Cannabis medicinal no Japão: Características do óleo de CBD permitido no país

O Japão é um dos países com uma política de combate às drogas mais severas do mundo. Por conta dessa legislação a cannabis medicinal é parcialmente permitida no país, mas o que isso significa para a terapêutica canabica possível no país?

Cannabis medicinal no Japão: Características do óleo de CBD permitido no país

A Ásia de forma geral tem uma história muito antiga com a cannabis, seja de forma medicinal, religiosa ou na manufatura essa planta esteve presente de forma milenar na região, sendo que a China é o país de onde se tem registros mais antigos, cerca de 2.700 anos antes de Cristo. O Japão, por sua vez, também fez uso da cannabis principalmente na indústria e religião, por conta das fibras da planta, que é conhecida como cânhamo (a melhor subespécie para utilização das fibras).

Foi somente após a 2ª Guerra Mundial que a política contra a cannabis foi disseminada no mundo através dos EUA, o Japão, como perdedor da guerra foi submisso à imposição que tinha como pano de fundo a abertura de novos mercados para os Estados Unidos poder vender com a produção de materiais sintéticos. Muitas fazendas de cânhamo de produção familiar foram devastadas e famílias ficaram sem nada nesta transição.

A legislação japonesa no combate da cannabis é uma das mais rígidas do mundo, sendo que qualquer quantidade da planta já enquadra seu portador como criminoso e para ele dois destinos são reservados: cadeia e pagamento de multa.

Cannabis

No entanto, desde 2018 o Japão abriu seu mercado para o CBD, sigla para canabidiol, um dos componentes da cannabis que não tem efeito psicoativo. O país cedendo à pressão das empresas liberou seu uso de forma bastante desburocratizada, de modo que não é considerado um remédio e, por isso, não é necessário receita médica. Também não há limite para aquisição do CBD, você pode comprar quanto quiser, na proporção que achar necessário.

A febre do CBD no Japão tem ganhado força nos últimos tempos com uma forte propaganda do mercado de bem-estar, que lucra muito dinheiro todos os anos. São novos produtos, marcas importadas que se estabelecem no país, abertura de cafés badalados que vendem seus produtos e bebidas com CBD, além de chocolates, balas, sais de banho, pomadas, cosméticos e muito mais. No entanto, tudo isso precisa se encaixar na legislação e para isso, também se perde no potencial terapêutico.

Que produtos com cannabis que podem ser comercializados no Japão

A legislação é muito clara: somente produtos derivados das sementes e caule é permitido, isso significa dizer que as flores e folhas não podem ser utilizadas. Para as pessoas leigas na planta pode ser que isso não diga muita coisa, afinal de contas ainda podemos ter algum produto da cannabis, mas não é bem assim.

O produto terapêutico da cannabis está localizado nos tricomas, sacos de resina concentrada composta por mais de 100 canabinóides (entre eles o CBD e o THC) e outras centenas de terpenos e flavonoides. Esses tricomas são produzidos pela flor da cannabis, é ali que fica toda a riqueza medicinal da planta.

Uma flor de cannabis é extremamente rica medicinalmente e os componentes dessa resina são capazes de tratar o que até hoje a medicina nunca conseguiu, como: Parkinson, Alzheimer, câncer, epilepsia que não responde a tratamento convencional, problemas no sistema imunológico, fibromialgia, dores crônicas, processos inflamatórios crônicos, entre muitas outras doenças.

No caso da vida psíquica a cannabis é infinitamente melhor que qualquer remédio psiquiátrico, não provocando dependência e não piorando os quadros ao longo do tempo, além disso ela não atrapalha os processos de análise pessoais e psicoterapias, sem os quais não se alcança a cura. Essa é a dimensão das propriedades da resina da flor de cannabis. Em suas folhas também há uma pequena concentração, mas nada comparado com as flores.

Nos países onde a cannabis já está legalizada, tanto para uso medicinal, mas muitos já para uso recreativo, a produção de medicamentos da cannabis descarta tudo aquilo que o Japão utiliza para fazer seus produtos: o caule e as sementes não são considerados com potencial medicamentoso quando se pode trabalhar com as flores.

Notem que isso significa dizer que em países onde o uso medicinal integral da cannabis é possível a preparação da planta para a extração da resina é feita descartando o caule e as sementes. Na verdade, as plantas que são utilizadas em grande escala para produção industrial não geram sementes, uma vez que não são polinizadas e se multiplicam por clones para manter a carga genética idêntica. O caule, via de regra, é utilizado para a produção da fibra.

Cannabis

Com a política de guerra às drogas o Japão criou a seguinte situação: abriu seu mercado milionário para produtos inferiores, com pouco potencial medicinal.

Um produto medicinal feito das flores é infinitamente mais potente e complexo que um feito do caule, mesmo assim, os resultados dos produtos da cannabis no Japão produzem melhoras terapêuticas espantosas.

Quando o Japão estiver preparado para aceitar a revolução de tratamentos vindos da cannabis de forma integral, deixaremos de ocupar o lugar de país que compra a um preço caro o que os outros países jogam fora, até lá utilizaremos o que está disponível, precisando às vezes acrescentar outros componentes fitoterápicos para potencializar o que temos de forma escassa.

Carine Sayuri Goto

Psicanalista lacaniana, formada em psicologia com mestrado em Saúde Mental, ambos pela Unesp. Primeira profissional da Saúde Mental a orientar o uso do CBD no Japão. Membro do Open Dialogue Network Japan e da Japanese Society of Transcultural Psychiatry. Atende no Japão pelo Amae Institute.

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