Sakutaro Hagiwara: o poeta dos gatos

Sakutaro Hagiwara: o poeta dos gatos

Sakutaro Hagiwara foi um grande poeta considerado o pai da poesia coloquial moderna no Japão. Introduziu o verso livre na literatura japonesa, e libertando-se das regras tradicionais, desenvolveu seu estilo revolucionário de escrita

Sakutaro Hagiwara (萩原朔太郎) é considerado o “pai da poesia coloquial moderna no Japão”. Ativo nos períodos Taisho (1912-1926) e no início do período Showa (1926-1989), o escritor e poeta japonês libertou o verso livre de suas regras tradicionais.

Ao longo de sua carreira publicou diversos volumes de ensaios, críticas literárias e culturais e aforismos. Seu estilo único expressou suas dúvidas sobre a existência, seus medos, tédio e raiva através do uso de imagens sombrias e palavras inequívocas.

O estilo de Hagiwara desenvolveu-se lentamente. O apoio de seu pai foi decisivo e permitiu-lhe trabalhar em seu próprio ritmo.  Em 1913, abandonou os esquemas métricos clássicos e adotou o verso livre.

Em 1915, aos 29 anos, tentou o suicídio por causa de seus problemas de saúde e do alcoolismo. No entanto, em 1916, juntamente com Muro Saisei, co-fundou a revista literária Kanjo, que em japonês significa “Sentimento”.

A revista era centrada no “novo estilo” da poesia japonesa moderna que Hagiwara estava desenvolvendo, em contraste com os poemas altamente intelectuais e mais tradicionalmente estruturados em outras revistas literárias contemporâneas.

Em 1917 lançou sua primeira coleção de versos livres, Tsuki ni Hoeru, “Uivando para a Lua”, que teve uma introdução de Kitahara Hakushū. A obra causou sensação no meio literário e transformou o verso japonês moderno de forma irreversível. Hagiwara rejeitou o simbolismo e o uso de palavras incomuns dos poetas contemporâneos em favor de uma formulação precisa que apelava ritmicamente ou musicalmente aos ouvidos. Tsuki ni Hoeru foi muito aclamada pela crítica, especialmente por seu estilo sombrio, transmitindo uma atitude de pessimismo e desespero com base no moderno conceito psicológico ocidental de angústia existencial, influenciado pela filosofia de Nietzsche.

Uma aclamação ainda maior veio em 1923, quando publicou a antologia intitulada Aoneko (“Gato Azul”). Os poemas de Aoneko incorporaram conceitos do budismo com o niilismo de Arthur Schopenhauer. Nesta obra ele escreveu o seguinte verso:

Ó cidade gradiosa e povoada por insones, exceto pelo que vejo ser um único gato azul. Um gato que conta a triste história da raça humana. Uma fantasia azul da minha felicidade inalcançável. Em busca de imagens, eu anseio por você, Tóquio, sem medo do frio e da umidade. Enquanto caído e tremendo em um de seus becos encontra-se um mendigo como eu. E me pergunto com o que ele sonha.

Para Hagiwara, a expressão “gato azul” inclui nuances da palavra blue em inglês, que significa “sem esperança”, “melancolia” ou “cansado” e se refere a um “gato desanimado”.

Essas duas coleções estabeleceram sua reputação como poeta. Seu estilo difícil não foi compreendido imediatamente, embora um dos líderes do mundo literário japonês, o romancista Mori Ogai, tenha ficado impressionado com seu modo de expressão.

Durante e logo após o lançamento de Aoneko, muitos gatos apareceram nos poemas de Hagiwara, todos em formas que não são deste mundo. O fantasma que flutua ao som da flauta verde como uma miragem “assemelha-se a um gato sem cabeça” caminhando “cambaleante” no capim alto do cemitério (Midori-iro no Fue – Flauta Verde). O cadáver de uma mulher exalando um cheiro almiscarado, com cabelo preto espalhado no chão em uma noite de primavera, é um “gato azul solitário e melancólico” (Sekichiku to Aoneko – Cravina e o Gato Azul). No “pântano solitário onde as rãs se reúnem”, uma mulher espiritual chamada Ula “treme como um gatinho” (Shotaku-chiho – Pantanal). Além disso, o poema que descreve um encontro com uma mulher vagando arrastando sua “vestimenta de névoa densa” em um cemitério que parecia inchado com umidade suave termina com a linha, “Enterre o cadáver do gato” (Neko no Shigai – O cadáver de um Gato).

Sempre tão sedutores e cativantes os gatos se transformam em mulheres dos sonhos em cemitérios que atraem o tema poético, e o narrador vagueia em um submundo mal iluminado em busca desses gatos sem forma.

Por um lado, o nome da mulher Ula , que significa “enseada”, está remotamente conectado ao namorado morto chamado Ulalume em um poema de Edgar Allan Poe, mas a imagem da paisagem curva e sinuosa expressa por seu caractere kanji também é associado ao útero e um desejo de retornar ao útero.

Poe não foi o único poeta que inspirou as imagens do gato de Hagiwara. Vários gatos esvoaçavam como imagens de sombras da virada do século seguinte, incluindo os gatos de Charles Baudelaire com sua pele elétrica e misteriosos olhos de ouro em pó, e os gatos de Paul Verlaine que se misturam com as mulheres, ocultando garras afiadas enquanto eles jogam.

Hagiwara posteriormente publicou vários outros volumes de crítica cultural e literária. Ele também foi um estudioso do verso clássico e publicou Shi no Genri, “Princípios de Poesia”, em 1928. E em 1931 publicou seu estudo crítico Ren’ai meika shu, “Uma coleção de poemas de amor mais amados”, mostrando que ele tinha um profundo apreço pela poesia japonesa clássica e Kyōshu no shijin Yosa Buson, “Yosa Buson — Poeta da Nostalgia” em 1936, revela seu respeito pelo poeta Buson, que defendia o retorno às regras do século XVII de Basho.

As obras de Sakutaro Hagiwara são encontradas apenas em japonês e inglês.
Em Tóquio há uma estátua dos gatos Hanako e Taro, construída em sua homenagem pela obra Aoneko, “Gato Azul”. Hagiwara viveu na região central de Shinagawa, chamada Oimachi, por dois meses.

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Foto destacada por Francesco Ungaro no Pexels

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

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