Quero parar de tomar remédios psiquiátricos: a canabis pode ajudar?

No Japão a canabis é proibida e a política antidrogas vigente é bastante severa, mas há uma brecha na legislação. Além disso, pesquisas sugerem que em países onde a canabis foi legalizada, o uso de remédios psiquiátricos caiu

Quero parar de tomar remédios psiquiátricos: a canabis pode ajudar?

O uso abusivo de drogas psiquiátricas sempre chamou a atenção de uma parcela dos pesquisadores da saúde e mesmo da mídia. Para se ter uma ideia, em 2015 o Rivotril (Clonazepan) vendeu 37,9 milhões de caixas somente no Brasil, no entanto, a mesma situação ocorre ao redor do mundo, uma vez que a medicina possui as mesmas bases de diagnóstico e medicação.

Para quem faz ou já fez uso de psicotrópicos sabe que os efeitos são controversos. Pode ser que inicialmente os efeitos sejam agradáveis, mas há risco de efeitos colaterais intensos e com o passar do tempo as doses começam a perder o efeito. Além disso, um dos riscos mais registrados é a dependência química em tais medicações. Quando isso ocorre, a medicação não faz mais o efeito esperado, mas o paciente não consegue deixar de usá-la.

Muitas pessoas atentas a esses problemas ou por conta do mal-estar gerado pelas próprias medicações resolvem deixar de usá-las, algumas com apoio médico e redução gradual, outras por conta própria e de forma abrupta. Os relatos da grande dificuldade para deixar o uso de tais medicamentos são inúmeros e nem sempre se consegue alcançar o objetivo.

Creio que precisamos elencar algumas situações que envolvem o uso inadequado de remédios psiquiátricos, que contribuem para a dependência:

Usar remédios psiquiátricos como única estratégia para lidar com o sofrimento psíquico

Embora seja muito comum o tratamento único e exclusivamente medicamentoso para o sofrimento psíquico (ansiedade, depressão, bipolaridade e todos os diagnósticos elencados pela psiquiatria) eles não curam absolutamente nada, medicações psiquiátricas servem para aliviar sintomas para que outras estratégias de cuidado sejam iniciadas.

Se você usa remédio psiquiátrico esperando a cura de seu sofrimento, saiba que isso não vai acontecer.

A banalização do uso dos psicotrópicos:

Esse tipo de medicamento é muito difundido no mundo, de forma que ou você toma ou já tomou algum deles, ou provavelmente conhece alguém que toma ou já tomou.

É comum termos uma cartelinha em casa de um medicamento que não foi utilizado até o final ou ter algum familiar ou vizinho que tenha e assim, esses medicamentos acabaram por ser percebidos como qualquer outro remedinho que temos em nossa gaveta para uma emergência, ele pode estar lá ao lado da dipirona e da aspirina.

Uma situação muito frequente é alguém oferecer um desses medicamentos para uma pessoa que consideramos não estar bem e ainda falamos “vá ao médico e pede esse remédio, pois só vende com receita”, e para nossa surpresa, muitos médicos receitam a medicação diante do pedido do paciente.

Estamos falando aqui da banalização de medicações que representam grande risco à saúde psíquica, com alterações profundas na dinâmica da mente.

Uso recreativo de psicotrópicos:

Uma coisa que precisamos falar é que o ser humano gosta de alterar a consciência e faz isso seja com drogas ilegais ou legais. Medicações psiquiátricas também são usadas dessa forma, geralmente em alta dosagem ou associadas a outras substâncias que potencializam seu efeito, como por exemplo o álcool.

Venda irregular e troca de medicamentos:

Se uma pessoa não conseguiu uma receita para comprar a medicação (coisa rara, pois geralmente se encontra um médico prescritor pouco criterioso) existe um mercado de compra e venda irregular de fácil acesso. Inclusive no Japão é bem fácil encontrar na internet grupos de pessoas que vendem todo tipo de medicamento trazido do Brasil.

Esses são alguns tópicos que precisamos refletir para entender o uso abusivo que se faz desses medicamentos, em uma sociedade que procura a pílula mágica para todos os seus problemas, permeada por uma indústria farmacêutica com poder de modulação das grades curriculares das escolas de medicina.

Mas parece que um novo movimento começa a ser relatado nesse mundo alopático, o de pessoas que recorrem ao canabidiol (CBD) para deixar tais medicamentos, podendo lidar melhor com a abstinência. Embora a legalização do CBD e da canabis no mundo, de forma geral, seja relativamente recente, já temos alguns estudos e relatos clínicos.

O que dizem os estudos

Estudo italiano

Em 2016 o governo italiano aprovou a lei para facilitar o cultivo de cânhamo industrial no país, no entanto, por uma brecha na lei a comercialização de flores de cânhamo, conhecida como canabis light (entre 0,2 e 0,6% de THC), foi possível.

Além de impactar o mercado ilegal de maconha, a lei também alterou o padrão de consumo de remédios psiquiátricos da seguinte forma: diminuição de 1,5% de antiepiléticos, diminuição de 1,2% de antidepressivos, diminuição de 1,2% de opióides, diminuição em 1% de medicações para enxaqueca.

Contudo, as maiores mudanças de consumo estiveram registradas nas caixas de ansiolíticos prescritos pelos médicos e vendidos nas farmácias, com diminuição em 11,4%, os sedativos diminuíram cerca de 10%, enquanto o consumo de antipsicóticos diminuiu 4,8%.

O maior período da diferença nos padrões de consumo desses medicamentos aconteceu após 3 meses do início da comercialização da canabis light. Em 2019 o governo italiano resolver rever a lei, uma vez que consideraram que alguns produtos vendidos continham mais THC que o permitido.

Neste ano muitos produtos foram apreendidos e a lei reeditada, possibilitando somente o uso do canabidiol (CBD).

Estudo canadense

Um estudo da Canabo Medical Clinic foi realizado através de avaliação de seu banco de dados contínuo a partir das consultas clínicas. Embora inicialmente a intenção das consultas não tenha sido a retirada de benzodiazepínicos (ansiolíticos), verificou-se uma redução considerável entre os pacientes na medida que avançavam no tratamento com canabis medicinal.

O estudo foi realizado com 146 pacientes, após a primeira consulta médica, 44 pacientes (30,1%) interromperam o uso da medicação para ansiedade. Outros 21 pacientes, para um total de 65 pacientes (44,5%), interromperam seus benzodiazepínicos na segunda visita, sendo que entre uma consulta e outra houve o intervalo de 2 meses. Na terceira visita, mais um paciente interrompeu os benzodiazepínicos, para um total de 66 pacientes (45,2%).

Estudo norte americano

Uma revisão de literatura foi feita para avaliar a substituição de medicações psiquiátricas pela canabis nos Estados Unidos, além da aplicação de um questionário para avaliar pontos fortes e fracos das pesquisas existentes.

De um total de 1.248 entrevistados, aproximadamente 46%, responderam afirmativamente à pergunta: “você já usou canabis como substituto de medicamentos controlados?” e conforme a idade dos entrevistados aumentava, maior era a chance da substituição. As classes mais comuns de drogas substituídas foram narcóticos/opióides (35,8%), ansiolíticos/benzodiazepínicos (13,6%) e antidepressivos (12,7%).

Cada vez mais se aposta no uso medicinal da canabis e calcula-se que estejamos falando de uma indústria bilionária. O marketing por sua vez apresenta o CBD novamente como uma substância milagrosa que poderá resolver todos os seus problemas, mas é preciso ter parcimônia: o CBD pode te ajudar, de maneira mais segura que os psicotrópicos, mas não deve ser considerado como a mais recente pílula mágica.

Existem efeitos colaterais e os efeitos não são os mesmo para todas as pessoas. Novamente, se estivermos falando de sofrimento psíquico as substâncias derivadas da canabis podem trazer alívio, mas não serão a solução final se usadas como única estratégia.

No entanto, o uso para lidar com sintomas de abstinência das drogas psiquiátricas aparecem com grande valia, uma vez que ajuda na retirada de medicamentos nocivos e sem trocar uma dependência por outra. A descontinuação do uso de substâncias derivadas da canabis tem se mostrado muito segura.

Além disso, a forma de ação no corpo é bastante diferente do que se conhece na psiquiatria, uma vez que atua num sistema chamado endocanabinóide, presente em todo o corpo e responsável pelo equilíbrio geral.

Embora o uso da canabis seja muito promissor, alertamos aqui que cada pessoa tem uma reação específica e que novamente, se tratando de sofrimento psíquico, não se trata de uma substância milagrosa, é preciso que outras estratégias de cuidado entrem em ação no momento da diminuição dos sintomas pela medicação.

Se você tem interesse nesse assunto, existe um grupo do Facebook chamado CBD/Canabis Medicinal no Japão, criado com a ideia das pessoas trocarem experiência de uso e tirarem dúvidas.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

Veja o perfil completo de Carine Sayuri Goto

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