Beleza e Simplicidade: uma maneira japonesa de enxergar o mundo

Beleza e Simplicidade: uma maneira japonesa de enxergar o mundo

O termo Wabi Sabi tem suas raízes no ritual da cerimônia do chá. Nos tempos atuais ele é entendido como um modo de pensamento que nos ajuda a viver a vida com mais consciência da beleza inerente das coisas que nos cercam, mesmo sendo imperfeitas.

Conta a lenda que um jovem desejava aprender o elaborado ritual da cerimônia do chá com um grande mestre. Para testá-lo, o mestre pediu que ele limpasse o jardim do templo.

Com cuidado, ele limpou cada canto do jardim. Tudo estava perfeito, nenhuma folha caída ou areia fora do lugar… as pedras e plantas também estavam todas organizadas.

Porém, antes de apresentar seu trabalho ao mestre, ele sacudiu os galhos de uma cerejeira, fazendo algumas flores caírem despretensiosamente pelo chão. O mestre, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro, pois com essa atitude ele mostrou que existe beleza na imperfeição.

Essa é a premissa da tendência wabi sabi. A beleza na imperfeição.

Wabi sabi é um termo frequentemente usado para aludir à simplicidade rústica e à arte da imperfeição em nossas vidas. O termo tem suas raízes no ritual da cerimônia do chá, mas atualmente é mais usado fora de seu contexto original. Nos tempos atuais ele é entendido como um modo de pensamento que nos ajuda a viver a vida com mais consciência da beleza inerente das coisas que nos cercam, mesmo sendo imperfeitas.

Depois que os monges zen trouxeram o chá para o Japão no século XIII, este logo tomou conta das grandes salas de recepção das mansões da elite. Os jogos e apostas em torno da prova cega de chá era considerado um passatempo elegante. Para tais reuniões, preciosos objetos chineses (conhecidos como karamono) eram expostos, sendo uma demonstração de riqueza e poder. Esse estilo de cerimônia era chamado de Shoin.

Beleza e Simplicidade: uma maneira japonesa de enxergar o mundo 1
Foto por Roméo A.Unsplash

Com o passar do tempo, a disposição dos objetos, quantidade e o espaço utilizado para a cerimônia do chá foram se transformando. As estruturas foram simplificadas e os materiais utilizados também, passando a valorizar a argila e o bambu, resultando na apreciação da beleza contida no rústico e no imperfeito. Esse estilo foi chamado de wabi

O verdadeiro mestre da cerimônia do chá é capaz de realizar a cerimônia transmitindo a mesma beleza e dignidade, utilizando-se de objetos rústicos e espaço reduzido que outrora era realizado em grandes salões e com luxuosas peças chinesas.

Podemos dizer que wabi significa gosto pelo simples e silencioso, pelo rústico e pelo refinamento austero, enquanto sabi se refere à beleza da idade, do desgaste do tempo. Por ser uma expressão exclusivamente japonesa, não possui uma tradução exata em português e é difícil explicar em poucas palavras.

É um conceito baseado na aceitação da beleza que existe na simplicidade, na transitoriedade e na imperfeição. Aceitar que o belo é imperfeito e incompleto.

Além da cerimônia do chá, podemos perceber esse conceito em diversas artes japonesas como a Ikebana, jardins zen, bonsais, cerâmicas japonesas, entre outras artes japonesas. 

Beleza e Simplicidade: uma maneira japonesa de enxergar o mundo 2
Chouontei – Jardim do Som da Maré. Foto por Jaqueline Kuriu

Frequentemente, quando usamos palavras como wabi ou sabi, nos restringimos a apenas ver sua forma exterior, enquanto evitamos tentar entender o significado mais profundo da palavra.  

O estado emocional atingido quando o wabi é alcançado só toma forma depois que tudo o que poderia ser feito for diligentemente concluído.

A beleza não está no objeto antigo, mas na sua trajetória, nos sorrisos e lágrimas que surgem quando se toma uma xícara de chá. A beleza está naquilo que não se vê com os olhos, e está emoldurada na simplicidade da argila ou do bambu. O que é belo e precioso é a própria vida, vivida a cada momento e abrangendo a percepção da transitoriedade e do imperfeito, a aceitação de que as flores nascem e morrem e tornarão a inebriar os sentidos com suas cores e seus perfumes. Trata-se da compreensão do ciclo da vida, o dia e a noite, as estações do ano, o envelhecimento. E isso é perfeito.

Esse estado emocional pode ser exemplificado através do poema de Fujiwara Sada-ié para definir wabi.

見わたせば 花も紅葉もなかりけり 浦のとまやの秋の夕暮 ー 藤原定家

“Observando, nem as belas flores de cerejeira da primavera nem as folhas de bordo vermelhas brilhantes do outono permanecem. Apenas a casa de palha de um pescador à beira-mar no crepúsculo do outono.”

Alguém que não conhece as flores ou os bordos só vê o triste e o vazio, sem os sentimentos de alegria e tristeza pelo que foi e pelo que está por vir. A imagem do pescador à beira-mar é tudo o que ele sabe, a tristeza de uma paisagem vazia e duradoura.

É claro que uma definição verbal definitiva para o significado de wabi sabi não pode ser alcançada. Os autores do estilo usaram alegorias abstratas para ilustrar o que entendiam por wabi sabi. O estilo em si não é simplesmente uma abordagem cognitiva das coisas mundanas. Pelo contrário, depende mais de uma experiência emocional das coisas como elas são em essência.

Beleza e Simplicidade: uma maneira japonesa de enxergar o mundo 3
Foto por Jeff LeonhardtPixabay

O termo wabi tem seu significado original em um senso de solidão, que pode ser comparado a um eremita solitário que vive em uma casa rústica nas montanhas. Essa noção gradualmente passou a gostar de simplicidade e quietude. Sabi, por outro lado, é usado para se referir à transitoriedade das coisas, à beleza da impermanência. Pode ser comparado a uma emoção mista de alegria e tristeza. Quando vemos algo bonito, por exemplo, uma flor de Ipê cair diante de nossos olhos, somos surpreendidos pela tristeza pela passagem da flor, mas, ao mesmo tempo, nosso coração se enche de alegria, pois o testemunhamos em seu auge. E esse sentimento só pode existir quando estamos cientes do fluxo natural da natureza. Sabemos que todas as flores chegam ao fim, mas também entendemos que no próximo ciclo elas aparecerão novamente. Essa é a realidade do mundo em que vivemos e o poema de Sada-ié expressa essa emoção.

O chá no estilo Wabi evoluiu como uma separação do luxuoso chá no estilo Shoin, adicionando influências zen-budistas à práxis. Como resultado, demonstrações de riqueza e esplendor foram minimizadas e os espaços para o passatempo do chá se tornaram cada vez menores. Além disso, a implementação de objetos rústicos para uso no ritual do chá completa o wabi como a antítese de seu estilo antecessor.

Os criadores do wabi sabi entendiam que o verdadeiro significado do estilo é transmitido em uma experiência emocional direta e que qualquer definição verbal seria inevitavelmente inadequada para abranger com sucesso a extensão de seu significado. Eles, portanto, se baseavam em imagens abstratas da expressão poética e da pintura para fornecer um meio para o receptor começar pelo menos a se aproximar da quintessência de seu estilo. No entanto, cabe ao adepto, através de prática diligente, estudo e meditação, nutrir uma total apreensão interna da estética wabi.

A busca pela perfeição no trabalho, relacionamentos, realizações, muitas vezes leva à ansiedade e ao estresse. É aqui que o wabi sabi convida para uma reflexão. A filosofia japonesa nos encoraja a focar nas bênçãos escondidas nas coisas simples do dia a dia e a celebrar como as coisas são e não como deveriam ser. Aceitar a imperfeição pode nos ajudar a compreender os desafios da vida. Este é o ensinamento prático com base nesse conceito japonês.

Imagem destacada: 4537668Pixabay

Referência: Kyugetsu.

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

Veja o perfil completo de Jaqueline Kuriu