Na esteira de produção do sofrimento psíquico no Japão: fábricas e sintomas

Na esteira de produção do sofrimento psíquico no Japão: fábricas e sintomas

Pensando no estilo de vida que a maioria dos brasileiros levam no Japão podemos dizer que o trabalho é um grande desencadeador de mal-estar psíquico, isso pela forma como está organizado

É comum para a maioria das pessoas reconhecer o sofrimento psíquico como uma doença e construir a relação que fazemos com as diversas outras doenças que temos corriqueiramente. Por exemplo, se temos uma dor de garganta, uma bronquite, vamos ao médico que identifica os sintomas orgânicos, faz a relação com a doença e nos passa um remédio. No entanto, quando pensamos em sintomas psíquicos a lógica é diferente.

A relação médica que mencionei acima para as doenças orgânicas, continua sendo a mesma lógica com a qual nos direcionamos a um profissional da saúde mental quando temos algum sintoma psíquico. Aqui quando falo de sintoma psíquico me refiro ao que comumente reconhecemos como problemas psiquiátricos, como ansiedade, síndrome do pânico, depressão, agitação, bipolaridade, etc.

Todos esses fenômenos não são exatamente uma “doença”, mas a expressão de que algo não vai bem psiquicamente, por isso, melhor do que “doença psíquica”, preferimos chamar de sofrimento psíquico, uma vez que é a expressão de um sofrimento.

Os sintomas psíquicos, diferente das doenças orgânicas, não estão relacionados a um órgão afetado por uma bactéria, vírus ou ainda à um mal funcionamento como regra (embora saibamos que algumas doenças podem afetar diretamente a psiquê), muito menos está atrelada ao desequilíbrio químico cerebral, como por décadas a industria farmacêutica propaga. Quando uma pessoa apresenta algum tipo de sintoma psíquico não é o médico que terá a resposta de sua cura e essa é o grande enigma que se apresenta para as pessoas.

O trajeto comum diante desses casos continua sendo igual a qualquer outra patologia: nos dirigimos ao médico e esperamos dele a intervenção para voltarmos ao que éramos antes. Fazemos exames e tomamos remédios, mas os sintomas persistem e podem se manifestar de diferentes formas.

Nos últimos dias tive contato com uma pessoa que havia acabado de voltar de um médico no Japão, ela se queixava de mal-estar, dores de cabeça, pressão alta e estava demonstrando bastante preocupação. O médico lhe deu o diagnóstico de ansiedade e lhe passou alguns medicamentos, mas avisou que precisava cuidar da ansiedade. Mas o que isso significa? O que seria cuidar da ansiedade?

Aqui volto ao “enigma” e nossa inabilidade de lidar com ele, pois estamos acostumados ao médico desvendá-lo (no caso das doenças), mas aqui, nesse tipo de “enigma” é quem passa pelo sofrimento que precisa desvendá-lo.

Se tratamos nosso sofrimento somente com medicação, o que provavelmente acontecerá é um alívio nos primeiros meses, que pode vir precedido de um certo desconforto até nos acostumarmos com a medicação, e em seguida a sensação de que a medicação vai perdendo seu efeito, precisando ser reajustada em doses mais elevadas, até chegar à um limite máximo considerado seguro.

Tratar o sofrimento dessa forma eleva consideravelmente as chances de dependência da medicação e é comum na clínica psicanalítica e psicológica chegarem pessoas que fazem uso desses remédios por 10, 20 anos. Nesses casos, depois de tanto tempo de uso frequente, não há mais alívio dos sintomas iniciais, apenas a dependência da medicação, mas isso não é tudo, pode ser que o sofrimento psíquico piore com o uso tão prolongado da medicação psiquiátrica.

A1 - Carine Goto

É corriqueiro uma pessoa começar com sintomas considerados leves ou moderados, como por exemplo a ansiedade (retomando nosso exemplo), passar pelo médico, pegar seu remédio e continuar levando a vida dessa forma, sentindo algum mal-estar para o qual a resposta é estritamente a medicação.

O que essa medicação faz é aliviar os sintomas e não resolver a questão fundamental que nos provoca o sintoma. Se falássemos em termos médicos seria mais ou menos assim: se apresento febre durante um dia, posso tomar uma medicação para diminuir minha febre, mas ela não trata a causa desse sintoma.

É preciso descobrir a causa da febre para tratar a doença. No caso dos sintomas psíquicos essa poderia ser uma analogia, ou seja, a ansiedade (e outros tantos sintomas) são como a febre, nos indicando que algo não vai bem, mas o motivo desse mal-estar está em outro lugar.

Contudo, nossa forma de pensar sobre as questões psíquicas colocam esses fenômenos como se fossem a causa e ficamos apenas nos medicando para aliviá-los, coisa que acontecerá por um período breve caso permaneçamos somente com a medicação.

A medicação psiquiátrica é importante para aliviar os sintomas quando eles se apresentam incapacitantes, se eu não consigo trabalhar porque tenho insônia, a medicação pode ser importante, pois sem trabalhar não há como sobreviver, porém achar que a medicação tratará as causas da insônia é um erro. Provavelmente seus sintomas piorarão depois de um tempo.

Hoje em dia temos várias pesquisas e relatos de pessoas dizendo como a vida de dependências de remédios psiquiátricos podem ser muito ruins*. Como dissemos, o uso frequente pode piorar os quadros e isso significa que posso começar com ansiedade e com o passar dos anos apresentar características delirantes e isso não por conta de uma “doença mental” (como comummente chamamos e que tem um tom bastante pejorativo), mas como consequência do uso de medicações psiquiátricas por longos períodos.

Pensando no estilo de vida que a maioria dos brasileiros levam no Japão podemos dizer que o trabalho é um grande desencadeador de mal-estar psíquico, isso pela forma como está organizado: trabalho fragmentado, no qual realizamos apenas uma tarefa na esteira de produção, com movimentos repetitivos.

Essa forma de organizar o trabalho nos provoca isolamento, estranheza na relação com as outras pessoas, predisposição à desentendimentos e desconforto consigo mesmo. Além disso, o ambiente das fábricas são bastante hostis, tanto por sua aparência, quanto pelo fato de ficarmos infinitas horas sem ver a luz do dia, ou ainda pela rígida hierarquia japonesa.

A1 - Carine Goto

No resumo, são muitos elementos colaborando para que nosso mal-estar psíquico dê algum sinal, mas o principal fator é que no dia a dia do trabalho no Japão perdemos de vista nosso ideal de vida. Entramos na lógica automática de trabalhar para ganhar dinheiro, nos sustentar no Japão onde o custo de vida é alto e ainda enviar dinheiro para o Brasil.

Então, podemos pensar que há uma espécie de “biografia” a ser percorrida pelos brasileiros nas fábricas japonesas, uma vez que consideramos que o trabalho na fábrica provoca mal-estar psíquico. Diante dele nossa resposta imediata é o médico e a medicação, que não tratará a causa, somente os sintomas.

Com o tempo a dependência da medicação se estabelece e perde seu efeito terapêutico, mas piorando o quadro e forçando a pessoa a passar a usar outros medicamentos mais fortes. Nesses casos, também verificamos dificuldade para permanecer no trabalho, uma vez que como efeitos colaterais as medicações podem provocar lentidão, sonolência e outros desconfortos. Nesse momento muitos brasileiros retornam ao Brasil.

Embora ainda verifiquemos que muitas pessoas veem a psicologia e a psicanálise com bastante preconceito ou ainda de uma forma pejorativa**, é a partir desse tipo de cuidado que podemos desvendar o enigma que provocou os sintomas psíquicos e para surpresa de muitos esse enigma não se refere apenas as tensões do dia a dia, como passar nervoso com os filhos, com o casamento etc.

É um enigma baseado em uma vida inteira que precisa ser ressignificada e isso não se dá somente com o “desabafo”, é preciso a orientação de um profissional que conduzirá a pessoa pelo emaranhado dos acontecimentos.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e atende no Japão pelo Amae Institute.

Veja o perfil completo de Carine Sayuri Goto