Coronavírus: tudo o que você precisa saber até agora

Coronavírus: tudo o que você precisa saber até agora

O coronavírus tem despertado grande ansiedade e uma série de dúvidas. As autoridades chinesas confirmaram mais de 7.700 casos da misteriosa doença, enquanto governos estrangeiros retiram seus cidadãos de Wuhan, epicentro do surto

Um novo tipo de coronavírus surgiu em Wuhan, na China, no início de dezembro, e já infectou centenas de pessoas em quase uma dúzia de países. A Organização Mundial da Saúde classificou inicialmente o risco global como moderado, afirmando na ocasião ser cedo para declarar uma emergência global de saúde pública. Mas, depois de ter sido criticada por esta decisão, começou a falar em risco elevado.

Os coronavírus são comuns em vários tipos de animais e, às vezes, podem ser transmitidos para os seres humanos. Nesse caso que estamos vendo agora, é provável que o vírus tenha vindo de um morcego, mas ainda não se tem confirmação. Dois outros coronavírus já infectaram seres humanos no passado recente, causando os surtos de SARS em 2002 e MERS em 2012. Contudo, desta vez os cientistas conseguiram rapidamente sequenciar o vírus e desenvolver um teste para fazer um diagnóstico.

Este novo coronavírus parece causar sintomas como febre, tosse, dificuldade em respirar e outros sintomas respiratórios. Causa doenças graves em cerca de um quarto dos casos e pode ser mortal. As autoridades de saúde pública estão trabalhando para entender o quão perigoso é esse vírus, quão rápido está se espalhando e como contê-lo. Enquanto esse trabalho continua, o vírus está provocando ansiedade em todo o mundo.

O que é o coronavírus?

Conhecido no Brasil simplesmente como coronavírus, a doença ainda é muito pouco compreendida, gera bastante ansiedade e parece estar mudando rapidamente. Seu nome “oficial” e provisório é 2019-nCoV, uma sigla em inglês formada por 2019, o ano da descoberta, “n” para novel (“novo”) e CoV para coronavírus.

Inicialmente as doenças são identificadas por códigos como este, e só mais tarde são “batizadas” com nomes mais populares, como “gripe aviária”. Os primeiros casos de 2019-nCoV apareceram em dezembro na cidade chinesa de Wuhan e provavelmente vieram de algum hospedeiro animal não humano. Sua fonte exata ainda não foi identificada.

Os coronavírus são uma família de vírus que costumam causar sintomas respiratórios leves, como o resfriado, mas alguns podem causar doenças graves. O coronavírus SARS, por exemplo, que passou de morcegos para humanos na província de Guangdong, na China, infectou mais de 8.000 pessoas em todo o mundo e matou pelo menos 774. No entanto, ainda não há dados suficientes para afirmar com certeza se estamos lidando com algo tão grave.

Os sintomas do coronavírus de 2019 incluem tosse, febre e dificuldade em respirar, mas geralmente aparentam ser muito leves ou até mesmo inexistentes nos indivíduos infectados. Entretanto, a pneumonia com risco de vida é uma possibilidade para qualquer paciente, sendo que idosos e indivíduos com problemas de saúde ou com o sistema imunológico comprometido correm um risco mais alto.

Onde o novo coronavírus já foi identificado?

Até ontem, quarta-feira, além dos casos confirmados na China, 14 foram identificados na Tailândia, 10 em Hong Kong, 5 em Macau, Taiwan, Austrália, Estados Unidos e França, 4 em Cingapura, Coréia do Sul, Malásia e Alemanha, 3 no Canadá, 2 no Vietnã, 1 no Camboja, Nepal, Sri Lanka, Tibete e Emirados Árabes Unidos.

Aqui no Japão são 11 casos confirmados.

Os casos registrados em Taiwan, Alemanha, Vietnã e Japão envolveram pacientes que não estiveram na China. Não há relatos de mortes fora do país de origem da doença. Aliás, este foi o maior desenvolvimento ocorrido nesta semana: a confirmação de que casos em Taiwan, Alemanha, Vietnã e Japão envolveram pessoas que nunca haviam viajado para a China, mas entraram em contato com um portador do vírus no país onde moram.

O surto de coronavírus é grave?

Até este momento há 7.736 casos confirmados na China e 170 mortos, segundo balanço divulgado pela agência chinesa CGTN nesta quarta-feira dia 29. Este é o segundo dia consecutivo em que o número de casos confirmados cresce mais de 1500. Já são mais casos do que o SARS: segundo a Organização Mundial da Saúde a China teve 5.327 casos e 349 mortes.

A Organização Mundial da Saúde realizará uma nova reunião do seu comitê especial nesta quinta-feira dia 30 para analisar se será declarada situação de emergência global para o novo coronavírus. A designação do 2019-nCoV como uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional – ou PHEIC, Public Health Emergency of International Concern – permitiria à OMS recomendar respostas específicas para diferentes países, e poderia ajudar a coordenar uma resposta global para evitar impactos desnecessários nas economias em todo o mundo.

Segundo as informações epidemiológicas apresentadas pelas autoridades chinesas, cerca de 25% dos casos do novo coronavírus são graves. Dentre as primeiras 24 pessoas que morreram, a idade média era de 72 anos – a mais nova tinha 36 anos e as mais velhas tinham 89 anos. Ao menos 40% destas pessoas já estavam fragilizadas por outras doenças prévias.

Ainda não existe consenso sobre taxa de transmissão da nova doença. Em epidemiologia, esta taxa é representada pelo R0, o chamado “número básico de reprodução”. Em resumo, R0 é o número médio de pessoas que pegam a doença a partir de uma única pessoa infectada, em uma população que nunca viu a doença antes. Se R0 for 3, todos os casos criarão, em média, três novos casos. Ou seja, quanto maior for R0, mais difícil será controlar a epidemia.

Embora isso possa parecer algo simples, é muito difícil de calcular e ainda mais complicado de interpretar. Para as organizações e países que elaboram ações e medidas para o combate de doenças contagiosas, R0 é um número muito importante. Se o R0 for maior que 1, a doença provavelmente continuará se espalhando, mas se for menor que 1, tende a desaparecer sozinha.

Com tudo o que se sabe até o momento, este novo coronavírus mata 3 em cada 100 pessoas infectadas. Fazendo uma comparação simples, a gripe sazonal mata 1 pessoa a cada 1000 casos. Já a SARS matou 10 em cada 100, enquanto a MERS, 30 a cada 100. Contudo, os números da nova doença vão mudando a todo instante, e ao mesmo tempo que não se tem um retrato completo da situação, o próprio vírus pode sofrer mutações que tornariam a doença ainda uma ameaça ainda mais grave.

Portanto, se os números que estão sendo divulgados até o momento estiverem corretos, estamos diante de um tipo de gripe muito mais perigosa do que a sazonal, aquela que ocorre todos anos, especialmente no inverno, porém muito mais branda do que outros tipos de coronavírus, como a SARS e a MERS.

Quantos casos de coronavírus já foram confirmados no Brasil?

Segundo informações do Ministério da Saúde, até a quarta-feira, 29 de janeiro, existem nove casos suspeitos de coronavírus em seis estados no Brasil. Os casos suspeitos foram registrados no Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo e Paraná. Todos os pacientes estão sendo submetidos a testes genômicos que poderão confirmar se os sintomas são causados pelo vírus 2019-nCoV.

A cidade de Wuhan está há uma semana sob quarentena. Enquanto centenas de cidadãos de outros países já foram retirados da cidade, os brasileiros que estão sob quarentena em Wuhan ainda não sabem quando conseguirão deixar a região, sentem-se como se estivessem em uma prisão domiciliar e reclamam da falta de apoio do governo brasileiro.

Inicialmente, a Embaixada em Pequim afirmou que não seria possível evacuar brasileiros da cidade de Wuhan, e agora diz que “os órgãos envolvidos no Brasil com a questão estão neste momento avaliando o caso”. Na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro manifestou dúvida sobre o resgate dos cidadãos brasileiros que se encontram em áreas onde há casos da doença.

O que a China está fazendo para impedir a propagação do coronavírus?

Especialistas afirmam que o manuseio do novo surto pela China mostra uma melhoria drástica na política pública de saúde quando comparada ao manuseio incorreto da SARS. Naquela oportunidade as autoridades parecem ter negado a existência do surto pelo maior tempo possível, e não cooperaram com a comunidade internacional ao lidar com a doença.

Embora ainda existam dúvidas sobre a rapidez com que as autoridades de Wuhan agiram – e se o governo central aprovou a divulgação de informações tão rápido quanto deveria – o país foi mais comunicativo que nas outras situações. Os cientistas também foram muito mais rápidos ao sequenciar o genoma desse novo vírus em relação ao caso do SARS, e o divulgaram para os pesquisadores internacionais em 10 de janeiro.

O New York Times informou na segunda-feira que o governo chinês estenderia o feriado do Ano Novo Lunar – que é de uma semana – por mais três dias, na tentativa de espalhar e encolher as tradicionais reuniões de massa da região. Conhecida como a maior migração anual de seres humanos do mundo, estima-se que 3 bilhões de viagens ocorrerão durante este feriado. Essa situação já foi chamada de “pesadelo epidemiológico”.

Os 11 milhões de habitantes de Wuhan permanecem em grande parte confinados, sofrendo restrições em viagens e reuniões públicas, o que ainda afeta dezenas de milhões de pessoas nas áreas vizinhas. O país destinou 9 bilhões de dólares para combater o vírus, e nesta semana recebeu uma equipe de especialistas da Organização Mundial da Saúde para ajudar a rastrear e conter a propagação da doença.

O prefeito da cidade chinesa de Wuhan, epicentro do surto, admitiu não ter sido transparente em relação tanto à dimensão quanto à gravidade da doença quando ela surgiu em dezembro.

O que o Brasil está fazendo para impedir a propagação do coronavírus?

Além de estudar o que fazer com os brasileiros que residem em Wuhan, o Ministério da Saúde e as autoridades de saúde brasileiras monitoram os novos casos suspeitos do coronavírus no país. O Ministério trabalha dentro de um prazo de cinco a sete dias após a notificação para poder confirmar ou descartar os casos suspeitos.

Em nota, o Ministério da Saúde reforçou aos cidadãos brasileiros que viagens para a China sejam feitas apenas em casos de extrema necessidade, uma vez que todo o território chinês passou a ser considerado área de transmissão ativa da doença. A classificação de risco do Brasil foi elevada para o nível 2, de “perigo iminente”. A mudança acontece com base num protocolo de escala que vai de 1 a 3, sendo que a elevação ao nível 3 só ocorre após a confirmação de casos transmitidos em território nacional.