A beleza do Yakisugi na arquitetura tradicional japonesa

A beleza do Yakisugi na arquitetura tradicional japonesa

Yakisugi é o produto de uma técnica tradicional japonesa de carbonizar cedro para aumentar a vida útil da madeira

A beleza da madeira escura, cor de carvão, cria uma atmosfera do Japão antigo dentro e fora de casa. Este é o yakisugi, também chamado de shou sugi ban, um dos mais preciosos legados da estética tradicional japonesa.

Yakisugi é o produto de uma técnica tradicional japonesa de carbonizar cedro para aumentar a vida útil da madeira. A atenção que o yakisugi está recebendo agora pela comunidade mundial de design é devido à sustentabilidade e estética dramática, mas no Japão é simplesmente uma solução utilitária elegante.

Com as opções de tapume mais novas e baratas entrando no Japão nos anos 50, o estilo de design foi modificado e os artesãos de yakisugi começaram a desaparecer. Contudo, ainda é possível ver muitos exemplos dessas construções originais em comunidades agrícolas e em áreas comerciais mais antigas.

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Foto por Jaqueline Kuriu

Um dos principais motivos pelos quais essa tradição começou foi pela necessidade de uma opção sustentável de preservar o exterior da casa. Aqui estão alguns dos principais benefícios do uso do yakisugi:

Aumenta a resistência ao fogo

A camada de fuligem aumenta o limiar de temperatura necessário para a combustão, reduzindo drasticamente a propagação da chama. Aumentar a resistência não significa que tornará a madeira 100% à prova de fogo.

À prova d’água

Da mesma forma, após a carbonização e o endurecimento do exterior, cria-se uma base resistente à água.

Repele cupins, caracóis, lesmas etc.

A queima dos produtos químicos e carboidratos na madeira, que é basicamente alimento para insetos, cria um repelente natural para vários insetos. Esta é a chave para a longevidade do revestimento de madeira.

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Foto por Jaqueline Kuriu

Atualmente muitos arquitetos e designers estão voltando a utilizar essa opção de revestimento na construção e decoração das casas. O Japão influenciou o pensamento e o design ocidentais desde que o país foi aberto, no final do século XIX, e o yakisugi contribuiu significativamente para a arquitetura moderna na forma da estética contemporânea da parede monolítica preta. Tradicionalmente, no Japão, o yakisugi é combinado com estuque branco nas paredes externas, cada região tem seu padrão estético particular.

O material Yakisugi finalmente está começando a ser aceito mundialmente como uma opção de revestimento de madeira sustentável e esteticamente desejável.

O que antes era uma técnica empregada mais por causa do seu uso prático e acessível na parte externa dos edifícios, agora é considerado um material elegante e de alto design.

Embora o cipreste hinoki, o pinheiro, o larício, o carvalho e outras espécies sejam abundantes no Japão, o yakisugi (焼杉) é feito apenas a partir do cipreste sugi. Yaki significa aquecer com fogo, e Sugi é cipreste. Também é conhecido no Ocidente como Shou Sugi Ban (焼杉板), que usa os mesmos caracteres kanji, mas com uma pronúncia diferente. O caractere Ban significa “prancha”. Eles compartilham os mesmos kanji japoneses, mas têm pronúncias totalmente diferentes. É uma história linguística interessante para quem gosta desse tipo de informação.

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Foto por Jaqueline Kuriu

Simplificando, no ocidente, o kanji lido como “shou sugi ban” refere-se à mesma coisa que o kanji lido como “yakisugi“, mas no Japão a madeira escurecida é chamada apenas de “yakisugi“.

O cipreste japonês é uma espécie perfeita para esse tipo de tratamento térmico; cresce alta e reta, é naturalmente resistente a insetos, podridão e bolor, e a fuligem criada durante a queima é muito mais substancial e resistente do que a criada em outros tipos de madeira.

O yakisugi pode receber regularmente uma camada de óleo para prolongar sua vida útil ou pode ser deixado sem manutenção até ser substituído, o que pode levar de 80 a 100 anos.

A técnica tradicional trata de unir 3 pranchas de cedro e colocá-las sob o fogo. Uma vez que as chamas pegam, as tábuas são levantadas e deixadas queimando. Para um produto de qualidade, o carvão deve ter 3 mm de espessura.

Depois que a madeira é carbonizada o suficiente, o fogo é interrompido no momento certo. Deve-se tomar cuidado nesse momento, pois não apenas a madeira está excepcionalmente quente, mas também pode ser facilmente deformada nesse estado. Uma vez resfriado, será bastante estável e capaz de resistir a condições e temperaturas extremas

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Caroistda / CC BY-SA (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)

Depois que a madeira esfria o suficiente, ela é limpa com uma escova macia para remover fuligem ou carvão solto, mantendo a integridade estrutural do carvão vegetal e deixar uma textura característica de “pele de jacaré”. Se for oleado neste momento, é chamado de suyaki. No entanto, você pode escová-lo novamente e remover o carvão vegetal mais macio, mas ainda deixando a camada escura. Isso é chamado de gendai ou “escovado”.

Finalmente, se você quiser, pode escová-lo novamente, levando-o de volta à madeira, deixando apenas os anéis de crescimento enegrecidos. Isso é chamado pika-pika ou “duas vezes escovado”.

Todos os três tipos de yakisugi são distintamente bonitos, mas deve-se notar que quanto mais fuligem e carvão são removidos, menos proteção climática e longevidade a madeira terá.

O tratamento térmico da madeira tem sido comum em todo o mundo em várias aplicações há muitos séculos. O yakisugi japonês é apenas uma das muitas variações e possui parâmetros e aplicações de fabricação muito específicos. Madeiras muito grandes não são consideradas yakisugi. Apenas possuem aparência similar. Os tratamentos nas superfícies de móveis ou objetos de decoração são bonitos, mas também não são considerados yakisugi.

Yakisugi é um produto muito específico ao uso do cipreste japonês (Chamaecyparis obtusa) em tábuas serradas lisas ou serrilhadas. Essas tábuas são usadas para tapume (vertical ou horizontal), intradorso, decks/telhas expostas, paredes e tetos (internos ou externos). Se não é isso, também não é considerado yakisugi.

Imagem destacada: Foto por Paul HanaokaUnsplash


Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

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