Kumano Kodo: a rota sagrada de peregrinação

Kumano Kodo: a rota sagrada de peregrinação

Kumano está localizado ao redor da península de Kii, cerca de 100 quilômetros ao sul de Osaka. Abrange as prefeituras de Wakayama e Mie. Contém em seus limites três santuários: Hongu Taisha, Nachi Taisha e Hayatama Taisha. Os peregrinos utilizam trilhas antigas há mais de 1000 anos, chamadas Kodo, e por elas se chega aos santuários.

A antiga região de Kumano, conhecida como a “terra dos deuses”, liderou a lista dos melhores lugares para visitar no Japão em 2020, eleitos pelos leitores do site em inglês GaijinPot.

“Estamos muito honrados por termos sido selecionados como o principal destino de viagem”, diz Hideyuki Inamoto, presidente da Federação de Turismo da Prefeitura de Wakayama. “Kumano, na província de Wakayama, é considerado um local sagrado para adorar a natureza onde os deuses vivem.  Dizem que a viagem de peregrinação a Kumano é ‘o início de uma jornada japonesa’. Estamos ansiosos para recebê-los em Kumano. ”

A área de Kumano (熊 野) está localizada ao redor da ponta sul da península de Kii, cerca de 100 quilômetros ao sul de Osaka. Abrange as prefeituras de Wakayama e Mie, embora a maioria das atrações e locais religiosos esteja em Wakayama.

Kumano abrange três santuários: Hongu Taisha, Nachi Taisha e Hayatama Taisha, e os três são conhecidos como Kumano Sanzan. Os peregrinos utilizam trilhas antigas há mais de 1000 anos. Elas são chamadas Kodo, e por elas se chega ao Kumano Sanzan. Daí o nome Kumano Kodo. As rotas de peregrinação se desenvolveram como uma alternativa para as pessoas transitarem entre as áreas sagradas da península de Kii.

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Foto por K. MishinaPixabay

Os santuários são ainda mais antigos, com menção na mitologia originária do Japão: Jimmu, o bisneto de Amaterasu, a deusa xintoísta do sol, veio a Kumano para unificar o país e tornou-se o primeiro imperador do Japão.

Quando o budismo foi introduzido no Japão, no século VI, os kami (deuses) de Kumano Sanzan passaram a ser considerados divindades budistas que mudavam de aparência para salvar o povo japonês. Esta teoria se chama “Honji suijaku”, e Kumano foi um dos locais onde ela foi criada.

Para aumentar ainda mais a aura divina da região, Kumano é freqüentemente chamado de “A Terra dos Mortos”, em referência à crença de esse era o lugar onde as almas das pessoas que morreram (“komoru” em japonês) se reuniam. Isto fez de Kumano um lugar importante para aposentar os imperadores.

Vilas e cidades pontilham a costa de Kii, combinando a história antiga de Kumano com a vida cotidiana. Algumas são famosas pelas fontes termais, como Shirahama e Katsuura, enquanto outros apresentam lindas paisagens costeiras, como Kumano e Kushimoto.

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Foto por かねのり 三浦Pixabay

No século XII, os Kumano Sanzan eram santuários bem conhecidos no Japão, atraindo peregrinos principalmente de Kyoto e Osaka, e também de todo o Japão. Mais do que apenas um meio de alcançar os três santuários, as trilhas de peregrinação foram projetadas para serem uma experiência religiosa em si mesmas e, muitas vezes, passam por terrenos difíceis e até perigosos nas montanhas.

Além de vincular os santuários, as trilhas de peregrinação do Kodo ligam a área de Kumano a Kyoto, Koyasan (sede do budismo Shingon), Yoshino e Omine (centros de culto nas montanhas) e Ise (santuário xintoísta mais importante do Japão).

Hoje, a maioria das trilhas costeiras desapareceu com o desenvolvimento e a construção de estradas, porém várias trilhas e passagens nas montanhas permanecem. Kumano Kodo estende-se ao longo de três municípios, dentre os vários percursos que permaneceram ao longo do tempo, alguns demoram várias horas, outros podem demorar dias. 

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As principais trilhas são as seguintes:

  • a Estrada Kii : de Watanabe-tsu até Tanabe; 
  • a Koheji: do Monte Koya até Kumano Sanzan, 70 km; 
  • a Nakahejii: de Tanabe até Kumano Sanzan; 
  • a Oheji: de Tanabe até Kushimoto e Kumano Sanzan, 120km;
  • a Iseji: de Ise-Jingu Shrine até Kumano Sanzan, 160km.

Visitar os santuários em Kumano tornou-se popular entre os séculos IX e XII. A crença de visitar Kumano se espalhou também entre a Família Imperial e a aristocracia. No século XIV, os samurais e as pessoas comuns também começaram a visitá-lo e no século XVII, essa prática espalhou-se amplamente. A divindade que reside em Kumano aceitou todos, independentemente de sua posição ou sexo, e esse é outro motivo pelo qual a devoção espalhou-se amplamente.

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Foto por Nao Iizuka – CC BY 2.0

O santuário principal de Kumano Sanzan é o Grande Santuário de Kumano Hongu Taisha. No final do longo caminho de 158 degraus de pedra, ergue-se 4 santuários principais seguidos com belos telhados Hiwadabuki. Hiwadabuki é uma técnica tradicional de cobertura japonesa, também chamada de casca de cipreste.

Diz a lenda que as divindades de Kumano, na forma de três luas, desciam nos galhos de um carvalho gigante na clareira formada por um banco de areia na confluência dos rios Kumano e Otonashi em Oyunohara.

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Foto por kekopiPixabay

A entrada é marcada pelo maior Torii (portal) do mundo, com 33,9 metros de altura e 42 metros de largura. É a entrada para uma área sagrada.  Significa a divisão dos mundos material e espiritual.

Em 2004, os tesouros religiosos de Kumano e as rotas de peregrinação foram designados como Patrimônio Mundial da UNESCO.  Nomeada “Os locais sagrados e as rotas de peregrinação na cordilheira Kii”, a designação também inclui os vizinhos Koyasan, Yoshino e Ominesan. São as únicas rotas de peregrinação, além do Caminho de Santiago, designadas como patrimônio mundial.

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Foto por MShades – CC BY 2.0

Muitos festivais especiais acontecem durante o ano como por exemplo, as comemorações do feriado de Ano Novo; o Benkei Festival no outono, com dança, dramatização e fogos de artifício; o Festival da Primavera que é um momento muito comemorado em todo o Japão, onde as flores voltam a colorir o cenário antes embranquecido pela neve; e o Festival do Fogo de Yata-no-Hi no verão, são alguns exemplos dentre várias opções de atividades culturais na região.

“As viagens espirituais – semelhantes às experiências oferecidas na região de Kumano – são uma tendência emergente em todo o mundo, à medida que a geração do milênio busca significado em países distantes”, diz Randiah Green, editor da GaijinPot Travel. “Parece que os leitores amam o que o Japão tem a oferecer e podem preferir um retiro mais contemplativo antes do início das Olimpíadas em Tóquio.”

Jaqueline Kuriu é praticante de Kyudo, a arqueria tradicional japonesa, e estudante de japonês. Atualmente mora em Tóquio, mas nasceu em Curitiba, onde se formou em Educação Física pela UFPR. Trabalhou com dança e atividades culturais, e realizou palestras sobre arte, música, cultura e viagens.

Veja o perfil completo de Jaqueline Kuriu