A novidade das Olimpíadas do Japão de 2021 é poder assumir que ninguém tem Saúde Mental em um mundo de excessos

Atletas mostram que ir até o limite e assumir que não se está bem pode ainda ser um tabu, mas essa Olimpíada tem se tornado ótima para mudar tudo isso

A novidade das Olimpíadas do Japão de 2021 é poder assumir que ninguém tem Saúde Mental em um mundo de excessos

Parte da série Olimpíadas de Tóquio, em 51 posts

Naomi Osaka e Simone Biles são atletas olímpicas incríveis que trabalharam até seus limites físico-psíquico e, neste lugar, puderam dizer que não estavam bem e precisavam de um tempo. Isso se assemelha ao trabalho (inclusive no Japão)? Trabalhar até o limite e poder assumir que não se está bem pode ainda ser um tabu, mas as Olimpíadas abrem brecha.

Atletas, trabalhadores e Saúde Mental

Parece que essas Olimpíadas de Tóquio acontecem em meio a “antigas novidades”, mas não deixam de ser importantes para nós: a Saúde Mental tem se tornado cada vez mais a pauta dos jogos olímpicos.

Olimpíadas

Digo “antigas novidades” porque são questões antigas para nós, mas que aparecem com outra roupagem, na medida em que há possibilidade de reconhecer que não se está bem e que se precisa de um tempo nesse mundo que corre em movimento hiper acelerado.

Na história das Olimpíadas sempre nos deparamos com exemplos de superação, mas também de atletas que surgiam como predestinados a ganhar as medalhas de ouro, com foco excessivo das câmaras e uma imensa pressão mundial. Se alguns conseguiram de fato responder a essa demanda, parecendo exitosos no campo atlético, muitos outros não tiveram a mesma “sorte”.

A fala de Simone Bailes ilustra muito bem esse momento: “Eu não queria ir lá, fazer algo estúpido e me machucar. Sinto que muitos atletas se manifestando realmente me ajudou. É tão grande, são as Olimpíadas. No fim de tudo, não queremos sair carregados de lá em uma maca” (Uol, Simone Biles faz o que todas nós precisamos fazer: parar antes de quebrar, 28 de julho de 2021).

Se para alguns atletas é possível lidar com tudo que se espera dele em nível mundial, para outros isso pode ser esmagador, mas sabemos de uma coisa: ao responder integralmente a demanda do “outro”, sempre pagamos uma conta alta por deixar nosso desejo de lado.

Claro que as Olimpíadas são o centro do mundo quando acontecem e os atletas são a encarnação da conquista, perseverança, do “só depende de sua força de vontade” e, justamente por isso, essa manifestação é importante num mundo que prega que as pessoas são responsáveis sozinhas por seu sucesso (e seu fracasso).

Mesmo quando tentamos escancarar a precariedade que pode envolver um atleta das Olimpíadas o revestimos de um ar de conquista e mérito, quando falam da falta de investimento financeiro pelos governos, da falta de patrocínio, da dificuldade de treinar em lugares sucateados ou mesmo da difícil tarefa de dividir treinamento com um trabalho assalariado para poder se manter.

Assim como as outras profissões, os atletas e ex-atletas, incluindo muitos que não participaram das Olimpíadas, aparecem falando da necessidade de dirigir um carro para um aplicativo de caronas para poder pagar as contas no final do mês. A precariedade atingiu a todos, não importa as conquistas anteriores e as que podem vir.

Nossa sociedade nos faz funcionar de uma forma bizarramente cruel, quando ouvimos os atletas das Olimpíadas falando de tantas dificuldades reagimos da seguinte forma: “quem tem força de vontade tem tudo”, “estavam certos, só depende de você.”

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Nessas frases, que parecem banais, está o cerne de toda nossa economia e desamparo da população, essa realidade que acreditamos serve para sustentar uma dinâmica econômica que coloca milhares de pessoas em lugares extremamente precários e ainda são culpabilizadas por isso.

No entanto, aqueles vistos como invencíveis podem dizer agora que são seres humanos e que sofrem também. Podem dizer o quanto há de absurdo nessas exigências e que nada é por acaso. Não se trata de superação como palco para a sociedade, como exemplo que embasa nossa alienação e obediência.

O sofrimento é uma experiência humana universal, poderíamos até mesmo dizer que pode nos unir e criar laços, no entanto, temos vivido como se o sofrimento fosse algo alienígena que nos atinge e que não deveríamos senti-lo. Nossa procura por uma saída tem sido dopar-nos.

Quando os atletas das Olimpíadas desistem de uma competição, no auge de suas carreiras (como vemos de fora), isso abre questionamentos e espaço para nos perguntarmos sobre nós mesmos. Não estaríamos vivendo a mesma situação em alguns aspectos particulares.

Idealização e felicidade

Naomi Osaka e Simone Bailes são exemplos de duas atletas das Olimpíadas idealizadas, que servem de modelo mundial de dedicação e sucesso, justamente o que o mundo inteiro prioriza quando pensa em felicidade.

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Pergunte para alguém como definir a felicidade e falarão de realizações ligadas a esse modelo idealizado: uma carreira de sucesso, reconhecimento, dinheiro e, claro, superação.

No entanto, o que as duas mostram agora é que mesmo atingindo o mais alto grau de “sucesso” podemos não ser felizes e mais, podemos estar em sofrimento psíquico. Isso só faz escancarar o quanto vivemos, de forma geral, em uma ideologia que está marcadamente interligada ao sistema econômico: tenha sucesso e seja feliz.

Saímos do marco “trabalhe para ter dinheiro e tenha uma vida digna”, sabendo que quem ganha realmente com isso são os donos das empresas, para “trabalhe ao extremo para ser feliz”, fomos cooptados intimamente para gerar bônus ao sistema econômico. Claro que trabalhar nessas condições de limite não tem nada a ver com nossa felicidade.

Rendimento, performance, aprimoramento de si e outras bobagens neoliberais

Vivemos em tempos em que as pessoas precisam dar tudo de si, como acontece com os atletas nas Olimpíadas e quando digo “tudo” não é só uma forma de expressão, estamos falando literalmente de nossas vidas.

Quando assumimos uma profissão, quando conseguimos um trabalho numa empresa “tudo” nos é exigido. Tenha hora para entrar e não tenha hora para sair, pois a empresa depende de você, nos dias de folga vá a eventos da empresa e leve sua “família perfeita” para mostrar o quanto a empresa te traz felicidade, não tenha limites na sua dedicação, priorize sempre a empresa, é tudo isso que nos é pedido.

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No caso das fábricas do Japão o lema é trabalhe, trabalhe e trabalhe, não recuse horas extras e nos dias de folga, faça um arubaito (como se fossemos atletas rumando para uma Olimpíada que nunca chega).

Mas e se algo em nós mesmo começar a nos avisar que isso não é possível? Então procure um médico para que lhe receite vitaminas para ter mais a oferecer, se não der certo procure um psiquiatra para que possa te inserir no limite mais absurdo dessa junção da medicina com o capitalismo: o aprimoramento de si.

Caso nunca tenha ouvido falar disso, explicamos: é o uso de remédios psiquiátricos em pessoas que não tem nenhuma patologia, mas precisam ser melhores do que elas são.

Ou seja, se você não consegue trabalhar a quantidade de horas que todos os seus colegas medicalizados conseguem ou se está com dificuldades para se concentrar porque já está no seu limite, uma ritalina pode te oferecer a concentração necessária para que você se auto explore na medida certa e exigida pela empresa.

O que tudo isso vem nos mostrar é que nossa sociedade exige dos seres humanos muito mais do que somos capazes. Se a medicação pode te fazer adequado para essa sociedade, em breve o estrago aparecerá.

“Eu não confio mais tanto em mim mesma. Talvez seja o fato de estar ficando mais velha. Não somos apenas atletas. Somos pessoas, afinal de contas, e às vezes é preciso dar um passo atrás” (Simone Bailes, Uol, 28 de julho de 2021).

Quando nosso corpo nos avisa de que algo não vai bem, é hora de recuar, de dar um passo atrás, justamente o que Naomi Osaka e Simone Bailes fizeram no auge da carreira, durante as Olimpíadas, mostrando que a exigência olímpica é também a exigência que vivemos no dia-a-dia, embora não tenhamos reconhecimento e nem dinheiro como elas.

O feito das duas foi trazer à tona a humanidade que nos resta em uma sociedade que exige que nos transformemos em algo não humano.

Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

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