Canabis é a porta de saída para uso abusivo de drogas

Pesquisas mostram que a Canabis pode ser usada em estratégias de redução de danos, diminuindo o uso de substâncias nocivas à saúde

Canabis é a porta de saída para uso abusivo de drogas

Esqueça tudo o que você já ouviu sobre a canabis, pois ela é a porta de saída para o uso de drogas abusivas. Sempre foi demonizada e acusada de ser porta de entrada para drogas pesadas, porém esse argumento moralista nunca teve embasamento científico, sequer social. Hoje temos muitas pesquisas que mostram o contrário: a canabis pode ser usada em estratégias de redução de danos, diminuindo o uso de drogas pesadas que causam mal à saúde, como é o caso do crack, cocaína, opiáceos, álcool e drogas psiquiátricas.

A redução de danos e riscos à saúde são estratégias que o Brasil utiliza desde a década de 1980. Começou com o movimento de distribuição de seringas entre grupos que faziam uso de drogas injetáveis para evitar a contaminação do HIV, mas logo se expandiu para outras áreas, procurando por uma forma de preservar a vida e oferecer alternativas para quem busca tratamento.

Ao contrário do que prega a irreal proposta de abstinência abrupta, a redução de danos propõe de forma progressiva à substituição de drogas pesadas e a canabis sempre foi uma aliada nesta estratégia. Seus efeitos de tranquilidade sempre foram utilizados para combater os sintomas de abstinência de substâncias potentes e viciantes. E não estamos falando somente de drogas ilegais como crack e cocaína, mas também remédios para dor como os opióides ou remédios psiquiátricos administrados por longo período como os ansiolíticos e antidepressivos, podendo incluir as drogas legalizadas com alto poder de dependência, como o álcool.

Outro efeito importante da canabis para as pessoas em situação precária por conta do vício é a tal da larica, gíria usada para expressar a fome sentida após o seu uso. O componente responsável pela sensação de fome é o mesmo responsável pela brisa, atividade psicoativa, e é conhecido pela sigla THC. Pessoas em situação de grande dependência de algumas substâncias podem entrar em períodos de maior risco quando o uso se torna mais intenso e não há preocupação com a alimentação. Nesses períodos as pessoas costumam emagrecer bastante e colocam ainda mais sua saúde em risco. O fato de incluir a canabis nesses períodos faz com que a pessoa volte a sentir fome, sendo essencial para se manter viva.

Você pode estar se perguntando se trocaríamos um vício por outro, no entanto aqui está uma informação que muita gente desconhece, a canabis está entre as substâncias com menor poder viciante, muito menor que o tabaco ou o álcool. Calcula-se que 10% das pessoas que usam maconha se tornam dependentes, esse índice para o cigarro é de 32%, heroína é 23%, cocaína é 17% e para o álcool 15%. Além disso, não há relatos no mundo, até hoje, de qualquer caso fatal de overdose por canabis.

Após diversos estudos e pesquisas, sabemos que a canabis é responsável por inúmeros benefícios. Ela regula um sistema chamado de endocanabinóide que atua ativamente na barreira natural do corpo contra doenças internas e externas, pois está ligada ao sistema imunológico, ela também tem resposta na proteção neuronal, é ativa na manutenção de tecidos dos músculos e ossos e tem muito boa resposta em sintomas psíquicos diminuindo a ansiedade e depressão.

Porém, se a redução de danos trabalhava com a canabis in natura, hoje temos um aliado que no Japão é de fácil acesso: os produtos derivados da maconha sem o THC que acabaram se popularizando pelo nome CBD.

O CBD nada mais é do que a sigla para canabidiol, mas acabou se generalizando para produtos de compostos da canabis que possuem mais que apenas o canabidiol. Quando falamos dos óleos de CBD, geralmente possuem terpenos, que são outras substâncias que compõem a planta. Esses óleos conhecidos como broad spectrum ou amplo spectrum são muito mais ricos que apenas o canabidiol isolado, criando uma sinergia única quando em contato com o nosso organismo.

Esses terpenos já são velhos conhecidos da aromaterapia, pois estão presentes em diversas plantas e são responsáveis pelo aroma e sabor. Na França a aromaterapia tem status de medicina e suas diversas fórmulas de óleos essenciais são usadas para todas as doenças. No caso da canabis, os terpenos potencializam os efeitos dos canabinóides e possuem as funções bactericida, anti-inflamatória, antiviral, sedativa e analgésica.

A boa notícia é que o uso medicinal da canabis através do CBD também tem sido usado para tratar do uso abusivo de drogas e vários são os casos de pessoas que conseguiram deixar as substâncias viciantes. Os produtos derivados do CBD não possuem THC aqui no Japão e não há relato de dependência para quem faz uso deles.

Lidar com os efeitos da abstinência é algo muito difícil, o corpo responde de forma agressiva à ausência da substância da qual está dependente, a sensação de morte iminente, taquicardia, variação da pressão arterial, sintomas psíquicos intensos como sensação de enlouquecimento podem aparecer como resultados desse processo de desintoxicação. A substituição gradual da droga pelo CBD tem sido relatada na clínica com muito sucesso e já existem vários estudos sobre o tema. Caso você se interesse por essa terapêutica, procure um profissional para orientar o tratamento sobre dosagem, concentração do óleo, procedimento, marcas seguras, embora o CBD seja facilmente comprado no Japão.

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e atende no Japão pelo Amae Institute.

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