A pandemia e o luto coletivo

Desde que a Pandemia de Covid-19 começou temos vividos momentos diferentes, ora de recusa, ora de aceitação, embora o movimento negacionista persista para alguns, estamos coletivamente vivendo um luto que também exige saídas coletivas

A pandemia e o luto coletivo

Parte da série Coronavírus, em 354 posts

Desde que a pandemia de Covid-19 começou temos vividos momentos diferentes, ora de recusa, ora de aceitação, embora o movimento negacionista persista para alguns, estamos coletivamente vivendo um luto que também exige saídas coletivas.

Os primeiros casos de Covid-19 apareceram em 2019, mas a pandemia só foi declarada em 2020, mais de um ano depois ainda vivemos em ondas de avanço e recuo das contaminações. Nesse período temos visto que em alguns momentos há maior cuidado na prevenção e em outros momentos é como se ninguém mais aguentasse a nova forma de vida limitada pelo coronavírus. Para além de acusar nosso vizinho por descuidos, precisamos pensar um pouco mais além nesse fenômeno que se apresenta para nós como algo inusitado, em uma sociedade que se caracteriza por ser “sem limites”.

Luto Coletivo na Pandemia

Existe uma autora do mundo psi chamada Elisabeth Kluber-Ross que elaborou uma teoria para o luto, teoria que todo curso de psicologia e psiquiatria verá. Nessa teoria ela formula fases da passagem do luto. Embora na teoria as fases sejam didaticamente definidas, na prática elas podem acontecer em ordem inversa e algumas podem não acontecer. O curioso é que a teoria não se aplica apenas para o luto entendido com a morte de alguém, mas para momentos de crise e catástrofe.

Vivemos atualmente em um momento de crise mundial, por isso, a teoria de Kubler-Ross poderia ser usada para refletir alguns aspectos pandêmicos.

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Os 5 estágios se configuram da seguinte forma: 1) Negação – quando não aceitamos a perda; 2) raiva – pode se expressar como raiva pela pessoa que partiu ou pela situação que causou a perda, etc; 3) negociação – expressado por pensamentos como “se eu pudesse viver pelo menos para ver meus filhos crescerem”; 4) depressão e 5)aceitação. Embora essa teoria nos exemplifique as etapas do luto, importante frisar que cada sujeito vive o luto a sua maneira.

Como poderíamos pensar o momento que temos vivido desde 2020 com a declaração de que estamos em uma Pandemia? Faremos esse esforço pensando em nosso contexto, o Japão:

  1. Negação: “é só uma gripe como a influenza, essa história de pandemia é um exagero”;
  2. Raiva: “malditos chineses, produziram o vírus em laboratório para terem vantagens” ou “chineses primitivos comedores de morcego”;
  3. Negociação: “vamos nos afastar dos asiáticos indesejados e em breve a vacina chegará”;
  4. Depressão: “é um desastre, minha família não vai sobreviver, meus filhos ficarão sem pais”;
  5. Aceitação: “entendemos os perigos da pandemia e sabemos o que temos que fazer para evitar o contágio – vacinação, máscaras, desinfetantes, restrições”.

Em linhas gerais dos estágios do luto aplicados na Pandemia, e de forma generalizada, pudemos observar nesse período como nossa raiva foi expressa através do preconceito e racismo. Se para os brasileiros descendentes de japoneses essa raiva foi direcionada aos chineses, para o Ocidente, a raiva foi direcionada aos povos asiáticos, sem distinção.

No Brasil e Estados Unidos vários casos ocuparam as notícias jornalísticas, em nosso país inclusive com uma nikkey sendo agredida verbalmente no metrô de SP. Isso nos mostra a irracionalidade que acompanha a raiva e nossa tentativa desesperada de sempre culpar o outro, característica que repetimos ao longo da vida quando não conseguimos aceitar nossa responsabilidade, essa característica é muito presente no início de uma análise pessoal, quando a pessoa que se queixa nas sessões de psicanálise não consegue perceber sua participação em seu próprio sofrimento.

Se culpar os chineses pela pandemia nos foi tão útil para nos eximir de nossas responsabilidades diante da pandemia, isso acontece porque não queremos abrir mão daquilo que provocou de fato a pandemia, a saber, nossa forma de viver nesse planeta e nessa sociedade contemporânea.

Limites sociais

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Vivemos em uma sociedade de excessos, a começar pelo excesso de produção industrial: as indústrias do planeta produzem tudo em excesso: carros, comida industrializada, plástico, objetos supérfluos, roupas, tudo que se imaginar. Nossa crise atual não é de falta de produtos, embora possa se passar pela má distribuição da nossa produção. Produzimos milhares de celulares, computadores, tablets, televisores, eletrodomésticos que com pouco tempo de uso se tornam lixo.

Na época de nossos pais muitos produtos comprados eram feitos para durar quase uma vida, imagino que vocês tenham exemplos na família de, por exemplo, uma geladeira ou uma máquina de lavar roupas com muitos anos de uso, algo que não se repete com os produtos atuais.

Se sua mãe ainda tem aquela máquina de lavar roupas que foi comprada quando você nasceu, em comparação sua impressora não durou 3 anos, não é? Você sabia que quando as meias calças foram inventadas, eram feitas de um material que não rasgava e que uma lâmpada era feita para durar 40 anos? Mas as empresas aprenderam rápido que com isso seu lucro seria limitado e a equação para não ter limite nas vendas viria com a “obsolescência programada”.

Essa expressão estranha significa que sua impressora poderia durar 10 ou 20 anos, mas a empresa que a fabrica produz artificialmente um problema com prazo para acontecer e que fará você comprar outra impressora. As coisas são feitas propositadamente com um curto prazo de validade para que compremos cada vez mais.

Porém, há outro elemento muito interessante para se levar em conta, a “obsolescência percebida” ou nossa forma de perceber um produto como não mais útil porque nos parece ultrapassado. É dessa forma que a cada iPhone novo ou a cada novo produto da Apple milhares de pessoas se aglomeram em filas para ter o “privilégio” de ser um dos primeiros a ter tais produtos, como se cada produto tecnológico fosse fazê-las especial.

Nessa roda da produção acabamos por depredar o planeta como nunca antes aconteceu na história do mundo, despejamos esgoto puro nos rios, lançamos gazes tóxicos na atmosfera, devastamos imensas áreas de floresta, acabamos com o ecossistema e junto com animais e insetos sem os quais não podemos viver.

Nessa triste história da humanidade a China ocupa um lugar central, conhecida como o parque industrial do planeta, ela fabrica produtos que chegam em todos os lugares do mundo, claro que toda produção industrial tem consequências como já citamos. Logo, a produção industrial provocando desastres ecológicos, também provocam desequilíbrios nos micro sistemas.

Se por um lado nossa raiva levou a culpar os chineses pela pandemia, até agora não conseguimos assumir nossa parte: a de que a produção sem limite existe porque somos consumidores sem limites, ou seja, a Pandemia ocorreu porque os seres humanos a provocaram, sem distinção de raça, unidos pelo nosso sistema econômico capitalista.

Muito mais que culpas individuais

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Chegamos então ao ponto de nos reconhecermos como causadores da Pandemia, e pior, não estamos conseguindo fazer nada para evitar futuras pandemias. Nossa forma de ser no mundo continua a mesma: estamos preocupados sobre quando vamos voltar à vida normal, saindo, comprando e vivendo sem limitações, sem limites!

Nossa cegueira é tão tamanha que não percebemos que justamente as limitações do Covid nos escancaram violentamente o quanto nossa sociedade se apresenta como ilimitada. Isso se apresenta na ideia de que “você pode ter tudo que quiser”, “tudo depende de você”, “não há limites para o esforço” e assim por diante.

É justamente nessa toada que chegamos ao nosso limite, se agora encarnado pela Pandemia, mas antes e concomitantemente com o vírus do Covid o Burnout, o suicídio e a depressão, todos elementos que nos sinalizam que não temos limite senão quando não conseguimos mais responder a nada.

Ao que tudo indica, não conseguimos fazer essa reflexão coletivamente e continuamos apostando que a Pandemia será contornada com nossa expertise. Um detalhe: para muitos a pandemia tem sido um mercado de lucro inesgotável, não à toa nesse momento vivenciamos a inauguração da exploração do espaço de forma particular, feita por um empresário do e-commerce, um dos homens mais ricos do mundo em uma concentração de renda que também não tem limites e que significa, por outro lado, que milhares de pessoas estarão na extrema pobreza, vivendo nos lixões do mundo.

Se quisermos brecar as próximas pandemias, precisaremos mudar completamente nossa forma de viver, nossa forma de produzir e nossa forma de consumir. Estamos dispostos a isso? Estejam preparados.

Leia também: Os perigos do negacionismo: Japão e o Covid-19

Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

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