O desgaste psíquico produzido nas fábricas japonesas

O desgaste psíquico produzido nas fábricas japonesas

No cotidiano fabril são diversos os relatos de pessoas que acompanharam o sofrimento psíquico de um colega de trabalho, ou que passam por ele

Desde a década de 1990 os brasileiros descendentes de japoneses têm a possibilidade de adquirir o visto de trabalho no Japão. Inicialmente chamados de Dekasegi (aqueles que trabalham temporariamente, juntam dinheiro e retornam ao Brasil), hoje muitos desses trabalhadores podem ser considerados imigrantes.

Para cada pessoa que toma a decisão de deixar seu país para trabalhar no Japão temos a peculiaridade de uma história de vida, de esperanças e dificuldades. O que no país de origem começa como vontade de trabalhar e ter uma vida mais digna, no Japão rapidamente é reconfigurado pela dificuldade do trabalho no dia-a-dia.

As fábricas que contratam a mão-de-obra brasileira são bastante variadas, passando pelas famigeradas fábricas de autopeças, as de componentes eletrônicos e as de alimentos. Algumas delas são conhecidas pelo trabalho pesado, que exige muito fisicamente de cada trabalhador, algumas demandam um trabalho mais delicado, mas em quantidade de produção exorbitante. Algumas pessoas relatam preferirem um trabalho que exija mais em esforço, como carregar peças pesadas, ao invés de trabalhos leves, os quais aparentemente não exigiriam tanto esforço, mas que na prática requerem muitas horas em uma só posição, fazendo um mesmo tipo de movimento, num melhor estilo fordista, se não fosse a demanda de que o trabalhador se adapte à diferentes linhas de produção, de acordo com a exigência do mercado.

No cotidiano fabril são diversos os relatos de pessoas que acompanharam o sofrimento psíquico de um colega de trabalho, ou que passam por ele. Além da decisão de abandonar seu país (ainda que temporariamente para alguns), estar longe de pessoas queridas (inclusive alguns longe dos filhos), nos deparamos com algumas outras situações:

– a questão de que o trabalho no Japão é entendido por um fracasso pessoal no Brasil, uma vez que no momento histórico que vivemos o indivíduo assume a centralidade;

– o fato de que há uma grande discriminação racial nas fábricas japonesas, sendo que ainda há empresas onde os cargos hierárquicos só são ocupados por japoneses, mesmo que os brasileiros dominem muito mais os processos de produção;

– o desprezo demonstrado a cada um no papel de trabalhador: ausência de direitos fundamentais, seja por uma legislação mais branda nas fábricas, seja pela ausência de conhecimentos das leis trabalhistas no Japão ou força para exigi-las.

– o fato de que cada trabalhador é uma peça da engrenagem de produção, altamente substituível, principalmente diante de algum “defeito”. Alguns relatos são extremamente brutais com relação ao que o trabalho produz e como cada trabalhador estrangeiro é descartado, muitas vezes não restando outra alternativa a não ser voltar para seu país de origem;

– a ausência de apoio voltado à questão dos estrangeiros trabalhadores das fábricas, seja em questões sociais, de saúde, educacionais ou mesmo um apoio de receptividade ao chegar no país;

– ausência de diálogo nas fábricas para questões que melhorariam o di-a-dia do trabalhador.

Todos esses tópicos atingem cada pessoa de forma bastante intensa, mas para cada um o sofrimento gerado por essas situações pode se manifestar de forma diferente (este é tema para outro texto).

No resumo, o trabalho nas fábricas (de qualquer lugar do mundo) produz algo além das mercadorias, que são foco central da indústria. A produção da qual estamos nos referindo é o sofrimento, que começa pela própria forma de organização do trabalho (produção em série, em esteiras que ditam o ritmo, descartando completamente a pessoa que está ali) e que tornam o trabalhador estranho ao que produz, refletindo em suas relações com as outras pessoas e consigo mesmo. Ou seja, diante de um trabalho fabril, vendemos nossa força de trabalho e ganhamos em troca o salário e o adoecimento, este é o cálculo que deve ser feito,mas que é negado por toda empresa.

Carine Sayuri Goto

Psicanalista no Japão

Contato: psinojapã[email protected]

Facebook: Carine Sayuri Goto – Psicanálise

Formada em psicologia em 2006 pela UNESP, com mestrado em Saúde Mental pela mesma Universidade. Psicanalista lacaniana, membro do Open Dialogue Network Japan e atende no Japão pelo Amae Institute.

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