Por que a comunidade brasileira permanece nas fábricas japonesas? Há alternativa no século 21?

A comunidade brasileira no Japão está em sua maioria empregada nas fábricas, diferente de outras culturas que migram para outros tipos de trabalho, desde o começo da imigração esse foi o lugar reservado aos brasileiros que não conseguiram se desvencilhar dele.

Por que a comunidade brasileira permanece nas fábricas japonesas? Há alternativa no século 21?

A comunidade brasileira no Japão está em sua maioria empregada nas fábricas, diferente de outras culturas que migram para outros tipos de trabalho, desde o começo da imigração esse foi o lugar reservado aos brasileiros que não conseguiram se desvencilhar dele.

Quando a imigração dos brasileiros foi iniciada de forma massiva na década de 1990 já havia um lugar bem definido para os nikkey latino-americanos: o trabalho que o japonês dispensava, sujo, pesado e exigente. Passados mais de 30 anos do início dessa imigração o lugar do brasileiro, de forma geral, continua sendo a fábrica e com pouquíssimas conquistas para melhorar as condições de vida.

Várias são as razões que fazem com que os brasileiros permaneçam nas fábricas e que sejam reconhecidos como essa mão de obra barata, inclusive uma delas é a percepção do brasileiro de que sua renda não é baixa, no entanto, algumas considerações precisam ser feitas.

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O comércio de mão de obra

O Brasil é conhecido como um país da periferia do capitalismo, com muita instabilidade econômica, qualquer pessoa adulta pode relatar as marcas dessa economia turbulenta em lembranças mais antigas e mesmo no momento atual. A forma que o brasileiro encontrou para viver muitas vezes é baseada em trabalhos temporários e com a ajuda da família, quantas famílias que contam com a apoio financeiro de um idoso aposentado para chegar até o final do mês você já conheceu?

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Desde que os governos japonês e brasileiro estabeleceram as facilidades para importação/exportação de mão de obra nikkey, essa tem sido uma saída nos momentos de instabilidade econômica mais graves. Isso contribuiu para um grande mercado de mão de obra de descendentes de japoneses, são várias as agências de trabalho/viagem que oferecem pacotes fechados que incluem emprego nas fábricas japonesas, vistos e documentos para a imigração, passagem aérea e financiamentos para possibilitar sua mudança de país. Se em algum momento de crise econômica brasileira em estado de não pandemia você já passou pelo bairro da Liberdade em São Paulo, com certeza pode verificar do que se trata: dezenas de pessoas entregando panfletos e perguntando se você está procurando emprego no Japão.

Neste mercado de trabalho, cada sujeito é um produto a ser comercializado e muito dinheiro está envolvido. No passar dos anos cada vez mais as agências encontraram formas de lucrar em cima do trabalhador, mas o salário só foi diminuindo. Além dos valores absurdos com a documentação, que cada vez aumenta em quantidade de papeis e documentos improváveis, também são diversas taxas cobradas pelas agências e empreiteiras, inclusive a taxa de colocação na fábrica, uma das mais absurdas e que beira a ilegalidade, mas que também é a taxa que escancara o quanto somos tratados como produtos.

Na intenção de escapar de uma vida de privação econômica, o trabalhador nikkey brasileiro chega ao Japão bastante endividado, o que dificulta enormemente seu deslocamento no mundo do trabalho e sua busca por empregos melhores. Às agências e empreiteiras estão vinculados o apartamento, o transporte, a assessoria para levar à prefeitura e ao médico, além da tradução japonês-português.

Diante de uma cultura tão diferente, de uma língua de difícil apreensão as pessoas se tornam reféns dos serviços prestados e da dívida contraída.

A provisoriedade

Via de regra, a intenção dos brasileiros é por uma estadia curta no Japão, somente para levantar recursos financeiros e retornar ao Brasil: essa é por excelência a definição do termo dekasegi, bastante pejorativo para os japoneses, mas banalizado na comunidade brasileira. Os planos iniciais raramente coincidem com a realidade e o que seria 2 ou 3 anos pode se estender numa estadia permanente, mas que sempre tem a característica da provisoriedade.

Isso significa dizer que diante da perspectiva do retorno programado ao Brasil não nos damos tempo para apreender a cultura, e em alguns casos até a recusamos, não aprendemos a língua, não nos qualificamos para um emprego melhor, não procuramos um estilo de vida que possibilite nossa vida no país, mas nos colocamos à disposição da exploração desenfreada para juntar dinheiro. É assim que aceitamos os piores trabalhos e ficamos neles: nikotai, horas extras obrigatórias (apesar de ilegal), trabalho nos finais de semana e assim por diante.

Desigualdades sociais do Brasil também se revelam no Japão

O trabalhador brasileiro chega com a marca do terceiro mundo em sua identidade. Embora, seja comum perceber o preconceito dos brasileiros com os demais povos da Ásia, como filipinos ou chineses, nós também somos considerados a “carne mais barata do mercado” no Japão, assim como no Brasil esse lugar está reservado para a população periférica e negra.

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Por esse motivo nossa entrada no país está atrelada ao trabalho precário. Outros povos, como os europeus ou norte-americanos (EUA e Canadá), entram no país pela via da profissão qualificada e não precisam de descendência para isso, o que acaba por desbancar nosso suposto lugar privilegiado de descendentes de japoneses.

O fato é que nos países desenvolvidos há diversos intercâmbios de estudo e trabalho possíveis, além de ser comum que pessoas que ocupem bons cargos no Japão atualmente, sendo estrangeiros, começaram a pensar suas carreiras ainda na adolescência a partir de um intercâmbio cultural no Japão, financiado pelos governos locais de seus países. Têm acesso à educação de boa qualidade, possibilidade de aprender a língua japonesa na escola convencional, garantia de uma vaga de trabalho digna a partir do convênio desses países marcam as histórias dos estrangeiros bem quistos no Japão.

Para os estrangeiros de países de terceiro mundo, independente se da América-Latina ou Ásia, está reservado um determinado tipo de emprego, diferente dos estrangeiros dos países desenvolvidos.

Outras possibilidades

Para se conseguir outras oportunidades além da fábrica no Japão é preciso qualificação, no entanto, é importante saber que a qualificação que se tem no Brasil vale no Japão. Você pode trabalhar naquilo que se formou ou pode conseguir um emprego melhor por conta de sua formação, ainda que não trabalhe diretamente no campo que se formou. Este é um ponto muito importante, que muitos brasileiros desconhecem.

Porém, é necessária uma língua para se comunicar, uma vez que o português não é uma língua que o mundo faça questão de conhecer. Então, é preciso se dedicar ao aprendizado da língua japonesa sim, mas em alguns casos o inglês é o suficiente para conseguir outro trabalho.

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Talvez esse seja o ponto mais importante: romper a barreira da língua pode te trazer muitas oportunidades, por mais que sua intenção seja de um trabalho temporário, procure reservar algumas horas na semana para aprender japonês e/ou inglês.

Embora a grande maioria dos brasileiros cheguem no Japão a partir das fábricas, também temos muitos exemplos de conterrâneos que trabalham fora dela e isso pode nos servir para dizer que isso é possível, apesar de todas as dificuldades.

O desafio inicial é o de quebrar o ciclo: trabalho bastante porque é temporário – por isso não tenho tempo de estudar – por isso não consigo um emprego melhor – por isso não saio da fábrica. O que era temporário torna-se permanente em um emprego que não admite vida fora da exploração fabril e isso tem um limite muito claro, o da finitude do sujeito.

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Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

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