Distanciamento social inadequado e escolas fechadas, aumentaram os riscos de adolescentes grávidas no Japão

Distanciamento social inadequado e escolas fechadas, aumentaram os riscos de adolescentes grávidas no Japão

A divisão de consultas sobre gravidez de um hospital em Kumamoto, recebeu o maior número de atendimentos, de alunos do ensino médio de todos os tempos

O Hospital Jikei, na cidade de Kumamoto, na província de Kumamoto, relata que houve um aumento no número de estudantes do ensino fundamental e médio que entraram em contato com o departamento de consultas sobre gravidez.

O aumento começou em março, pouco depois que o primeiro-ministro Shinzo Abe solicitou o fechamento de escolas em todo o país, para ajudar a impedir a propagação do coronavírus, e continuou enquanto as instalações educacionais permanecem fechadas.

Durante o mês de abril, os consultores de gravidez do Hospital Jikei lidaram com mais alunos do ensino médio do que em qualquer outro mês desde que o departamento foi criado em 2007.

“Com as escolas fechadas por causa do coronavírus, muitos estudantes ficam em casa”, diz o vice-presidente da Jikei, Ken Hasuda. “Para alguns deles, isso apresenta oportunidades para atividade sexual, que em alguns casos, está levando a gestações não planejadas”.

A16 - AT - 2020

No começo, parece que os adolescentes que ficam em casa deveriam dar menos oportunidades para fazer sexo, já que é praticamente desconhecido que eles vivam juntos com seus namorados.

No entanto, o cenário que Hasuda parece estar descrevendo, é aquele em que as crianças, sem aulas para frequentar ou atividades extracurriculares após a escola, ficam em casa o dia todo, enquanto seus pais estão fora de casa trabalhando. Isso cria “janelas” para que os adolescentes possam se encontrar em casa, sem deixar rastros de sua visita ou ausência para os pais.

Vale ressaltar que a divisão de consultas sobre gravidez não trata apenas de perguntas de pessoas que já estão grávidas, fornecendo aconselhamento sobre diversos assuntos relacionados ao sexo.

Perguntas frequentes dos adolescentes nas últimas semanas incluíram: “você pode engravidar se for a primeira vez?” bem como “minha namorada e eu fizemos sexo, e agora ela está se sentindo mal pelas manhãs”, bem como perguntas de adolescentes que dizem que já obtiveram um resultado positivo em um teste de gravidez.

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O aumento nas consultas de adolescentes também não significa que todo adolescente no Japão esteja deixando de praticar o distanciamento social. Em abril, a divisão de consultas sobre gravidez do Hospital, que aceita perguntas de qualquer lugar do Japão, teve 75 adolescentes pedindo conselhos. Ainda assim, esse é um aumento de 29% em relação a abril do ano passado e os adolescentes representaram 13% do total de solicitações de consulta da divisão para abril de 2020, praticamente o dobro do usual.

Consultamos também o doutor em Saúde Pública pela USP, Thiago Marques Leão sobre o assunto.

“Vivemos em uma sociedade cada vez mais individualizada: nos sentimos sobrecarregados e isolados. Isto é verdade tanto no Brasil quanto no Japão, e os jovens não escapam à ansiedade e solidão da sociedade contemporânea, hoje intensificadas pela pandemia do COVID-19 e as medidas de auto-isolamento.

É justamente por isso que buscamos formar laços de intimidade que nos ajudem a suportar a ansiedade e o sentimento de solidão – podemos parecer mais individualistas, mas isto não quer dizer que consigamos viver sozinhos.

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A sexualidade também pode ficar exacerbada em momentos de tensão, e o sexo apareceria como espécie de válvula-de-escape. Isto é possível, para algumas pessoas. Além disso, a curiosidade sexual e busca por sexo são uma constante neste momento de vida, de confusão hormonal e hiper-sensibilidade a estímulos culturais.

A adolescência é, por si só, um período conturbado, em que o jovem forma sua subjetividade e repensa seu lugar no mundo, à medida que é reconhecido pela sociedade como um (quase) adulto. Ele ocupa um novo lugar social, e isso sempre causa ansiedade em qualquer um de nós. Isto, associado às incertezas da pandemia, tem certamente um impacto significativo sobre os adolescentes.

Do ponto de vista da Saúde Pública, não é suficiente fazer campanhas publicitárias ou manter os jovens vigiados. O problema não é apenas eles e elas estarem sozinhos em casa.

O Governo, as escolas e os pais têm a responsabilidade de promover educação sexual e reprodutiva – isto é, falar sobre seus corpos e sexualidade, sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez, sobre consentimento e respeito quando ele ou ela disser “não”, e como lidar com relações abusivas ou insistências indesejadas. Se isso já é feito nas escolas japonesas, temos que buscar entender por que estudantes recorrem a estes serviços e não aos professores e pais”, disse o doutor.

A Psicanalista residente no Japão Carine Sayuri Goto, disse que “a adolescência já é por si só um momento muito conturbado, e essas dúvidas podem não ser “didáticas”, isto é, não serão respondidas por estudos e educação sexual e reprodutiva. O que a pandemia, o fechamento das escolas e outras mudanças de vida despertam neles e nelas?”

“Para entender os dados apresentados pelo Jikei Hospital, seria importante compreender isto. De toda forma, permanece a questão de que estes jovens parecem iniciar sua vida sexual despreparados, e buscando fora de suas casas e escolas por aconselhamento e acolhimento”, disse Thiago.