Canabis medicinal no Japão

Provavelmente nos últimos anos você deve ter escutado sobre o canabidiol (CBD), um produto derivado da Canabis que vem sendo utilizado e pesquisado pelo seu poder em controlar convulsões, melhorar quadros de autismo, tratar de dores crônicas, entre tantas outras melhoras clínicas. O que muita gente não sabe é que no Japão é legalizado e de fácil acesso.

Canabis medicinal no Japão

Provavelmente nos últimos anos você deve ter escutado sobre o canabidiol (CBD), um produto derivado da Canabis que vem sendo utilizado e pesquisado pelo seu poder em controlar convulsões, melhorar quadros de autismo, tratar de dores crônicas, entre tantas outras melhoras clínicas. O que muita gente não sabe é que no Japão é legalizado e de fácil acesso.

No mundo inteiro as pesquisas com Canabis tem se desenvolvido nos últimos anos. Entre os resultados que chamaram a atenção da mídia estava o controle de convulsões principalmente em crianças que não tinham resultados satisfatórios com outra medicação, quadros graves que chegavam a dezenas de convulsões diárias, mas também melhoras nos quadros de autismo, problemas no sistema imunológico, ansiedade, problemas gastrointestinais, inclusive para síndrome do intestino irritável. Se isso tudo já não fosse o bastante, há pesquisas que mostram melhora em quadros de câncer e HIV. A maconha que esteve no alvo de uma política proibicionista mundial passa a ser reconhecida e perseguida pelo seu potencial terapêutico, apesar de todo o preconceito que a envolve.

No oriente, incluindo o Japão, as plantas da espécie cânhamo e maconha sempre foram muito utilizadas na confecção de medicamentos e materiais, inclusive com funções religiosas, uma vez que ela é utilizada nos templos para produzir o cordão sagrado que protege dos espíritos malignos (youkai) e para purificar os santuários. 

Como medicamento, a sua história começa na China e temos notícias de sua prescrição em documentos de quase 2000 anos, entretanto, sabemos que seu uso é anterior a isso. No Japão, o uso medicinal era indicado para dores musculares, asma, alergias e insônia. 

A proibição da maconha no Japão foi no final da segunda guerra mundial, mais especificamente em 1948 com a entrada dos EUA no país, impondo a política proibicionista ao perdedor da guerra. Naquele momento, fazendas de cânhamo (variedade com baixo teor de THC, substância responsável pelo efeito psicoativo) foram proibidas causando preocupação entre os produtores, pois havia indústria e manufatura do cânhamo bem desenvolvida no país e a proibição abriu o mercado japonês para o consumo de materiais sintéticos produzidos nos EUA.

Hoje em dia o Japão ainda é um país com penas severas em sua política antidrogas, inclusive para usuário ou portador da maconha, tendo vários exemplos de banimentos de pessoas do meio artístico após serem flagrados com a planta. No entanto, em 2016 o Japão legalizou o uso do CBD (canabidiol), mas apenas em 2018 as empresas puderam anunciar seus produtos. 

O CBD é derivado da Canabis de baixa concentração de THC, substância responsável pela “brisa” da maconha quando usada para fins recreativos. A lei japonesa autoriza a utilização apenas do caule e sementes, justamente porque o THC se concentra nas folhas e flores. 

O CBD é legalizado e não possui qualquer restrição para compra, ou seja, você não precisa de receita médica ou qualquer documentação burocrática para adquiri-lo. Existem butiques e cafés em Tóquio que comercializam livremente o produto.

Um dos estabelecimentos de sucesso do CBD na capital japonesa, o CBD Coffe, é um espaço para socialização enquanto você saboreia um café com gotas de canabidiol. O proprietário esclarece que seu espaço comercial se tornou um sucesso devido a ser um lugar onde as pessoas podem falar o que estão passando e não se sentem tão isoladas.

Benefícios para a saúde

O CBD pode ser utilizado de diversas maneiras e para muitas finalidades. Sua ingestão pode ocorrer por óleos, tinturas, cápsulas, balas, chicletes, alimentos, infusões, ou ainda por vaporização em “cigarros” eletrônicos. A indústria de cosméticos também já percebeu sua popularização e novas linhas de produtos feitos com CBD, entre cremes, bálsamos e sabonetes, são a última tendência no país que mais consome cosméticos no mundo, além de óleos específicos para animais de estimação.

Muitas pesquisas sobre o uso do CBD estão em andamento, assim como outras substâncias presentes na Canabis, como o THC, mas muito já se sabe do potencial para quadros de saúde nos quais a medicina tinha poucas respostas efetivas, como em casos graves de epilepsia. O autismo é outra condição que mostrou melhoras com o uso do CBD, mas não como única estratégia, além do uso da substância, continua sendo necessário uma equipe multiprofissional para acompanhar autistas. Quadros de ansiedade, depressão e outras questões de saúde mental acompanham a tendência do autismo, com melhoras desde que utilizado um conjunto de estratégias diversas. 

Segundo pesquisas, o CBD pode ser utilizado como anti-inflamatório em casos de dor, inclusive fibromialgia, para regular o sistema imunológico, para doenças crônicas, problemas gastrointestinais, inclusive aqueles que a medicina oferece poucas opções ou respostas, para insônia, enxaqueca, esclerose múltipla, Parkinson, câncer e Alzheimer. Em caso de pacientes terminais é utilizado para diminuir dores e melhorar o apetite. 

Muitas pesquisas estão sendo desenvolvidas e muitos grupos já estudavam os efeitos dos componentes da Canabis antes dela se tornar tão popular. Inclusive no Brasil temos pesquisas desde a década de 1970 coordenadas pelo professor Elisaldo Carlini. Isso nos traz uma grande vantagem para a utilização do produto, pois as pesquisas não são realizadas apenas pelas empresas farmacêuticas e o CBD não tem restrição de pesquisa por conta de patentes. De forma geral, é uma substância muito mais estudada que os medicamentos disponíveis no mercado.

Aquisição do CBD 

Como dissemos, trata-se de um produto legalizado no Japão sem limite de compra e que não exige documentação para ser adquirido. Isso significa que você pode comprá-lo em uma loja física ou pela internet como qualquer outro artigo. Existem empresas japonesas de CBD que você pode encontrar pela internet, mas você também pode adquirir produtos importados dentro da legalidade japonesa através de sites que asseguram o produto no Japão.

No Brasil os produtos a base de CBD podem ser adquiridos apenas com receita médica controlada. Para importar o CBD há um processo burocrático trabalhoso que exige a indicação médica, cadastro na Anvisa e importação com acompanhamento do produto, não podendo ser entregue por uma empresa comum como o Correios. No entanto, há um movimento muito interessante sendo organizado no Brasil para que pessoas tenham o direito de produzir sua própria medicação, além dos grupos de associativismo que começam a se popularizar levando informação e produzindo derivados da maconha e cânhamo de muita qualidade. Isso sem deixar de abordar as questões políticas ligadas ao tema no país do encarceramento de pobres e negros em massa pelo porte de drogas.

CBD é a solução para todos os seus problemas?

Diante da expectativa do mercado para CBD e outros derivados da Canabis, é bem provável que nos próximos anos essa indústria aumente exponencialmente. Para viabilizar essa expansão há um enfoque intenso da mídia e marketing, divulgando o CBD como solução milagrosa para todos os problemas. Pode ser que estejamos diante da próxima geração CBD, assim como tivemos uma geração Prozac, quando falamos de saúde mental. 

De fato, o CBD e outros canabioides possuem diversas propriedades medicinais, podendo curar algumas patologias e aliviar outras, mas para muitos casos não é a solução em si. Falamos isso, principalmente quando pensamos no sofrimento psíquico. Acreditamos que os canabioides são alternativas seguras aos psicotrópicos, oferecendo um tratamento não cronificante como as medicações disponíveis hoje em dia, no entanto, uma medicação por si só não é passível de apaziguar a contradição de que é feito o ser humano. Para lidar com os sintomas dessa complexidade, também é necessário maior complexidade nas abordagens.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

Veja o perfil completo de Carine Sayuri Goto

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