Por mais judô no mundo, por favor

Se você pensa que o Judô é apenas um estilo de luta, precisa entender o exemplo que esta campeã nos deu

Por mais judô no mundo, por favor

A judoca japonesa Sarah Asahina, 24, campeã no último Mundial de Judô da Hungria, emocionou a plateia e o mundo, após a vencer luta que lhe rendeu o ouro.

O que ela fez? Carregou para fora do tatame sua rival, a também japonesa Wakaba Tomita, que lesionada, não conseguia caminhar.

Aliás, devido à essa lesão, Tomita não conseguiu terminar a luta e foi desclassificada. Automaticamente o ouro foi para Asahina.

Tenho que admitir que foi uma cena rara de se ver, não que seja algo espetacular o fato de uma esportista estender a mão para ajudar sua rival, mas sim por acontecer em uma final e logo no começo.

Para muitos, a cereja do bolo foi o fato da forte vencedora carregar sua oponente para fora do tatame.

Prova disso foi a reação viral de grande proporção nas redes sociais.

O vídeo que eu postei em minha página já contava com mais 47 mil curtidas, 6500 compartilhamentos e 550 mil visualizações.

judô

Confesso que quando postei esse vídeo não esperava tamanha reação. Parei um pouco para analisar qual seria o motivo disso.

Muitos dos perfis que compartilharam o vídeo continham uma descrição peculiar, algo sobre honra e respeito.

Concordo, com certeza foram belas virtudes demonstradas pela jovem lutadora de judô. Mas uma coisa me chamou mais a atenção.

Judô é muito mais que uma luta

Assim que o juiz determinou o final da luta por desistência de Tomita, Asahina não demonstrou nenhuma emoção de felicidade, satisfação, alegria ou coisa do tipo, quiçá um sorriso.

Ela tinha acabado de ganhar a medalha de ouro, um sonho distante para a maioria dos mortais, mas sua feição fechada era de preocupação, e tão logo luta terminou, ela foi direto para sua rival oferecer ajuda.

Percebendo a impossibilidade de Tomita sair por conta própria, a campeã a carrega para fora, a fim de receber atendimento médico.

Nem um sorriso, nem uma comemoração e nem depois que recebeu a medalha no pódio. Nada!

“Saber cada dia um pouco mais e usá-lo todos os dias para o bem, esse é o caminho dos verdadeiros judocas”, já dizia o pai do judô, o japonês Jigoro Kano.

Asahina conseguiu em pouco tempo conquistar sua segunda medalha de ouro em mundiais e colocar em prática toda a essência dessa arte marcial tão filosófica.

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Prova disso, foi o fato dela sequer sorrir após a confirmação da vitória. Para ela, havia algo muito maior envolvido, havia muito mais em jogo do que aquele obter posse daquele objeto redondo e dourado.

Sua recompensa veio na forma de uma oportunidade para estender a mão, mais que isso, de carregar sua companheira de esporte nas costas.

O judô que inspira

Isso me fez refletir sobre quantas vezes a vida me agraciou com a oportunidade de ajudar alguém ou ser ajudado e quantas vezes eu realmente estendi minha mão ou mesmo carreguei essa pessoa nos ombros ou mesmo agradeci, quando assim o fizeram pra mim.

Se o fiz, quantas vezes o fiz sem querer colher os louros e sem querer holofotes e ostentação em tempos de redes sociais, onde se observa um verdadeiro mar de vaidades e narcisismo, onde se observa sorrisos e comemorações pelos revezes alheios.

Em tempos de pandemia, multiplique isso por mil. Logo, uma lembrança dolorosa veio à minha mente, quando um grupo de crianças estavam caçoando do meu filho, por ele ser especial.

É estranho dizer isso, mas sou grato pelo fato do meu filho não ter entendido o que realmente se passava e depois de tudo, olhar sorrindo pra mim apenas imaginando que era uma brincadeira divertida e diferente. E ele só não entendeu por ser especial.

Por fim, sou grato por ele ser o que ele é, apenas isso. “Em tudo dai graças”, já dizia as escrituras.

Após dar um esporro monstruoso nos infantes sem noção, peguei meu filho que havia caído e o carreguei nos ombros.

Em seguida uma garotinha de uns 4 anos de idade puxou minha camisa por trás, como quem estava querendo chamar minha atenção, estendeu a mão com um olhar ansioso e ao mesmo tempo singelo, um pouco assustada, e entregou o boné do meu filho que havia caído e eu não tinha percebido.

Peguei o boné e saí de lá, sem mesmo dizer obrigado para aquela garotinha. Não me perdoo por isso até hoje. Só de pensar, fico com vontade de chorar.

Preciso me policiar e garantir que isso não aconteça de novo. Vejo que muitos estão perdendo a noção da realidade e a internet está ajudando a construir realidades paralelas criadas ao redor de perfis de mídias sociais.

Esses dias, postei uma matéria do site Todo Dia, sobre um aumento colossal do uso da internet no Japão durante a pandemia e me perguntei, o que seria de nós sem a rede?

Por mais pessoas como Sarah Asahina no mundo, por favor. Por mais judô no mundo, por favor. O mundo agradece e a rede também. Gratidão sempre!