Açúcar e o Japão: o macaco também cai da árvore

Como pequenas coisas corriqueiras, tais como uma simples fila no supermercado, moldam minha percepção sobre o Japão

Açúcar e o Japão: o macaco também cai da árvore

Meu domingo começou assim, indo ao supermercado às 9 da manhã, pegando fila pra comprar açúcar barato. São nessas situações que percebemos que já não somos mais jovens há muito tempo. 

O lance da fila acontece pois como o açúcar está em promoção, muitos querem comprar e o supermercado determina no máximo dois pacotes por pessoa. 

Como fui com a família já garanti 6 pacotes, mas é necessário fazer uma compra acima de um certo valor, fora o do açúcar, para pegar a promoção. 

Tive que deixar minha preguiçosa cama e em pleno domingão, levantar às 7 da matina para poder chegar no mercado à tempo. Meu Deus, que coisa de tiozão! 

A promoção do açúcar e as reflexões no supermercado

açúcar

Fiz todo esse esquema do açúcar para economizar e voltei com uma bandeja de sashimi de atum no valor de ¥1000, pois não suportei a vontade de saborear esses pedacinhos milimetricamente fatiados, que derretem na boca de tão macios e saborosos.

A patroa desaprovou, como era de se esperar, é claro, afinal, nosso foco desse dia era a compra do açúcar na promoção.

Mais um dia de domingo de um pai de família estrangeiro no Japão, casado com uma nipo-brasileira que foi criada aqui, e que embora possua o passaporte verdinho, age, pensa e fala como um nativo, indo atrás de açúcar pela manhã.

Sou muito grato por isso. Aprendi muito com ela e confesso que tenho muito que aprender ainda. Ela é uma japonesa de criação com coração brasileiro. 

O povo japonês é muito ligado nessas coisas, esses detalhes que na maioria das vezes passam despercebidos de um cara como eu, que costuma pisar em um supermercado duas vezes por ano e que não é muito afetivo à ideia de fazer compras da semana em dias específicos para promoções específicas. 

Como eu disse, são duas vezes por ano, uma vez para comprar alguma coisa que eu prometi para esposa e esqueci e outra pra voltar no mesmo dia para trocar o que acabara de comprar errado. 

Aqui no Japão existem promoções para tudo. Eu costumo dizer para meus amigos no Brasil que aqui o Black Friday é quase 365 dias por ano. É um negócio louco. 

Lojas e restaurantes possuem seus próprios sistemas de liquidação e fidelização de clientes, que vai de cartões de pontuações e cupons de descontos, das mais diversas variedades, a sorteios de prêmios. Até viagens rolam para os clientes ganhadores. 

açúcar

Por exemplo, você vai em um restaurante de lámen e ao pagar a conta ganha um cupom de desconto de ¥200. 

Durante o pagamento, o atendente pergunta se você possui o cartão de pontuação, que de acordo com o valor gasto, pode lhe render vários carimbos ou pontos. 

À medida que vai enchendo com os carimbos ou pontos, você ganha mais descontos ou pequenos mimos, como na compra de um lámen tamanho grande, você ganha uma porção de frango frito pequena. 

E com um acréscimo de ¥100, esse frango frito pequeno vira um médio e por aí vai.

Imaginem as milhões de possibilidades que esse tipo de prática, de fidelizar o cliente, proporciona ao comércio em geral, tanto na questão de venda de produtos e serviços, como na hora de pagar uma compra com o cartão de crédito de certa loja, pagamento da fatura em dia, é claro. 

São milhões de possibilidades e todo mundo sai ganhando. Penso que para que isso aconteça e funcione, incluindo as filas para comprar açúcar barato, de forma efetiva, são necessárias 3 coisinhas.  Confiança, disciplina e organização. 

São três palavras muito fortes e que remete mesmo ao que conhecemos sobre o Japão, tanto se você for um marinheiro de primeira viagem ou um estrangeiro radicado. 

Imagine para aqueles que veem e leem sobre o Japão à distância, seja através de mangás e anime ou mesmo de vídeos no YouTube sobre esse país fantástico, com todas as suas imperfeições sim, mas ainda fantástico. Sem dúvida que isso é fascinante.

Essas pequenas aventuras e vivências que relatei demoraram um pouco, no meu caso, para serem notadas, mesmo depois de alguns anos vivendo aqui. Em algumas coisas mais peculiares, sou muito lento para sacar algo. 

No início, minha vida se resumia em trabalhar de segunda a sábado e dormir o dia todo no domingo. Depois do nascimento de meus filhos, aquele raio de sol pela fresta da janela de um quarto escuro começou a ficar cada vez mais intenso até que eu tive que despertar de vez para as coisas, para o mundo real. Sou sensível à luz forte. 

Esse é um relato que deixaremos para uma próxima oportunidade. O que estou querendo trazer à luz do lamparina (mais ameno que a do sol, prefiro) é o quanto eu comecei a questionar as coisas nos últimos anos sobre o Japão e esse modus operandi da nação nipônica. 

O quanto essa sociedade é capaz de construir um palco cenográfico gigante na sua frente sem que você perceba o movimento dos guindastes por trás das cortinas. 

Em tempos de pandemia, me questiono toda vez que vejo no noticiário, como o Japão perdeu a chance de ser uma nação exemplo no combate ao vírus, sendo que já possuem todo o know hall cultural para isso desde os tempos do pós-guerra. 

Uma nação que se reergueu depois de duas bombas atômicas mas que está sem rumo no trato à uma vacinação tardia de sua população, permitindo que aconteça um evento esportivo de grande proporção no auge da contaminação. 

No frigir dos ovos, me vem à mente e de forma paradoxal, a organização na fila do supermercado para comprar o açúcar , a confiança na fidelização de clientes do comércio e a disciplina das esposas japonesas em aproveitar cada 1% de promoção dos supermercados em diferentes dias da semana. 

Me lembro de um provérbio japonês bem oportuno para essa ocasião que diz assim:  Saru mo ki kara ochiru, que em uma tradução livre significa, o macaco também cai da árvore. Segura nessa árvore macaco, mas não segura com muita força senão o galho quebra.

Fica a reflexão do dia que aproveitei para comprar açúcar na promoção.

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Ricardo Pozzuto

Ricardo Pozzuto, 43. Atuou em empresas no Brasil na área de engenharia de produção, foi ao Japão em busca de novos horizontes e lá está ha mais de 18 anos. Nunca estudou jornalismo mas adora escrever e contar tudo o que vive, sente e pensa sobre o Japão, Brasil e o mundo. É conhecido como Caipira no Japão, um cara que produz conteúdo para as pessoas que valorizam informação, crescimento pessoal de um ponto de vista nem sempre pragmático, mas se diverte muito fazendo isso. Gratidão sempre.

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