Vaga-lumes: a magia do verão japonês

Vaga-lumes: a magia do verão japonês

O verão japonês é a época para apreciar o pisca-pisca dos vaga-lumes que iluminam os céus e espalham seu brilho entre as árvores, perto de rios e das fontes de água limpa

Uma rara e encantadora dança luminosa pode ser observada quando chega o verão japonês. Em meados de junho e início de julho o Hotaru, o vaga-lume japonês, invade o crepúsculo e ilumina as noites quentes desta época do ano.

É muito difícil encontrar uma área acessível, perto da cidade, que não seja perturbada por luz artificial, o que torna complicada a observação do Hotaru. Neste artigo eu vou mostrar pra você alguns lugares que são considerados refúgios destas luminosas criaturas.

Vaga-lumes na cultura japonesa

Os vaga-lumes são insetos que emitem luz do próprio abdômen para atrair o sexo oposto no período de reprodução. Embora hospedem um “fogo” em seus corpos, essas criaturas são frequentemente associadas à morte. No Japão, acredita-se que os vaga-lumes sejam os espíritos dos guerreiros que morreram em batalha.

Essa metáfora pode ter inspirado Akiyuki Nosaka a escrever seu famoso conto auto-biográfico “Túmulo dos vaga-lumes” (1988), que mais tarde foi adaptado para o filme de animação do Studio Ghibli com o mesmo título, dirigido por Isao Takahata. O filme se passa na cidade de Kobe, no Japão Imperial, e conta a história de dois irmãos, Seita e Setsuko, e sua luta para sobreviver nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Os vaga-lumes nesta história não representavam apenas os soldados que morreram, mas também as pessoas inocentes que morreram pelos efeitos indiretos da guerra.

Por outro lado, desde que a mais antiga coleção de poesias Manyoushu (万葉集) foi compilada no século VIII, a luz mística que os vaga-lumes emitem também é usada como uma metáfora na poesia japonesa para os ardentes sentimentos do amor.

Hotaru no Hikari, “A Luz do Vaga-lume”, é provavelmente uma das músicas japonesas mais conhecidas. É frequentemente cantada em momentos de despedida, como nas cerimônias de formatura, na cerimônia de encerramento de eventos e no final do ano. Há também uma canção infantil intitulada Hotaru Koi, que significa “Venha vaga-lume”.

A expressão Keisetsu-jidadi, que se traduz como “diligência no estudo”, deriva do folclore chinês e refere-se a estudar sob a pouca luz que é oferecida por um vaga-lume ou que é refletida pela neve. Há também outra expressão Keisetsu no kou, que significa “os frutos do estudo diligente”.

Mais recentemente a cultura japonesa criou a expressão Hotaru-zoku, “tribo dos vaga-lumes”, que se refere às pessoas (principalmente maridos) obrigadas a fumar fora de casa. Existem muitos prédios que geralmente têm pequenas varandas, e de longe a luz do cigarro do lado de fora da janela cortinada parece o brilho de um vaga-lume.

Onde encontrar vaga-lumes

Durante o verão, festivais de vaga-lume são realizados em todo o Japão, oferecendo aos sonhadores a chance de vislumbrar essa criatura de vida curta, mas totalmente mágica. Mesmo nas grandes cidades, existem muitos festivais em santuários, perto de rios ou mesmo nos jardins dos hotéis, desde que as condições sejam favoráveis ​​o suficiente para que eles apareçam.

Os habitats naturais de vaga-lumes proporcionam um período de observação, que pode ser de até dois meses. No entanto, são lugares remotos onde as árvores e as florestas são preservadas e a água tem que ser limpa. Isso significa que o transporte público nem sempre é disponível. É maravilhoso vislumbrar milhares de luzes verdes e amarelas tremeluzentes em um local calmo e escuro. É um mundo completamente diferente!

Tipos de vaga-lume que podem ser vistos no Japão

No Japão, existem três espécies principais de vaga-lumes: Hime-hotaru, Genji-hotaru e Heike-hotaru. Genji e Heike são os nomes de duas famosas famílias de guerreiros na história do Japão. Talvez tenha relação com a forma do fenômeno dos vaga-lumes emitindo luz também ser conhecido como hotaru gassen, ou “batalha dos vaga-lumes”.

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A estação de acasalamento dos vaga-lumes varia de acordo com a localização geográfica e as espécies. Assim como no caso das flores de cerejeira, a estação dos vaga-lumes começa no sul e se expande gradualmente para as regiões do norte. Entre as três espécies, a Hime-hotaru é a mais rápida a amadurecer a partir do estágio de larva e a começar a atrair as fêmeas com sua luz.

Em geral, a temporada de Genji-hotaru e Heike-hotaru é do início de junho na região de Kansai, de meados a final de junho em Kanto e final de julho em Tohoku.

Durante a temporada, o melhor horário para vê-los é em torno das 22h. Em alguns casos, você terá que esperar até meia-noite para que apareçam em maior número.

Os vaga-lumes precisam de ar úmido e locais escuros para o seu ciclo de vida e reprodução, em áreas florestais, perto de fontes de água limpa e em locais menos perturbados pela atividade humana (como luzes da rua ou faróis à noite).

Alguns lugares para ver os vaga-lumes

O Parque Motosu Hotaru, em Gifu, fica muito perto de estradas e distritos residenciais, mas o governo local o reservou para os vaga-lumes, de modo a satisfazer sua necessidade de água e escuridão. O local fica a apenas 550 m da Estação Motosu, então você pode simplesmente descer do trem e caminhar até lá.

Outro ótimo lugar para ver os vaga-lumes é em Sekigahara, próximo da Prefeitura de Gifu. É mais remoto, pois fica na área entre o pé do Monte Matsuo e o Rio Fujiko. A estação mais próxima é a Sekigahara, que fica a cerca de 2 km, por isso é melhor usar um carro ou uma bicicleta para chegar até lá. Com a densa escuridão e a floresta profunda, o número de vaga-lumes que você pode ver também é maior.

Em Shimoyoshida, na Província de Saitama é um ótimo lugar para observar Hime-hotaru. A floresta densa fornece o habitat perfeito para esse tipo de vaga-lume com luz amarela. Localizado a apenas duas horas de carro do centro de Tóquio.

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

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