província de Yamanashi-Japão, onde trabalha e estuda sobre Individualização, Mudanças Sociais e Saúde Mental, no Brasil e Japão.

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