Você trabalha em regime Nikotai? Saiba o que a troca de turnos pode provocar em você

O regime nikotai é um regime de trabalho muito comum no Japão, entre os brasileiros. Financeiramente pode ser vantajoso mas, como esse ritmo de trabalho nos afeta?

Você trabalha em regime Nikotai? Saiba o que a troca de turnos pode provocar em você

O regime nikotai é um regime de trabalho muito comum no Japão, entre os brasileiros, é o revezamento de turnos, trocado de semana a semana, uma trabalhando de dia e outra trabalhando à noite. Muitas pessoas pensam que financeiramente pode ser vantajoso, mas se pensarmos mais integralmente, como esse ritmo de trabalho nos afeta?

Nikotai
Foto: Anthony Tran – Unsplash

Nikotai – vantagens

Quem trabalha durante a noite no Japão tem como acréscimo no salário, o adicional noturno por hora, o que pode parecer bastante vantajoso no final do mês. Tirando o fato de que há pessoas que tem mais facilidade para ficar acordadas à noite, aqui vamos conversar um pouco sobre a mudança constante entre dia e noite, que muitas pessoas fazem durante anos por conta do trabalho em regime nikotai.

Nikotai – o que acontece no seu corpo

Pra isso, gostaria de introduzir um conceito importante, trata-se do Ciclo Circadiano. Este ciclo está vinculado ao período de 24 horas do dia e nosso ritmo interno, como fome, batimentos cardíacos, metabolismo, vigília, sono e etc. Ele está intimamente ligado com a luz do sol e o cair da noite. Também podemos dizer que o ciclo circadiano é o parâmetro para regular nosso “relógio biológico”. Mas o que pode acontecer quando esse relógio precisa ser invertido semana após semana? Ficando constantemente de ponta cabeça.

Há pessoas que se sentem mais dispostas durante o dia e pessoas que são mais noturnas, há diferentes características entre nós, claro. Isso é definido pelos nossos hábitos desde a infância e a forma como funcionamos como um todo, “mentecorpo” como um contínuo sem divisão. Se nossa história se liga à fantasia dos boêmios, poetas, artistas pode ser que nos identificamos mais com a noite, mas também podemos estar mais ligados à história de que “Deus ajuda quem cedo madruga”.  Nesse sentido, no momento em que estamos mais despertos nosso corpo trabalha muito mais, liberando hormônios, sincronizando os sistemas internos regido pelo nosso grande maestro: o sistema endocanabinoide.

O sistema endocanabinoide tem o papel de regular todos os nossos sistemas, ele é composto por receptores espalhados por todo o corpo, como por exemplo uma grande concentração no cérebro, sistema imunológico, intestinos, coração, rins. Em outras palavras, o sistema endocanabinoide integra e sincroniza o ser humano, o que possibilita que possamos funcionar como sujeitos, passando do organismo para o sujeito do inconsciente.

Nikotai – desvantagens

Quando desregulamos esse sistema por força do trabalho em regime nikotai, ou seja, algo constante, não estamos apenas desregulando nosso sono, mas estamos como um todo saindo do ritmo. Significa dizer que tudo que te faz ser o que você é começa a ser desorganizado, isso inclui sono, processos fisiológicos, a integração dos sistemas internos e a nossa própria percepção de nós mesmos.

De forma concreta, trocar dia e noite semana após semana trará uma chance muito grande de termos problemas sérios de saúde/saúde mental. Problemas metabólicos (incluindo desde perda de apetite ao excesso de fome, mas também diabetes, por exemplo), problemas cardíacos, problemas com fertilidade para homens e mulheres, problemas com ciclo menstrual para mulheres, problemas renais, sistemas internos sobrecarregados aumentando a chance de algum problema agudo surgir, como dores, inflamações, apendicite. Por outro lado, também aumenta a chance de inflamações no corpo, uma vez que é durante o sono que conseguimos nos recuperar do dia-a-dia e passar por um processo de desintoxicação, dessa forma temos mais propensão ao aparecimento de doenças crônicas ligadas à inflamação, que podem se manifestar como dores articulares, inflamações em órgãos internos e até problemas mais sérios como problemas no coração, câncer, Parkinson e Alzheimer.


Leia também: Funcionários do governo japonês são punidos por saírem do trabalho dois minutos mais cedo


Dessa forma, geramos em nosso corpo um processo de desequilíbrio que se acumula como uma bola de neve, o que por sua vez afeta nosso sono, nosso humor, e gera um estranhamento, acabamos por não nos reconhecer. Esse processo de não reconhecimento de si é bastante importante de ser falado, pois está bastante ligado ao trabalho nas fábricas, com seu modo de organização compartimentado. O estranhamento entre os trabalhadores e dele com ele mesmo é o que o processo de organização do trabalho produz por excelência.

Então atenção: o trabalho organizado em fábricas ou em outros locais, baseados na pressão do trabalhador, a troca de turnos semanais (nikotai) e nosso modo de vida contemporâneo funcionam como potencializadores para que algo se desagregue. E o sofrimento psíquico é algo que surge desse processo. Para cada pessoa aparece de forma diferente, para alguns como depressão, para outros como ansiedade, ataque do pânico, despersonalização, alternância de momentos de agitação e de desânimo, entre tantos outros sintomas.

Pensar que o sofrimento que passamos cotidianamente é somente uma questão cerebral e um desequilíbrio hormonal é simplificar bastante nossa própria complexidade: nossa vida, nosso trabalho, nossos fracassos, nossas repetições, nossos sintomas fazem parte de nós, no momento em que o sofrimento psíquico aparece tudo isso está em jogo.

Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

Deixe uma resposta

Leia mais posts relacionados