Ansiedade no Japão: por que faço tratamento, mas não estou curado?

A ansiedade é uma queixa muito comum de sofrimento psíquico em todo o mundo. No entanto, podemos considerar algumas peculiaridades regionais quanto aos sintomas e quanto ao tratamento e as particularidades da ansiedade no Japão não são animadoras

Ansiedade no Japão: por que faço tratamento, mas não estou curado?

A ansiedade é uma queixa muito comum de sofrimento psíquico em todo o mundo. No entanto, podemos considerar algumas peculiaridades regionais quanto aos sintomas, ao tratamento e às particularidades da ansiedade no Japão que não são animadoras.

Talvez a ansiedade seja uma das queixas mais comuns entre os brasileiros que moram e trabalham no Japão. Se fizermos uma busca rápida no Google veremos uma infinidade de reportagens e páginas dedicadas ao assunto, no entanto, todas tem em comum uma visão bastante limitada sobre o fenômeno.

Vivemos no século que colocou o cérebro como resposta para todo o sofrimento, retirando nossa experiência de vida como algo que pode nos afetar, temos a concepção de ser humano apolítico e asséptico, ou seja, não importa pelo que passamos, não importa todas as dificuldades que enfrentamos, isso não tem nada a ver com nosso sofrimento. Longe de ser algo que produzimos para nos enganarmos, esse é o discurso da ciência da mente e, principalmente, dos laboratórios farmacêuticos que tem nos levado à ruina.

Você tem ou já teve ansiedade? Se procurou um médico, provavelmente ele te receitou um remédio.

O tratamento para ansiedade

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O tratamento padrão para ansiedade é baseado em medicações psiquiátricas e a classe de remédios mais receitados são as benzodiazepinas. Isso pode não dizer nada para quem vai ao médico e não foi alertado sobre essas medicações, algo muito comum aqui no Japão. Via de regra, o médico não explica nada sobre os possíveis efeitos desses remédios, por isso a importância de falarmos sobre eles.

As benzodiazepinas surgiram no mundo com a propaganda de que eram remédios “leves” que não provocavam vício, além disso, eram tidas como pílulas mágicas direcionadas principalmente para mulheres. Na década de 1960 passou a ser um verdadeiro sucesso de vendas, começando pelos Estados Unidos, mas foi aí também que se começaram a perceber que não era um remédio inofensivo, muito menos uma pílula mágica.

Na mesma década em que as benzodiazepinas se tornaram um sucesso de vendas e fez a felicidade dos laboratórios farmacêuticos, os relatos de piora dos quadros de sofrimento psíquico e aumento da admissão em hospitais psiquiátricos ficou bastante evidente nos EUA.

Depois de alguns anos os próprios médicos começaram a perceber que os remédios receitados provocavam vício e pioravam os próprios sintomas de ansiedade. Começava a crítica aos medicamentos que passaram de inofensivos para intensificador de sofrimento.

Contudo, a indústria farmacêutica soube usar de seu poder e seu marketing e embora hoje seja bastante sabido dos problemas que essas medicações causam nas pessoas, ano após ano elas continuam sendo muito vendidas no mundo inteiro, a ponto de pensarmos que são a única opção para quem relata sintomas de ansiedade, mas aqui vai um alerta: tratar a ansiedade somente com remédio é uma das piores estratégias que temos notícia em Saúde Mental.

Sintomas de Abstinência

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Já está mais que claro que as benzodiazepinas não foram feitas para uso contínuo, elas não são como insulina para os diabéticos, muito pelo contrário. Seu uso é feito de forma “adequada” em curtos períodos ou em momentos pontuais, ou seja, se você está tão ansioso que não consegue fazer as coisas do dia a dia como trabalhar, estudar, dormir, conviver socialmente, etc, essas medicações te trarão um alívio importante para que você possa iniciar um tratamento, uma vez que as medicações psiquiátricas não tratam, mas aliviam sintomas.

O uso dos benzodiazepínicos não deve ser maior que alguns meses (entre 4 e 6 meses), pois os benefícios do remédio se restringem a este período, depois disso ele perde seu efeito e aumenta o vício. Então, esses meses do uso do remédio é o período que você terá para buscar alternativas de tratamento.

Quanto mais tempo usando a medicação maiores as chances de desenvolver um vício intenso e de piorar a própria ansiedade. A retirada da medicação deve ser feita de forma lenta, acompanhada por um profissional de saúde.

Algumas pessoas que fizeram o uso por muitos anos ou que tentaram parar de uma hora para outra, relatam insônia terrível, ansiedade mais aguda, tremores, dores de cabeça, irritação enlouquecedora, epilepsia, prejuízo psicomotor e cognitivo, amnésia, problemas no sistema autônomo, depressão, má qualidade de vida pessoal, falta de controle interno, saúde precária e altos níveis de estresse.

Claro que todos esses sintomas estão incluídos em casos graves de abstinência, mas o que poucos sabem é que no mundo, e isso inclui tanto o Brasil quanto o Japão, milhares de pessoas fazem uso dessas medicações por décadas sem nunca serem alertadas sobre seus efeitos de piora da saúde. Aqui no Japão é bastante comum os médicos receitarem esses remédios e não falarem nada para os pacientes, que continuam tomando a medicação sem nunca ser mencionado um plano de retirada.

A situação é tão séria no Japão que existe um caso famoso de um homem neozelandês que abriu um processo jurídico por ter sido medicado com benzodiazepínicos, para um quadro de tontura sem ser informado disso, e passou por situações nunca imaginadas por ele pelo efeito do remédio. Você pode conhecer o caso nesse link, que evidencia o quanto o uso de benzodiazepínicos é banalizado no país.

Alternativas

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Estamos tão moldados ao saber médico como única alternativa que dificilmente pensamos que o próprio “tratamento” pode ser um problema. Porém, hoje já sabemos que a psiquiatria cria problemas novos e o vício em benzodiazepínicos é um problema grave criado por essa área da medicina. Depois de uma década tomando remédios que só servem para alguns meses, o problema da pessoa se transforma em outro: o vício. Para remediar essa questão deveríamos considerar formas de tratamento do vício, um dos piores que existem entre drogas legais e ilegais.

Há uma grande lista de benzodiazepínicos que você pode consultar nesse link aqui. Caso você esteja tomando algum desses remédios e seu médico nunca conversou com você sobre os perigos do uso por longo prazo ou se ele nunca mencionou um plano de retirada, recomendamos que você volte ao médico e converse com ele, ou talvez, mude de médico. Mas, algo muito importante de se fazer é: Não pare de tomar a medicação de um dia para o outro, os efeitos serão insuportáveis. A retirada precisa ser lenta e gradual.

Para ajudar na crise de abstinência e para o próprio tratamento hoje podemos contar com a cannabis medicinal, a grande aposta da saúde para o sofrimento psíquico seja ele qual for. Aqui no Japão os produtos da cannabis são legais desde que não contenham THC, a substância que provoca a tal “brisa”.

Além de não viciar, a cannabis tem o poder de reequilibrar nosso corpo, isso porque seu principal efeito acontece no sistema endocanabinóide, responsável pela integração de todos os outros sistemas do corpo. E ainda contamos com um plus: a cannabis tem um efeito modulador neuronal e isso ajudará muito a reestabelecer suas funções cerebrais depois que os remédios psiquiátricos causaram um verdadeiro caos em sua cabeça.

Isso significa dizer que a cannabis é a pílula mágica? Não. Ela não é a tão sonhada pílula mágica e é bem provável que sozinha ela não te levará à cura, no entanto, ela traz alívio sem efeitos prejudiciais ao longo do tempo e não atrapalha nos processos de tratamento pela fala, como é a Psicanálise.

A “cura pela fala”, como a Psicanálise é conhecida, oferece a possibilidade de revisitar sua história e elaborar o que ficou como trauma. É através dela que podemos desvendar o que significa nossos sintomas através da manifestação do inconsciente, ou seja, é considerar tudo aquilo que trabalhamos para negar. A Psicanálise não é qualquer processo e pode mudar completamente sua vida, mas ela não garante nada, uma vez que cada um tem um processo muito particular.

Você é muito mais que seu cérebro

A partir da década de 1980 os esforços mundiais da indústria farmacêutica se intensificaram em um marketing médico que vendeu a ideia de que todo o sofrimento que passamos tem sua origem orgânica no cérebro, foi dessa forma que passamos a desconsiderar a nós mesmos para acreditar na ilusão da química cerebral como culpada pelo nosso mal-estar.

Essa história é repetida inúmeras vezes para nós durante nossa vida, seja na consulta médica, na televisão, mas também em nossa própria formação. Todo profissional da saúde terá em sua grade curricular matérias reforçando que a química cerebral é responsável pela depressão, ansiedade, bipolaridade, psicose e por aí vai. Embora vários estudos refutem essa concepção, eles não nos são apresentados.

Todo ser humano tem marcas profundas de sua história de vida, marcas que constroem nossa história e nos definem. Nos apegamos a elas com muito afeto, seja tristeza, raiva ou angústia e queremos que isso fique bem guardado dentro de nós, escondido. No entanto, tudo o que não é bem elaborado em nossa vida, retorna como sintoma.

Junta-se a isso nossa sociedade contemporânea “adoecida”, nosso trabalho cada vez mais intensificado no nível de exploração e principalmente nossa forma de entender que tudo depende de nós, formando uma enorme culpa por não sermos ricos e bem sucedidos.

Pensar que somente a química cerebral define nosso sofrimento é desconsiderar tudo o que forma nossa vida numa grande ilusão concentrada na pílula mágica. Já pensou que maravilha se um remédio pudesse nos curar do que nossas relações, nosso trabalho, nossa auto exploração produz?

A história da química cerebral como única razão de sofrermos é um dos maiores problemas que padecemos.

Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

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